Quando falamos sobre literatura para infâncias, há uma série de pré-concepções e expectativas associadas a esse gênero literário — como o teor pedagógico que muitos pais e cuidadores esperam que esse tipo de livro tenha ou a materialidade dessas obras. Mas, como todo estereótipo que ronda um assunto, é preciso atenção para refletirmos (e repensarmos) sobre essas percepções acerca do livro infantil.
É o que convidamos você a fazer neste Dia Internacional do Livro Infantil, celebrado em 2 de abril, para reforçarmos o nosso pensamento autônomo e crítico sobre a literatura para infâncias e estender essa reflexão às crianças. Vamos juntos pensar mais sobre isso?

1. Histórias infantis não precisam ter começo, meio e fim
Há uma expectativa que ronda a literatura para as infâncias de que as narrativas precisam ter começo, meio e fim. Mas você já se perguntou o porquê?
Renata Nakano, idealizadora e diretora-geral do Clube Quindim, explica que esse desejo de pais e cuidadores parte também de uma influência eurocêntrica, em que a organização do tempo é feita de forma linear, cartesiana. No entanto, essa não é a única maneira de o tempo se organizar na vida e no livro infantil. “Quando começamos a estudar um pouco mais sobre as cosmovisões dos povos originários, por exemplo, essa organização linear não acontece. Inclusive, Ailton Krenak fala muito sobre essa visão de que o presente não seria uma consequência do passado, mas uma atualização; é um conceito completamente diferente”, detalha Renata.
Além disso, apresentar livros que subvertem a estrutura de começo, meio e fim é proporcionar às crianças o acesso a narrativas que não precisam ser necessariamente lineares. E mais do que isso: é permitir o contato com uma bibliodiversidade que contempla diferentes gêneros, estéticas, formatos e autores. Um convite para que expandam seu repertório e desenvolvam as próprias preferências.
Leia também: A bibliodiversidade e os diferentes gêneros literários: muitas maneiras de contar histórias
2. A literatura para as infâncias não precisa ensinar algo sempre
Outra premissa que existe sobre a literatura infantil é a de que ela deve ter caráter pedagógico. Porém, “a literatura para as infâncias, como qualquer outro tipo de arte, é feita de espaços para o leitor se colocar. E nesse diálogo que se forma entre o livro e o leitor, acontece a experiência que supera um aprendizado formal e racional, pois a literatura permite ao leitor vivenciar as mais diferentes possibilidades e olhares pro mundo – uma vivência que supera a razão e exige muito do leitor. Esse texto aberto, como consequência, desenvolve o pensamento crítico e autônomo da criança – ao contrário de uma lição fechada em si mesma entregue de forma autoritária”, diz Renata.
Ela complementa que essa busca por uma arte para as infâncias que ensine algo de forma fechada parte de uma visão autoritária, e que pressupõe um controle absoluto sobre a formação de outro ser. “Mas, se você vê a infância como um espaço de grande intensidade criadora, entende o poder criativo e crítico e a capacidade autônoma desse período”, reflete. “Além disso, o mundo está em constante transformação e nós, adultos, se tivermos consciência crítica, entendemos que estamos em aprendizagem constante e que somos falíveis. Daí a importância de possibilitar o acesso a obras literárias que proponham mais reflexões do que respostas”, reforça.

“A leitura de literatura é um diálogo. Se for dogmático, não é diálogo. É uma via de mão única” – Renata Nakano
3. Livro bom é livro para todas as idades?
Quando falamos sobre “livros para todas as idades”, a expressão faz referência a obras que dialogam tanto com as crianças quanto com os adultos.
A problemática acontece, segundo Renata, quando dizemos que um livro infantil só é bom se for para todas as idades. Essa associação reflete como o mundo ainda se organiza a partir do adultocentrismo (quando o adulto detém o poder e está no centro das decisões) e acaba sendo uma categorização reducionista da obra.
“Por exemplo, um adulto não vai a uma livraria comprar determinados livros para bebês. Mas isso não significa que não possa ser uma obra extremamente interessante por dialogar com determinados aspectos daquele momento de vida que têm relação não apenas com o repertório, mas com a cultura daquela fase. Determinados jogos de palavras com sonoridade como a onomatopeia, por exemplo, podem se tornar muito mais interessantes para bebês — que por estarem vivenciando os primeiros contatos com a língua, podem se conectar por exemplar mais com os sons do que com os significados — do que para um adulto”, explica.
4. Livros só com imagens podem ser tão (ou mais) complexos que livros com texto
Aqui, no Clube Quindim, entendemos que a imagem também é uma linguagem que precisa ser aprendida e vista com atenção desde a infância.
“[É uma linguagem] que demanda compreensão de uma série de conhecimentos que começamos a adquirir desde bebês. Por estarem muito internalizadas em nós, muitas vezes não percebemos e achamos que sua leitura é universal. Mas a linguagem visual não é universal; ela é cultural. Logo, a compreensão e as sensações da leitura de imagem vão variar de acordo com as culturas que as leem”, explica Renata.
Aprender a ler imagens em um mundo que se comunica amplamente por meio delas contribui para o pensamento crítico e autônomo, inclusive das crianças. Assim, o pequeno torna-se aos poucos capaz de pensar criticamente sobre a linguagem pasteurizada de muitas produções voltadas às crianças, e das estéticas plurais de obras literárias transformadoras.

5. Sim, a literatura para infâncias causa estranhamento — ainda bem!
Os livros infantis são capazes de despertar diferentes sentimentos, inclusive o estranhamento. Isso porque a literatura, muitas vezes, incomoda ao tirar o leitor da zona de conforto.
Esse desconforto pode surgir da temática, do gênero ou da estética das ilustrações. Mas, a partir do momento em que a família aposta na bibliodiversidade, a criança amplia seu repertório e o desconhecido deixa de ser assustador. Logo, a literatura acaba sendo um convite para se aventurar além do que já se conhece, pois é nessa expansão que a criança ganha autonomia para decidir do que gosta ou não de ler.
6. É preciso questionar os estereótipos!
O desenvolvimento de um olhar crítico é necessário também para pensarmos criticamente sobre os estereótipos presentes em nossa sociedade.
Quando eles aparecem na literatura, às vezes isso ocorre de forma consciente (com um olhar crítico sobre o estereótipo) e, às vezes, como uma reprodução automática do contexto sócio-histórico em que a obra foi produzida. No segundo caso, a mediação do adulto durante a leitura compartilhada é fundamental para que a criança identifique essas representações e compreenda a problemática de cada uma. Sem orientação, ela pode acabar normalizando preconceitos ou ideias equivocadas.
Leia também: Coluna: Precisamos questionar a normatização de estereótipos na literatura para crianças
7. O livro infantil não precisa TER SEMPRE O MATERIAL REFORÇADO OU SER SENSORIAL
Pais e cuidadores de bebês costumam ter dúvidas sobre a materialidade dos livros: precisa ser cartonado? De pano? Qual é o melhor material? Renata enfatiza que essa conversa começa com a diferenciação entre o que é interativo e o que é reativo.
“As pessoas acham que interativo é algo que você mexe fisicamente ou aperta um botão e algo acontece: isso é reativo. Existe uma ação e uma reação, e acaba ali. Interativo é a literatura; nela você tem um texto aberto que você lê, complementa com seu repertório e o texto te responde com outras camadas. Você cria um diálogo de construção única. Isso é interativo”, enfatiza.
Sobre a materialidade, Renata pontua que ela é importante, sim, “desde que esteja a serviço da literatura”. Há uma confusão, por exemplo, com livros-brinquedo – que também podem ser literários, mas que em sua grande maioria no mercado não são literatura, mas apenas brinquedos. Ambos têm espaço no dia a dia, mas é importante compreendê-los corretamente para equilibrar as expectativas.
“Se queremos a literatura com todo o seu potencial transformador, a linguagem é mais importante do que o livro ser cartonado ou em papel fino. E sobre os livros sensoriais, sempre digo que, se quiser trabalhar a sensorialidade da criança, é mais estimulante levá-la para brincar num parque. O sensorial será muito mais estimulado dessa forma”, finaliza Renata.





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