Você já ouviu falar em morfologia? Este é o nome que se dá ao estudo das formas, e da maneira pela qual suas pequenas partes, unidas, constroem um todo. Quando falamos em morfologia da imagem estamos, portanto, pensando no estudo das formas que compõem as imagens. Mas você já parou para pensar sobre o que é uma imagem, afinal? E como fazer a interpretação de ilustrações, fotos, grafismos e outras linguagens visuais?
Para ajudar a responder a essa e a outras questões, convidamos Anabella Lopez que, além de curadora do Clube Quindim, é escritora e ilustradora, com mais de 50 livros publicados em vários países; professora, com mais de 20 anos de experiência em sala de aula; e vencedora do Prêmio Jabuti de Ilustração e do Selo White Ravens, dois dos mais importantes reconhecimentos a obras literárias infantis e juvenis do mundo.
Começando pelo começo: o que é uma imagem?
Anabella nos explica que a imagem é uma introspecção que fazemos do mundo externo, ou seja, nós percebemos o mundo, o enxergamos através dos nossos olhos, e geramos uma imagem em nossa mente. Essa imagem é o que podemos chamar de figura de imagem real. Mas a ilustradora explica que, muito embora a morfologia da imagem concreta seja maravilhosa, com suas formas geométricas e orgânicas, suas curvas e retas, é na morfologia da nossa percepção que mora a verdadeira magia.
“Como a gente percebe o mundo real não é só como o enxergamos através de formas objetivas e limites, como, por exemplo, círculo, triângulo, quadrado, retângulo. O que eu acho mais interessante é a morfologia do mundo que a gente constrói. Tem a ver com uma questão muito mais profunda, que é como a gente internaliza as nossas experiências perceptivas e como isso, ao longo da vida, vai criando o nosso imaginário, que são os nossos valores e a maneira pela qual a gente se vincula ao mundo”, explica Anabella.
Para ficar mais claro, um exemplo: quando vemos uma árvore, a imagem real é o tronco e as folhas; já a imagem da percepção é o que essa árvore significa para nós. Daí a importância de aprendermos a ler imagens tanto quanto as palavras, e de termos, nós mesmos, adultos, acesso a múltiplos formatos, para então oferecermos para as crianças essa diversidade que fará enorme diferença na construção do mundo de cada uma delas.

“Quando a gente está fazendo uma mediação de leitura com uma criança, especialmente do primeiro ao quinto ano de idade, isso é estruturante para o seu sistema psíquico. É nesta fase que vai ser definida muita coisa da forma e dos contornos que essa criança vai dar para o mundo e como ela o percebe. Então, se a criança não tem multiplicidade e variedade de formas, de maneiras de ver o mundo, provavelmente será bastante limitada a forma que ela o enxerga e será limitada, também, a capacidade de imaginação que ela terá, a capacidade de fantasiar, a capacidade de criar”, complementa.
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leitura de imagens: Ilustrações e sentidos na literatura infantil
Quando pensamos no livro infantil ilustrado, podemos considerar partes menores que se articulam para formar as imagens, e também nas combinações entre elas para criar sentido. Então, podemos ter um personagem com suas pequenas partes, como cabeça, nariz, olhos, boca, mãos e pés, o cenário em que ele está inserido, como este cenário vai sendo representado nas páginas e daí em diante.
“Cada parte é uma minicomposição, e acho que isso é um pouco uma metáfora do mundo. A gente se vê separado do outro mas, na verdade, todos nós construímos a sociedade, então, estamos mais juntos do que pensamos. Analisar cada parte de um personagem, cada parte de uma página, se deter a observar como essas partes se vinculam, como elas se encaixam, como essas peças podem mudar de lugar ao longo do livro e, com isso, gerar um outro sentido da imagem”, diz López.
Em termos práticos, essa leitura das imagens pode e deve considerar vários aspectos, que Anabella chama de camadas: morfologia, cor, composição, personagem, cenário, narrativa e projeto gráfico. Tudo isso comunica e constrói sentido no livro e, portanto, precisa ser lido com tanta atenção quanto as palavras em si.

“Há livros em que o autor dá mais importância para a construção de sentido [por meio da] camada de cor, por exemplo, então ela tem mais opacidade, vai revelar muito do sentido e vai construir muito do que a narrativa vai contar. Em outros, não, pode ser um livro preto e branco, e a categoria que mais imprime é a composição da página, o projeto gráfico. E, aqui, é o projeto editorial, o formato do livro, se tem papeis especiais ou não, a tipografia [os diferentes tipos de letras escolhidas para o texto]”, exemplifica Anabella.
Palavras e imagens são mesmo tão diferentes assim?
Pode até parecer uma discussão filosófica (e talvez seja, mesmo), mas Anabella nos lembra que, no final das contas, as palavras são imagens também. “Quando a gente aprende a ler imagens, também está aprendendo a ler palavras e conceitos. Privar uma criança da capacidade de entender como uma imagem funciona provavelmente vai ter graves consequências na capacidade de interpretação do adulto. Por exemplo, a pessoa vai ler uma palavra e não vai conseguir alcançar uma interpretação que passe do literal. Vai ser aquele significado, aquela conotação e pronto”, explica a autora.
Outra maneira de pensar sobre esse mesmo ponto é a seguinte: quando temos essa capacidade de ler as imagens bem desenvolvida, nutrida e exercitada ao longo da vida, e nos deparamos com uma palavra, muitas imagens diferentes podem surgir na nossa cabeça. Tudo vai depender do contexto em que essa palavra está, e de uma combinação entre nosso conhecimento, experiências, repertório e visão de mundo. E adivinhe só? Foi construída justamente ao aprendermos a ler imagens.
“Se privarmos as crianças da leitura de imagens, visual, plástica, as privamos do plano poético. E na poesia é onde tudo acontece, né? A poesia é essa capacidade de a gente sair do cotidiano ou de transformar o cotidiano, de alguma forma, em algo extraordinário. E isso envolve imaginação, fantasia, criatividade”, reflete a curadora.
“É a capacidade de a gente ler a palavra ‘cachorro’, e na nossa mente vir um cachorro com asas, que voa pela cidade. Isso é uma capacidade de invenção. Para mim, imagem e palavra vão juntas, porque são a mesma coisa no final das contas. Se a gente não analisar, não der valor para as imagens, estamos tirando essa chance da palavra se amplificar e gerar infinitos sentidos, infinitas leituras em cada um de nós”, reforça Anabella.
Veja também: A importância do tempo no livro ilustrado
confira três dicas para AJUDAR NA LEITURA DE IMAGENS com as crianças
Como parte do processo de ajudar as crianças a aprenderem a ler imagens, Anabella López tem algumas sugestões que as famílias podem colocar em prática. Veja só:
1. Esteja presente
A primeira delas não poderia deixar de ser algo sobre o qual já falamos muitas vezes aqui no Clube Quindim: estar verdadeiramente presente, sem ceder ao impulso de explicar ou corrigir tudo.
“Muitas vezes focamos na crítica, que pode ter uma conotação de detectar falhas ou pontos específicos [na leitura feita pelas crianças]. Eu diria que é importante ter um olhar presente, uma leitura presente, atenta e plena. Estar totalmente imerso no livro, sem estar em outro lugar, e usá-lo como uma ferramenta para cultivar nas crianças o hábito da presença. Isso vai além de torná-las leitoras de livros; o objetivo é que se tornem leitoras e criadoras de um mundo melhor”, diz Anabella.
2. Analise Camada por camada
O segundo conselho é pegar uma das camadas de imagem que mencionamos anteriormente —morfologia, cor, composição, personagem, cenário, narrativa e projeto gráfico — e conversar com as crianças sobre ela.
Pode ser uma análise sobre como o livro trabalha a cor, ou como um personagem não tem nome, por exemplo. Nesse caso, é possível ampliar a informação e perguntar à criança como ela acha que o personagem se chamaria, se conhece alguém parecido, onde imagina que o personagem mora, como é sua família etc.
3. Esteja aberto para o inesperado
Por fim, Anabella sugere que as famílias se mantenham abertas para receber e aceitar o inesperado, validando as respostas das crianças.
“Elas podem ter menos experiência do que nós, mas é justamente nesse olhar ingênuo que reside um dom. A ingenuidade é um dom, pois não há expectativas. Elas criam… o plano poético na criança é muito aberto. As conexões, mesmo que tenham poucos pontos, são infinitas. Precisamos alimentar essa capacidade, esse poeta em cada criança”, diz.
E para aqueles que se sentem inseguros sobre como começar a conduzir esse aprendizado, a autora recomenda: “Tem uma frase que eu adoro que diz assim: ‘toda forma vem grávida de conteúdo’. Ou seja, nós artistas, produtores de livros, criadores de livros, os pais, as crianças, todas as pessoas que estão ao redor do livro — [devemos saber que] é na caminhada que a gente vai fazendo o caminho”, afirma Anabella.
“Uma proposta é escolher uma dessas categorias e pensar com a criança. Se o autor faz no livro uma árvore que as folhas sejam de todas as cores, vai gerar um estranhamento, uma curiosidade. Aí, começam as perguntas: se é uma árvore arco-íris, será que ela só cresce quando chove? E quando para de chover e sai o sol, a árvore morre? Ou seja, surge um monte de perguntas sobre algo que é totalmente poético, que não existe, mas que, ao mesmo tempo, existe. E esse limiar entre o real e o imaginário, que a gente se esforça tanto por botar um muro dividindo, na verdade, é a gente que constrói”, finaliza.
estante quindim
Conheça outros três livros para ler imagens com as crianças que o Clube Quindim já enviou:



O passeio, de Pablo Lugones e Alexandre Rampazo





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