Quando falamos em leitura compartilhada, uma cena é muito forte no imaginário popular: pais e filhos lendo juntos, deitados na cama, na hora de dormir. Embora seja um momento agradável, de muita conexão e calmaria, que ajuda na higiene do sono e a desacelerar depois de um dia corrido, esse cenário pode e deve ser ampliado para uma infinidade de outras possibilidades de manter o hábito de leitura em família. Tenha em mente que a leitura é livre e não tem hora nem lugar certos para acontecer.

“A leitura ganha significado quando faz parte da vida cotidiana das crianças. Ao ter oportunidades de leitura em diferentes espaços — na sala de aula, no sofá de casa, no quintal, na praça, no ponto de ônibus, na biblioteca, durante uma viagem ou enquanto espera uma consulta —, a criança compreende que essa não é uma atividade limitada à escola ou a um horário específico”, explica Amanda Leal de Oliveira, antropóloga e bibliotecária, doutora em Ciência da Informação, pesquisadora do GPEB — Grupo de Pesquisa em Bibliotecas Educativas (CBD/ ECA — USP) e mediadora do Grupo de Governança do Sistema Estadual de Bibliotecas de SP (Siseb-SP).

“Ela passa a reconhecer a leitura como parte da vida, presente em diferentes situações e momentos do cotidiano” – Amanda Leal de Oliveira, antropóloga

Os estudos de Magda Soares (1932-2023), uma das principais especialistas em alfabetização e letramento do Brasil, são relembrados pelo professor André Magri Ribeiro de Melo para comentar a questão: “Ler é um verbo transitivo, como nos ensinou a educadora Magda Soares. Transitivo porque, sendo um processo complexo e uma prática sociocultural multiforme, é uma ação que requer complemento: o que se lê, com que intenção se lê, em quais condições se lê, de que modos se lê”, explica o especialista.

“Por isso, para participar com qualidade das muitas esferas da cultura escrita, as crianças precisam ser convidadas a ler em diferentes tempos e espaços, inclusive aqueles — talvez —, à primeira vista, insuspeitos”, afirma ele, que é doutor em “Letras: Estudos Literários” pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), professor do Departamento de Artes e Estudos Culturais da Universidade Federal Fluminense (UFF) e membro do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Cultura Escrita (UFMG/FaE/CNPq).

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O especialista ressalta o papel fundamental dos pais e das famílias no movimento para tornar o livro uma companhia agradável e divertida para além dos locais esperados: “Temos que ajudar as crianças a ver que ler não é uma atividade limitada a quatro paredes, daí a importância de inventar com elas experiências de leitura livre em espaços abertos, como parques, florestas, quilombos, ruas, praças, praias, aldeias, terreiros, quintais — territórios onde o ato de ler pode ser vivido em comunidade —, e lembrar às crianças que vivemos em um mundo maior que nós mesmos e habitado por outras espécies e seres-terra tão sensíveis e reais quanto a gente”.

Crianças têm a liberdade de ler quando e onde quiserem:

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leitura livre: o livro como companheiro das férias

Uma boa oportunidade para incentivar a criança em sua liberdade de ler quando e onde ela quiser são as férias, como as de julho que se aproximam. Nesse intervalo, em que a rotina escolar é temporariamente rompida, surge espaço para experimentações que podem se estabelecer como novos hábitos. 

“Sem a pressão das tarefas e dos horários mais rígidos, a leitura pode surgir de forma mais espontânea e integrada ao cotidiano: em parques, bibliotecas, viagens, encontros familiares, momentos de descanso, em casa ou até durante deslocamentos e situações de espera. Também é um período favorável para que a leitura seja associada à curiosidade e à escolha. A criança pode escolher o que deseja ler, reler seus livros favoritos ou descobrir novos autores, gêneros literários, ilustradores, temas e formatos”, destaca Amanda.

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O período de férias pode ser o ponto de partida para esse processo da leitura livre. No entanto, é importante que o incentivo à criança não se perca depois dessa quebra em relação ao cotidiano.

Para André, se apenas a época sem atividades escolares for associada ao convite à liberdade de ler além da cama antes de dormir, pode ficar sugerido à criança que, “à exceção desses poucos meses, a leitura estará restrita à escola, aos seus currículos e regramentos. Ao contrário, é importante que os tempos e espaços de ler nas infâncias sejam frequentemente ampliados, inclusive dentro da própria escola, afinal uma educação literária de qualidade — crítica e sensível — requer uma vida entre livros, bibliodiversa, com leitores que, sim, convivem com a leitura na cama antes de dormir, mas expandem essa convivência a outros espaços-tempo”.

Leitura livre
Foto: arquivo pessoal

A importância da ampliação à qual o especialista se refere vai ao encontro dos recursos que o corpo e a mente dispõem para fazer da liberdade de leitura um ganho concreto no dia a dia. “A leitura, especialmente na infância, envolve o corpo inteiro. [E] o livro, assim como a criança, é plural. Logo, cada obra pode convocar uma forma diferente de o leitor experimentá-la, e isso pode ir se modificando de acordo com o ambiente de interação”, pontua Juliana Pádua S. Medeiros, doutora em Letras, vice-líder do Grupo de Estudos e Pesquisas em Literatura Infantil e Juvenil — GEPLIJ (CNPq/UNIFESSPA).

A especialista continua: “A mudança do ambiente contribui bastante para a experiência leitora. Basta imaginar a diferença entre ler uma história de suspense debaixo da cama ou sob o céu estrelado e lê-la à beira-mar em um dia ensolarado”.

Alguns exemplos de como isso funciona na prática também são trazidos pela Profa. Dra. Adriana Beatriz Botto Alves Vianna, especialista em educação e coordenadora dos cursos de Psicopedagogia e Educação Especial da Universidade Cidade de S. Paulo (Unicid): “Ler embaixo de uma árvore ativa sensações diferentes das de ler num sofá. Ler de manhã, com a mente descansada, produz uma experiência cognitiva diferente da de ler à tarde, depois de brincar. A neurociência da aprendizagem já nos mostra que contextos variados fortalecem a consolidação de memórias e hábitos. Para a leitura, isso significa que o hábito se torna mais robusto, mais flexível, mais ‘portátil’ — a criança leva o leitor que ela é para qualquer lugar”.

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Os pais e responsáveis também atuam como um exemplo vivo nessa dinâmica — quem deseja que o livro se torne o companheiro inseparável de uma criança precisa fazer isso primeiro consigo mesmo.

“Se eu quero que a criança leia em momentos e em locais variados, é importante que eu dê o exemplo. Como professora, trabalhando com educação básica, sempre notei que o livro que eu carregava comigo, que ia para cima da minha mesa, era o que os meus alunos queriam ler. Há sempre um desejo de espiar o que que o outro está lendo. Então, para que a criança leia em diferentes momentos, é importante que o adulto também tenha essa cultura”, conta a Profa. Dra. Flávia Brocchetto Ramos, coordenadora do curso de especialização “Literatura infantil e juvenil: da composição à educação literária”, da Universidade de Caxias do Sul.

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Mas… e o ler antes de dormir?

A prática segue sendo muito bem-vinda e benéfica. Embora sua origem cultural e social seja anterior às pesquisas mais recentes sobre o tema, sabe-se atualmente que ler enquanto se espera pelo sono traz diversos impactos positivos, como os citados por André Magri Ribeiro: “estado de relaxamento e receptividade das crianças ao pacto ficcional [acordo que se estabelece entre leitor e livro em relação à história contada]; a força dos textos literários para lidar com as ansiedades que podem ser geradas pela separação temporária dos pais; e a oferta, pelas narrativas, de estruturas simbólicas que transformam medos difusos em problemas concretos vividos pelos personagens das histórias lidas”.

Historicamente, a cama e a hora de dormir foram ganhando espaço como o cenário ideal da leitura com e para crianças principalmente a partir do século 19. André explica que, naquele período, “muitas famílias das classes médias urbanas começaram a criar quartos infantis, mobiliário específico e rotinas de higiene e sono para as crianças, o que leva ao reconhecimento da hora de dormir como um momento privilegiado de interação entre elas e os adultos”. 

A dinâmica acabou se estabelecendo como modelo, por vezes limitando a exploração de outras possibilidades. Além disso, como aponta Amanda Leal de Oliveira, as realidades familiares são variadas: “O melhor momento para compartilhar uma leitura é aquele em que adultos e crianças conseguem estar verdadeiramente disponíveis para a troca. […] Por isso, mais do que definir um único horário como ideal, o importante é que a leitura possa se tornar um tempo de qualidade compartilhado entre adultos e crianças — e que as possibilidades desse encontro com os livros sejam ampliadas, sempre que possível”.

Leitura livre
Imagem do livro ‘Cadê o sono da Stella?’, de Anete Melece (Boitatá) | Foto: Rodrigo Frazão

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O incentivo para que as crianças compreendam e se apropriem da liberdade leitora também passa pelo olhar atento e paciente dos adultos de seu convívio. “Cada leitor pode encontrar sua própria relação com o livro se for apresentado a esse objeto de maneira cuidadosa, com liberdade e paciência de esperar o encontro acontecer”, afirma Renata Penzani, escritora e jornalista, pós-graduada em literatura para as infâncias, mestra em Estudos da Linguagem pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e doutoranda em Literatura Comparada.

dicas práticas de como incentivar UMA leitura livre, em espaços e momentos diversos:

  • Torne os livros visíveis e acessíveis — em casa, na mochila, nos passeios;
  • Crie “cantos de leitura livre” em locais inusitados, como uma almofada no corredor, uma caixa de livros no banheiro, uma sacola no carro;
  • Observe os interesses da criança e respeite seus ritmos: nem toda leitura precisa acontecer sentada à mesa, de forma linear ou em silêncio;
  • Faça a leitura livre ser mais significativa com práticas como observar detalhes das ilustrações, fazer perguntas, rir de um trecho ou relacionar a história com situações vividas;
  • Proponha um piquenique no parque com a intenção de, além de levar comidas gostosas, ler histórias e poemas, em silêncio ou em voz alta;
  • Para viajar, faça uma mala com livros e os mantenha à disposição;
  • Em festas de aniversário ou brincadeiras, crie situações que incluam leitura livre, tendo os livros como um meio para o exercício da imaginação;
  • Incentive a autonomia e deixe a criança escolher o título, o lugar e a posição da leitura — deitada no chão, pendurada no sofá, embaixo da mesa.

“Quando uma criança lê no colo de alguém, no chão do quarto, debaixo da mesa, dentro do carro, em uma cabana improvisada ou em outros cenários a serem explorados, ela descobre que o livro pode fazer parte da vida cotidiana de muitas maneiras e ser ressignificado a cada nova situação. O mesmo livro, lido em outro espaço ou em outro tempo ou de outro modo, pode ganhar novos sentidos”, conclui Juliana Pádua S. Medeiros.

estante quindim

Conheça três livros, já entregues à Família Quindim, para acompanhar a criança em diferentes passeios nas férias e fortalecer a leitura livre:

Cachorro quente CapaTransparente e1761164595610
Cachorro quente, de Doug Salati
Uma nova espécie de dinossauro (autor Pablo Lugones, ilustrador Guilherme Karsten, editora Gato Leitor)
Uma nova espécie de dinossauro, de Pablo Lugones e Guilherme Karsten