A pergunta parece simples, quase inofensiva. Mas ela carrega um pressuposto que está, até certo ponto, naturalizado: o de que a literatura, quando destinada às crianças, deve cumprir uma função — de preferência, uma função clara, identificável, mensurável. Ensinar valores, comportamentos, conteúdos…

Aqui não quero cair aqui em um antipedagogismo simplista, quero sim manter o vínculo com a formação de leitores, que é central em meu trabalho. Por isso, acho interessante começar deslocando a própria pergunta.

Quando perguntamos se a literatura para as infâncias precisa ensinar algo, já estamos partindo de uma lógica que a reduz a meio e não a experiência. Como se o livro fosse um instrumento a serviço de um fim externo a ele. Como se a leitura fosse apenas um caminho para chegar a outro lugar e não um lugar em si.

Isso não é trivial. Ao longo das últimas décadas, a literatura para crianças foi sendo progressivamente capturada por demandas que lhe são exteriores: a escola e toda a pressão por resultados (alfabetização, competências, habilidades, vestibulares); as políticas públicas e editais que demandam “temas” (diversidade, ética, cidadania, etc.), o mercado editorial que precisa justificar seus livros e, muitas vezes, os que vende como “ferramentas”. Tudo parece pedir da literatura uma função. E, diante disso, o livro muitas vezes passa a circular acompanhado de uma pergunta implícita: o que ele ensina?

Direto do Instagram: Os livros infantis precisam ensinar algo sempre? Confira um trecho da conversa com Elizabeth Cardoso, curadora do Clube Quindim Elizabeth Cardoso

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a literatura como experiência de linguagem

Há, evidentemente, algo de legítimo nessa expectativa. Ninguém lê impunemente. Toda leitura produz efeitos. Toda experiência com a linguagem participa da formação de quem lê, especialmente na infância, quando os modos de perceber, sentir e significar o mundo ainda estão em constituição. Mas é justamente aqui que a questão se torna mais delicada.

Porque o que a literatura oferece não é uma lição. O que ela oferece é uma experiência de linguagem.

E essa experiência não se organiza segundo a lógica da transmissão direta. Ela não se apresenta como um conteúdo a ser apreendido, nem como uma mensagem a ser decodificada por um modo supostamente correto. Ao contrário: ela abre e tensiona. Introduzindo ambiguidades e produzindo zonas de indeterminação, ao suspender certezas e gerar deslocamentos.

A literatura não ensina no sentido em que um manual ensina, porque ela não instrui, não explica nem resolve. Ela desestabiliza. E é justamente aí que reside sua potência formativa.

Pode parecer paradoxal, mas é assim que a arte produz sentido e, com ele, conhecimento. Como nos lembra Georges Didi-Huberman, a experiência estética não se organiza como transmissão de um conteúdo já dado, mas como um encontro que nos desloca e nos obriga a ver — e a saber — de outro modo. A arte não nos entrega um saber que já possuíamos de forma plena. Ela torna dizível aquilo que, de algum modo, já nos atravessava sem forma. Ao acessá-la, temos a impressão de reconhecimento, não porque já sabíamos, mas porque passamos, enfim, a poder saber.

É nesse movimento entre o que nos escapa e o que começa a ganhar forma que a literatura opera. Não como explicação do mundo, mas como experiência que o reabre.

Formar um leitor — e, mais amplamente, um sujeito — não é conduzi-lo a respostas previamente dadas. É ampliar sua capacidade de sustentar perguntas, alargar seu campo de sensibilidade, permitir (convidar) que ele experimente o mundo e a si mesmo de modos menos previsíveis e normatizados.

Quando a literatura se compromete demais em ensinar, corre o risco de perder exatamente isso: abertura, a possibilidade de ser um espaço de experiência.

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Imagem do livro “Olho d’Água”, de Marcelo Tolentino (Boitatá). Foto: Rodrigo Frazão.

Não é difícil reconhecer esse movimento em muitos livros que circulam hoje: narrativas que se organizam em torno de uma moral explícita, personagens que funcionam como exemplos, conflitos que se resolvem de modo didático, como se cada elemento estivesse ali para conduzir o leitor a uma conclusão previamente definida. Nesses casos, a leitura deixa de ser um encontro e passa a ser uma confirmação.

E, quando tudo já está dado, o leitor não precisa fazer muito. Basta concordar.

Mas a literatura — quando é literatura — exige outra coisa: participação e implicação. Ela requer um trabalho de leitura que não se reduz à compreensão, mas envolve imaginação. Um trabalho que não pode ser totalmente antecipado nem totalmente controlado.

Isso significa, então, defender uma literatura “neutra”, alheia ao mundo, indiferente às questões que atravessam a infância contemporânea?

Certamente não.

Seria um equívoco opor experiência estética e dimensão ética, como se uma anulasse a outra. Há livros que abordam temas urgentes — racismo, desigualdade, pertencimento, identidade — e que o fazem com enorme potência literária. Há obras que tensionam o mundo sem se converterem em lições sobre ele.

A diferença não está no tema, mas sim no modo de construção do tema. Em como a linguagem opera literariamente. Em como o texto convoca o leitor, não para aprender algo previamente delimitado, mas para viver uma experiência que pode transformá-lo.

Porque, ao contrário do que muitas vezes se supõe, a literatura não deixa de formar quando não ensina explicitamente, pois ela continua ensinando, mas de outro modo. Ela forma no intervalo, no que escapa, no que não conseguimos dizer, mas apenas sentir.

Então, talvez seja preciso reformular com mais rigor o ponto de partida. Não se trata de responder se a literatura para as infâncias deve ou não ensinar algo, como se estivéssemos diante de uma escolha entre dois polos estanques. Trata-se de deslocar o eixo da pergunta. Em vez de indagar pelo conteúdo a ser transmitido, perguntar pela qualidade da experiência que se constrói na leitura. Em vez de buscar aquilo que o livro “deixa” como aprendizado, interrogar aquilo que ele produz como relação — com a linguagem, com o mundo, com o outro e consigo mesmo.

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livros que dizem o que pensar x livros que fazem pensar

Quando colocamos um livro nas mãos de uma criança, não estamos apenas oferecendo uma história. Estamos instaurando um modo de encontro. E esse encontro pode se dar de formas muito distintas. Há livros que organizam a leitura como um percurso fechado, em que cada elemento converge para uma conclusão previamente delineada. Neles, o leitor é conduzido com segurança até um ponto de chegada: compreende-se o que é certo, o que é errado, o que deve ser aprendido. São livros que, de algum modo, estabilizam o mundo.

Mas há também livros que operam de outra maneira. Livros que não se apressam em resolver, que não temem a ambiguidade, que não simplificam o conflito para torná-lo imediatamente assimilável. Neles, a linguagem não funciona como veículo de uma lição, mas como espaço de experiência. O leitor não é conduzido, é convocado. Precisa ocupar lacunas, sustentar dúvidas, lidar com aquilo que não se fecha. E, nesse processo, não apenas entende algo: transforma-se.

A diferença entre esses dois modos de construção não é meramente técnica, nem pode ser reduzida a uma preferência metodológica. Ela implica modos distintos de conceber o que é ler. Implica, também, modos distintos de conceber a própria infância. De um lado, uma infância pensada como etapa a ser conduzida, orientada, corrigida — e, portanto, como destinatária de mensagens claras, organizadas, eficazes. De outro, uma infância reconhecida como sujeito de linguagem, capaz de complexidade, de elaboração, de experiência estética e, por isso mesmo, digna de obras que não a subestimem.

Nessa toada a questão do “ensinar” deixa de ser central. Não porque ensinar seja irrelevante, mas porque, quando se torna o critério dominante, tende a reorganizar a literatura a partir de uma lógica que lhe é externa. O risco não é que a literatura ensine, mas sim que ela se esgote nisso. Que abdique de sua potência de abertura em nome de uma eficácia imediata. Que substitua a experiência pela instrução.

E, ao fazer isso, perde justamente aquilo que a torna insubstituível.

Porque a literatura pode até produzir respostas e, em certos contextos, isso pode parecer desejável. Mas é no campo das perguntas que ela opera com maior intensidade. É quando inquieta, quando desloca, quando cria fissuras no já sabido, que ela efetivamente participa da formação do leitor. Não como alguém que acumula conteúdos, mas como alguém que amplia suas formas de perceber, de imaginar e de significar.

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Imagem do livro “Rumi”, de Caio Zero (Editora Incompleta). Foto: Rodrigo Frazão.

Talvez seja essa a diferença decisiva entre livros que encerram e livros que inauguram, livros que dizem o que pensar e livros que fazem pensar, livros que oferecem um mundo já organizado e livros que permitem experimentá-lo em sua complexidade.

E é nesse intervalo — que não é pequeno, nem neutro — que se decide não apenas uma prática pedagógica, mas uma aposta ética e estética sobre o que pode a literatura na vida de uma criança.

Diante disso, talvez a pergunta que reste para famílias e educadores não seja mais “o que este livro ensina?”, mas “o que este livro move em quem lê?”.

Essa mudança é sutil, mas decisiva. Porque ela desloca o olhar do conteúdo para a experiência. E é justamente aí que a curadoria se transforma.

Não se trata apenas de verificar se o tema é importante, se a mensagem é adequada ou se o conteúdo está “correto”. Trata-se de perceber se o livro abre espaço para a leitura ou se a fecha. Se convida à interpretação ou se a antecipa. Se confia na inteligência do leitor ou se a substitui por explicações.

Um bom livro não precisa ser difícil, nem hermético. Mas precisa permitir que a leitura não se esgote na primeira compreensão. Isso pode aparecer de muitas formas, por exemplo (e não apenas assim):

  • Na linguagem, quando o texto não se limita ao funcional, mas brinca, desloca, sugere.
  • Nas imagens, quando não apenas ilustram, mas ampliam ou tensionam o que está escrito.
  • Na construção narrativa, quando há conflito real e não apenas situações montadas para confirmar uma moral.
  • No final, quando não resolve tudo, mas deixa algo em aberto, algo que permanece.

São livros que, muitas vezes, geram conversa não porque “explicam um tema”, mas porque inquietam, porque provocam perguntas, porque pedem elaboração.

E isso não significa abandonar obras que tratam de questões importantes. Pelo contrário. Significa escolher aquelas que conseguem fazê-lo sem reduzir a literatura a um veículo de mensagem.

Livros que não dizem apenas o que pensar, mas criam condições para que o pensamento aconteça. Porque, no fim, o que oferecemos às crianças não é apenas uma história. É uma forma de entrar em relação com o mundo.

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Em tempo: a literatura como um espaço de recuperação

Há uma outra forma de pensar o que a literatura faz e ela talvez seja mais radical do que a ideia de ensino.

Lendo recentemente um texto de Dione Brand, Salvamento, fiquei atravessada por uma imagem insistente: a da leitura como um gesto de salvamento. Como se, diante dos naufrágios que atravessam a vida — perdas, deslocamentos, silêncios, aquilo que não conseguimos nomear —, os livros funcionassem como uma espécie de recolha. Não organizam o caos, não o resolvem, mas resgatam fragmentos. Tornam possível carregar algo do que parecia perdido.

Nesse sentido, ler não é aprender algo novo no sentido tradicional. É, antes, recuperar. Recuperar partes de si, do mundo, da experiência. Recuperar aquilo que ainda não tinha forma, aquilo que não havia encontrado linguagem. Como se a leitura nos devolvesse a nós mesmos — mas de um modo deslocado, ampliado, mais consciente.

É por isso que a ideia de que a literatura “salva” não deve ser tomada de forma ingênua ou redentora. Não se trata de uma salvação que resolve a vida, que corrige destinos ou que ensina o caminho certo. Trata-se de algo mais sutil — e talvez mais profundo. A leitura salva porque permite continuar. Porque oferece linguagem onde antes havia apenas sensação difusa. Porque cria algum tipo de forma para o que, de outro modo, permaneceria indizível.

E isso recoloca, de maneira ainda mais exigente, a questão da curadoria.

Se a literatura pode operar como esse espaço de recuperação — de si, do mundo, da experiência —, então não é qualquer livro que sustenta essa função. Livros excessivamente fechados, excessivamente explicativos, que antecipam sentidos e organizam respostas, tendem a não deixar espaço para esse trabalho mais íntimo do leitor. Eles ensinam, mas não necessariamente permitem esse encontro.

Por outro lado, há livros que permanecem. Que retornam. Que acompanham. Livros que não se esgotam na leitura imediata porque guardam zonas de silêncio, de ambiguidade, de abertura. São esses que, muitas vezes, em momentos inesperados da vida, reaparecem como linguagem possível para algo que ainda não sabíamos dizer.

Talvez seja isso que esteja em jogo quando escolhemos livros para as crianças. Não apenas o que elas podem aprender com eles. Mas o que, um dia, elas poderão recuperar de si e do mundo a partir deles.

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