A literatura abriga muitos formatos de texto: prosa, poesia, narrativas com diálogos marcados por dois pontos e travessões, discursos diretos e indiretos, entre outros. Embora a arte se proponha a romper rótulos e desafiar fronteiras, nomear os gêneros nos ajuda a reconhecer e compreender essas diferentes estruturas.
Apresentar essa variedade às crianças é também uma forma de garantir o acesso à bibliodiversidade, um dos mais importantes princípios do Clube Quindim. A bibliodiversidade diz respeito a todo o ecossistema do livro. Ela inclui desde as características individuais dos profissionais envolvidos — autores, editores, ilustradores e tradutores — até a estética do livro e as diferentes maneiras de contar histórias.
A combinação desses fatores permite que a criança tenha acesso a múltiplas visões de mundo e seja capaz de, por meio da ampliação do seu repertório individual, construir suas próprias concepções.

Gêneros literários e as especificidades da literatura infantil
Renata Nakano, idealizadora e diretora-geral do Clube Quindim, observa que cada gênero possui estrutura e linguagem característicos. “Em novelas de narrativa linear, por exemplo, você tem começo, meio e fim. Há uma lógica, uma relação de causa e efeito que é bem diferente de poemas, que possuem outra dinâmica de ritmo, além de uma síntese própria”, afirma.

Nakano, Mestre em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio, também lembra que a teoria crítica da literatura infantil é um fenômeno muito recente, e que era comum que o repertório para as análises de texto se restringissem à teoria crítica da literatura “adulta”.
Ela enfatiza, porém, que é necessário olhar para as particularidades da literatura infantil: “Ela possui características próprias, como a imagem em diálogo com a palavra. O fato de serem livros ilustrados, por si só, já muda toda a dinâmica de leitura e demanda nomenclaturas específicas para se compreender essas estruturas”.
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Diferentes gêneros, diferentes experiências: quando o formato transforma a leitura
Quando pensamos na diversidade dos gêneros literários, além de considerar essas diferentes estruturas de texto que cada um deles oferece, podemos pensar também que o próprio formato, e tudo em que isso implica, afeta e transforma a experiência de leitura.
Quer um exemplo? Imagine ler um romance em que os protagonistas se conhecem e se apaixonam em uma cidadezinha na Itália; mergulhar numa poesia escrita por um autor que nasceu e viveu a vida inteira nesse mesmo lugar; embarcar num diário de viagem escrito por um imigrante abrigado no mesmo destino; e ler com uma criança um livro ilustrado sobre um cachorro que vive nas ruas da cidade.
Mesmo tendo como pano de fundo a mesma pequena cidade, as narrativas serão totalmente diferentes umas das outras – e não somente pelas perspectivas dos personagens, mas também, e principalmente, pelas características de cada gênero literário. Se no romance podemos ter uma narrativa direta, com alguns diálogos, o livro ilustrado com o cachorro pode ser um livro-imagem ou um livro-legenda. Já a poesia pode ser um poema visual, e o diário de viagem ser todo construído por fotos, relatos e recortes. Esses são apenas alguns exemplos do que é possível já que, além de as combinações serem infinitas, a arte sempre é capaz de se reinventar.

“Cada gênero é uma maneira diferente de estar no mundo. Apresentar essa bibliodiversidade vai permitir que você tenha acesso, seja criança ou adulto, a essas diferentes formas de compreensão do mundo”, reflete Renata. “Cada gênero apresenta, também, uma estrutura – vai muito além do conteúdo. Por isso é muito importante que o nosso repertório se amplie e abrace essas diferentes percepções, essas diferentes formas de compreensão do universo e do nosso entorno”, complementa.
a riqueza dos gêneros literários
É importante lembrar que não existe um formato de texto melhor ou pior do que outro, mais ou menos rico. Todos são capazes de ampliar o nosso olhar. O que podemos dizer, no entanto, é que cada um contribui de maneiras muito específicas para isso.

“A dramaturgia, por exemplo, costuma ter uma oralidade mais marcada, e é muito diferente de um livro ilustrado, em que você tem a palavra e a imagem em diálogo”, destaca Nakano. E, também, quando se trabalha com lendas ou com contos da oralidade, em que se tem uma questão de ancestralidade, estamos trabalhando com um repertório de sabedoria muito específico. Essa diversidade de percepção, de temática, está muito embrenhada na questão do gênero”, afirma.
como nasce o prazer de ler: o papel da bibliodiversidade na formação do gosto pela leitura
Renata Nakano ressalta ainda a importância de apresentar desde cedo essa variedade de gêneros literários e como ela se relaciona com o desenvolvimento do gosto pela leitura. Quantos adultos hoje acreditam que não gostam de ler quando, na verdade, apenas não tiveram contato com um gênero que despertasse esse interesse na infância?
“Quando você apresenta uma bibliodiversidade de gêneros, você possibilita que esse ‘cardápio de leitura’ se torne muito mais amplo. Às vezes, as pessoas acham que não gostam de ler porque só foram apresentadas a determinados gêneros com os quais elas não tiveram alguma afinidade”, pondera Renata e completa: “Quando a gente apresenta um cardápio maior, por vezes elas acabam se identificando com outros gêneros. E isso tem a ver, também, com o momento. Tem horas que você quer ler poesia e horas em que quer mergulhar num romance, ou se divertir com uma HQ irônica, sarcástica. A leitura é diversa: ela pode ser muitas coisas”.

O desenvolvimento do prazer de ler, do gosto e do interesse pela leitura passa também por essa possibilidade de navegar entre os diferentes gêneros literários e formatos de livros. É a construção desse repertório que, gradualmente, vai nos dizer do que é que nós gostamos ou não, e o mesmo acontece com as crianças.
“No Clube Quindim costumamos dizer que os assinantes podem não gostar de todos os livros que vamos enviar, mas que eles vão entrar em contato com essa bibliodiversidade. Assim, eles podem formar um repertório amplo a ponto de desenvolver uma escolha que seja autônoma, uma construção crítica de seus próprios gostos”, conclui Nakano.
estante quindim
Conheça três obras já entregues à Família Quindim com diferentes formatos de narrativas para reforçar a bibliodiversidade por aí:







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