A crononormatividade é um conceito que pode parecer complexo à primeira vista, mas é uma ideia muito importante para refletir sobre como a sociedade lida com o tempo e as expectativas em relação a nós mesmos e à vida das crianças.

O termo foi criado pela teórica norte-americana Elizabeth Freeman em uma de suas obras. Destrinchando a palavra, temos “crono”, que do grego significa “tempo”, e “normatividade” — normativo é tudo aquilo que estabelece regras e padrões sobre algo ou alguém. Ou seja, de maneira simples, a crononormatividade é a ideia de que todos devemos seguir um mesmo “cronograma” rígido para as diferentes fases da vida, determinando etapas obrigatórias que devemos passar em cada uma delas.

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Crédito: Canva

O sujeito crononormativo acredita que há apenas uma única trajetória de vida correta e quando alguém se distancia de uma dessas etapas, está inadequado ou atrasado. Essa pressão acontece, por exemplo, quando determinamos que o normal é que todo mundo faça faculdade, consiga um determinado tipo de emprego, namore, case, tenha filhos e netos — estabelecendo, muitas vezes, uma idade específica para cada um desses itens.

Mas a crononormatividade pode estar presente também no desenvolvimento infantil, ao esperarmos que todas as crianças aprendam as mesmas coisas, do mesmo jeito, na mesma idade.

“Quando a gente exige esse único tempo de aprendizagem, a gente está gerando frustração, ansiedade, dificuldade emocional, que poderiam ser evitadas se a gente tivesse uma abordagem educacional mais flexível e mais respeitosa”, aponta Carolina Videira, educadora, empreendedora social, especialista em inclusão da diversidade, práticas inclusivas e gestão das diferenças, além de mestre em neurociência.

A seguir, confira um bate-papo com a educadora para entender melhor o que é crononormatividade e como os pais podem evitar a imposição desse conceito no dia a dia das crianças.

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confira a entrevista:

É a imposição de um tempo, né? Como se existisse um tempo correto para o desenvolvimento humano. Como se todas as crianças tivessem que atingir marcos pré-estabelecidos como andar, falar, ler, escrever, todo o seu desenvolvimento neuropsicomotor dentro de uma única linha de tempo universal. Isso cria uma expectativa muito rígida, como se existisse um jeito normal e um jeito errado da gente crescer e aprender e que acaba ignorando toda a diversidade, todos os ritmos e todas as trajetórias. Sem a gente respeitar a singularidade de cada criança. Isso tudo vai muito de encontro com a educação inclusiva.

Ela reconhece que todo cérebro e indivíduo são únicos e que cada um aprende em um determinado ritmo. Ela é muito embasada pela neurociência e pelo Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA), uma abordagem que busca criar ambientes de aprendizagem acessíveis a todos os alunos.

Há, por exemplo, a pedagogia baseada em projetos, que vai permitir que cada aluno explore o seu interesse no próprio ritmo, sem essa pressão de um único cronograma. A avaliação formativa que, ao invés de focar em provas padronizadas, avalia o estudante em diferentes situações: como ele trabalha em casa, como faz tarefas sozinho, como se organiza em grupo, etc. Posso, de repente, fazer uma chamada oral, ao invés da prova escrita, se o aluno souber se expressar melhor assim. Há também o ensino multimodal, que é combinar leitura, vídeo, arte, movimento, experimentação, para permitir que cada aluno aprenda da maneira que funcione melhor para ele.

As implicações são vastas, né? A primeira é que a gente começa a criar um ambiente de comparação constante, no qual as crianças devem tentar seguir um padrão pré-estabelecido. E elas acabam, desde muito cedo, sentindo-se inadequadas e incapazes, ou seja, a gente começa a afetar a autoestima e a saúde mental das crianças. Quando a gente exige esse único tempo de aprendizagem, a gente está gerando frustração, ansiedade, dificuldade emocional, que poderiam ser evitadas se a gente tivesse uma abordagem educacional mais flexível e mais respeitosa.

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No ambiente escolar, eu acho que a gente vê com muito mais clareza essas expectativas rígidas, né? Porque as crianças precisam aprender a ler e a resolver problemas matemáticos em tais séries, ignorando essas variações naturais do processo. O modelo tradicional de ensino, que ainda é muito comum no Brasil, vai premiando aqueles que se encaixam nesse cronograma padrão e vai penalizando os que não acompanham. Então, ele vai reforçar a ideia de que o aprendizado deve seguir uma única trajetória, gerando não só frustrações, mas também outra consequência: encaminhamentos para diagnósticos que, às vezes, não existem, quando a criança talvez precisava apenas de mais tempo.

Crononormatividade_meio. Crianças na escola com professora
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Em casa, a gente talvez não tenha tanta intencionalidade, mas a gente ainda escuta frases como: “Poxa, o seu primo já sabe ler e você ainda não!” ou “Com essa idade, você já deveria saber se vestir sozinho!” E a gente começa a comparar as crianças dentro de casa, gerando, sem querer, sentimentos de inadequação e de sofrimento.

Eu acho que a pessoa pode buscar por escolas inclusivas. E essa inclusão não diz respeito só às crianças com deficiência, mas respeita a diversidade de todos os tipos, não só entre os alunos, mas também no ambiente escolar. Que seja uma escola que apresente metodologias diferenciadas de ensino, que não tenha uma única maneira, um ensino ou método rígido, mas que olhe principalmente para o currículo, de repente com um plano individualizado para todos os alunos. Acho que o principal desafio desse assunto é justamente no sistema educacional brasileiro, que foi desenhado para turmas homogêneas, quando, na realidade, nenhuma turma é homogênea.

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Para elas, é tudo ainda mais excludente. Esse público fica mais exposto. Quando as escolas não oferecem abordagens inclusivas, vão deixando essas crianças para trás. Elas vão sendo tidas como crianças atrasadas, criando um mito de que elas não aprendem, mas isso é um neuromito. Na verdade, elas só precisam de uma abordagem compatível com o seu ritmo. Então o que precisamos é de uma educação verdadeiramente inclusiva que valorize toda essa diversidade. Algumas vezes, a dificuldade não é de aprendizagem, mas sim de ensinagem. Se um outro professor te ensina a mesma coisa de maneira diferente e você aprendeu, era o método que estava errado [para você].

Não, a neurociência não é rígida, porque ela fala justamente sobre a plasticidade cerebral, que é a capacidade do nosso cérebro de se adaptar. Os estudos mostram que algumas crianças desenvolvem habilidades mais cedo em uma área e mais tarde em outra, mas que isso não afeta o seu potencial futuro.

Além disso, a gente também tem pesquisas sobre aprendizagem que mostram que os fatores emocionais, como motivação e segurança, têm um papel tão importante quanto a idade na aquisição de novas habilidades. O que que eu quero dizer com isso? Que o ambiente que a criança está inserida faz diferença na aprendizagem. A alimentação, segurança, sono, tudo isso contribui para a aprendizagem. Então, não é só uma questão de idade. Eu tenho que olhar para todos esses fatores externos para daí sim garantir que ela está dentro de uma média ampla, não uma média restrita.

Infelizmente, ela é totalmente dependente do meio. Ela tem questões genéticas sim, mas o meio tem um papel muito importante. Então, se uma criança cresce ouvindo que um único caminho é correto, o cérebro vai internalizar isso como verdade. Vou trazer um exemplo da minha geração. Quando eu era criança, todas as princesas eram brancas e tinham o cabelo liso. Ninguém me falou que só existia um tipo de princesa, mas o que eu via e consumia era um padrão. Logo, o meu cérebro associou “princesa” a essas características. E é daí que vão nascendo os vieses inconscientes e os preconceitos.

Sim, tem várias evidências científicas, não só do ponto de vista emocional, como acadêmico também. Os estudos mostram que qualquer criança que cresce em um ambiente que incentiva a curiosidade, a autonomia e a criatividade, vai ter mais motivação intrínseca. Esse cérebro vai ter mais autoconfiança e ele vai ter mais flexibilidade cognitiva, que é exatamente isso que a gente está conversando. E o legal é que as pesquisas mostram que isso tem resultado acadêmico também. Então além de uma vida social melhor, elas têm um melhor desempenho acadêmico.

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Acho que são várias etapas. Primeiro, a gente precisa nos reconhecer como seres humanos preconceituosos que todos nós somos e carregamos vieses inconscientes. Muitas vezes, temos expectativas para nossos filhos, mas eles não as atendem justamente porque eles não são a gente, eles têm os próprios desejos. E aí, a gente vai desconstruindo os nossos preconceitos e entendendo como a gente pode criar essas crianças de uma maneira mais saudável em todos os aspectos. A gente precisa observar a criança que a gente tem ao invés de comparar, além de criar um ambiente seguro para experimentação. Temos que tolerar o erro e até aplaudi-lo, porque é errando que a gente aprende.

Também acredito que os pais podem ensinar a autorresponsabilidade. Trazer desde cedo uma autonomia gradual para que a criança aprenda a tomar decisões, que ela aprenda a lidar com as consequências e não que a gente tome as decisões por ela, que é o mais natural de ser feito. Outro ponto é oferecer ambientes, brinquedos, livros e jogos diversos, para a criança poder entender essa pluralidade do mundo.

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Estante Quindim

E a literatura, através de uma curadoria potencializada pela bibliodiversidade, pode ajudar as família a encontrar perspectivas diversas para a construção da jornada individual das crianças. Conheça livros infantis já enviados pelo Clube Quindim para conversar sobre diferenças, identidade e empatia.

Bicho Bolota (autora Olga de Dios, editora Boitatá)
Bicho Bolota, de Olga de Dios
Tímidos (autora Simona Ciraolo, editora Companhia das letrinhas)
Tímidos, de Simona Ciraolo
Assim eu vejo (autores Romana Romanyshyn e Andriy Lesiv, Editora do Brasil)
Assim eu vejo, de Romana Romanyshyn e Andriy Lesiv