Você certamente já ouviu falar nas famosas fábulas de Esopo, mas você sabe exatamente o que são as fábulas? Confira neste artigo de Peter Sagae, pelo Clube Quindim, um pouco mais sobre esse gênero e seus desdobramentos na contemporaneidade.

O QUE SÃO FÁBULAS?

Fábula é um jogo de contar histórias, de raciocínio e de argumentação; não é apenas uma narrativa curta com o simples intuito de transmitir um ensinamento moral. De fato, ocorre-me pensar que a fábula pertença à família dos textos de disputa, como o repente (ou cantoria) e o desafio brasileiro onde podem vir se encadeando variadas formas de anedota, adivinhas, provérbios, pequenos ‘causos’ de animais.

Sabemos que os personagens quase sempre são apresentados em duplasa lebre e a tartaruga, o leão e o ratinho, o sapo e o boi, a cigarra e a formiga, a raposa e o galo, o bode e a onça, agindo como pessoas, demonstrando que força e inteligência, avareza e generosidade, preguiça e perseverança, tirania e liberdade são potências e ações que andam aos pares, distinguindo não a natureza presente nos animais, mas o espírito que anima nossas decisões. Podemos nos identificar com este ou aquele personagem, escolher um lado da história, ou melhor dizendo, tomando uma direção para confabularmos a vida.

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A origem das fábulas de Esopo

fábulas de esopo

Tornaram-se famosas as lições das fábulas de Esopo na Grécia do século VI a.C., assinalando uma passagem de muitas tradições orais para o registro através da escrita, ao mesmo tempo que se desenvolviam os conceitos de cidadania e história. Era o fim da Antiguidade, início do período Clássico, quando, num momento de paz, a realidade social e todos os saberes pareciam estáveis organizando-se justamente… em classes, com o chamado Século de Péricles, o grande estadista, orador e estratego ateniense. É bem certo que as fábulas já existissem uns quatrocentos anos antes, pelo menos, mas tomassem uma nova feição que não era brincadeira ou literatura para crianças.

Os fabulistas… e as fábulas de Esopo, assim, logo se revelaram interessantes estratégias para criticar as formas nem sempre justas de governo!

Os gregos, em especial os atenienses viviam um período de uberdade na política, nas artes, na economia que tudo sustenta. Contudo, essa política também dividia as pessoas e limitava a liberdade de expressão a quem não fosse nascido em berço de ouro: muitos não possuíam direitos como cidadão, ao lado de estrangeiros, escravos ou não, artífices, mestres, sábios, artesãos. E quem poderia reclamar? Quem iria pendurar o guizo ao pescoço do gato? Os fabulistas… e as fábulas de Esopo, assim, logo se revelaram interessantes estratégias para criticar as formas nem sempre justas de governo!

O IMPACTO HISTÓRICO DAS FÁBULAS NA LITERATURA

Podemos viajar no tempo e repensar a importância não só das fábulas de Esopo, mas das fábulas em geral na contemporaneidade, nos divertindo com as alegorias e essas histórias de animais colecionadas em épocas e lugares diferentes. Vale citar os ricos livros de Calila e Dimna, escritos em sânscrito, na Índia do século III a.C. que nos colocam num circuito de literatura no estilo picture in picture — ou seja, de fábula dentro da fábula, abrindo com o diálogo entre dois chacais que avaliam a performance de um leão acovardado e o que ele deve fazer para manter-se a salvo meio a boas e más companhias. E claro que fazem isso usando histórias.

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Se quisesse, ela respondeu, contaria outras histórias que levariam a conclusões diferentes.

A mesma artimanha — do narrador convencer um ouvinte de que seu ponto de vista é o correto —, os leitores poderão encontrar no começo de As mil e uma noites, quando o pai de Scheherazade conta a ela primeiramente a história do boi e do asno nos trabalhos difíceis do arado, depois o conto fabular do cão e do galo palpitando na sorte como os maridos devem tratar uma mulher curiosa. Mas nada disso adiantou: a esperta jovem retorquiu às narrativas do pai com a mira certeira de quem conhece os engenhos da palavra: se quisesse, ela respondeu, contaria outras histórias que levariam a conclusões diferentes. E Scheherazade, vitoriosa, prossegue com o plano astucioso de salvar outras vidas, casando-se com o sultão.

Destas vozes que vieram do Oriente, tal como Esopo, escravo e estrangeiro entre os gregos, podemos ouvir os ecos por toda a tradição da literatura ocidental. No campo das fábulas tradicionais, um passeio pelas ruas de Roma com um escravo alforriado chamado Fedro, no limiar do século I, evidenciaria como estas narrativas buscavam denunciar a opressão dos mais fortes sobre o mais fracos: sim, devemos a Fedro a forma literária de fábulas como o lobo e o cordeiro e tantas outras que permaneceram na cultura latina.

Coube a La Fontaine o título de pai da fábula moderna, migrando os tumultuados enredos para a forma da poesia.

O Redescobrimento

E talvez possa parecer que, por muito tempo, as fábulas andassem perdidas por labirintos e bibliotecas proibidas, até que a curiosidade de um Leonardo da Vinci reinventasse uma série de alegorias, adivinhas e histórias de objetos, plantas, animais, com o Renascimento do século XVI. Adiante, na França, coube a La Fontaine o título de pai da fábula moderna, migrando os tumultuados enredos para a forma da poesia e começar os seus trabalhos de entreter o filho e a corte do rei Luís XIV, ironicamente, iconicamente, com as diferenças da cigarra e da formiga. Sobre a natureza das fábulas, Jean de La Fontaine ofereceu a mais precisa chave de leitura: é uma pintura em que podemos encontrar nosso próprio rosto.

Além das fábulas de Esopo: veja outros autores dE FÁBULAS

fabulas de esopo e la fontaine

De passagem por outros grandes autores da fábula, valeria a pena conhecer Félix M. Samaniego na Espanha do século XVIII; e depois as recolhas de Teófilo Braga no século XIX indicando quanto a fábula cruzou o Atlântico e estabeleceu trocas entre as culturas portuguesa, africana e brasileira. Merece comentário à parte a tentativa de Lúcia Pimentel Góes em classificar o gênero da fábula brasileira que também apelidou como ‘fábula saborosa’, muitas vezes, deflagradora do riso de nossa gente sobre a exploração do colonizador até se converter em matéria de literatura infantil.

Da mesma maneira como faziam os cantadores populares, puxando um causo de outro, a escritora costa-riquenha Carmen Lyra escreveu as desventuras do mestre coelho e do mestre coiote em Cuentos de mi tía Panchita (1920); entre nós, Monteiro Lobato ambientou a autoridade das fábulas em cenas de leitura com a branca voz de Dona Benta, sob a crítica livre dos demais moradores do Sito do Pica-pau Amarelo, em seu volume de Fábulas (1922).

Como a literatura infantil tornou-se pródiga na expansão das fábulas em histórias de animais, e soube se apropriar e misturá-las a outras formas populares, necessitamos ainda recordar Os saltimbancos, uma peça teatral do italiano Sergio Bardotti e do músico argentino Luís Enriquez Bacalov, traduzida por Chico Buarque (1977). Inspirada em um conto dos irmãos Grimm — Os músicos de Bremen —, a nova-velha história conta com expressivas canções de cunho fabular e clara sugestão política. Quem não ouve a voz da galinha, do burro, do cachorro e da gata, sem ver diante de si a representação dos operários, do trabalhador rural, do policial servil e da classe dos artistas?

Nos últimos anos, muitos escritores e editoras têm procurado dar uma resposta à necessidade de conhecermos as matrizes de nossa cultura e literatura para crianças, o que levou e velou certo conhecimento sobre as fábulas de origem africana e indígena às leituras no âmbito escolar, destacando-se autores como Rogério Andrade Barbosa e Celso Sisto resgatando narrativas de muitas Áfricas existentes mundo afora. Também há um trabalho exemplar de reconto no livro de Kaká Werá Jecupé: As fabulosas fábulas de Iauretê (2007), com as virações de animal em homem e os estreitos laços de parentescos anímico entre gente, onça, jabuti, coelho, boto, anta, raposa, nas tramas da fábula com mitos e contos etiológicos que nasceram com as culturas tupi, kadiweu, bororo e munduruku, dispersas de norte a sul do país e compiladas pelo general Couto de Magalhães, em 1873.

Enfim, é uma visão da fábula como terreno de disputas, ao longo de muitas histórias, que nos permite ‘reinicializar’ em nosso tempo, com leveza e apuro, as estratégias da palavra para uma melhor compreensão da vida que desejamos no presente.

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