As férias escolares chegam e, com elas, uma pergunta que ronda muitas famílias: como ocupar todo esse tempo? Uma passada rápida pelo feed, nas redes sociais, aumenta a sensação de culpa e inadequação. Parece que todo mundo já está aproveitando e compartilhando fotos de viagens, parques, oficinas, acampamentos, passeios e programações para todos os dias. Será que só você e seu filho estão em casa, sem planos mirabolantes? Como você vai arrumar tempo, dinheiro e criatividade para elaborar uma agenda cheia para que seu filho tenha férias inesquecíveis e não fique “para trás”?
Mas será que é isso mesmo? Na maioria dos casos, essa pressão está muito mais relacionada às expectativas dos adultos do que às necessidades das crianças. “A gente vive nessa busca constante por performance e acaba jogando isso no colo das crianças sem perceber”, afirma a educadora parental Ana Luisa Meirelles, cofundadora da Universidade de Pais. Segundo ela, esse receio de que os filhos estejam perdendo oportunidades ou não estejam recebendo estímulos ou se divertindo o suficiente, a comparação com outras famílias e a culpa por não conseguir oferecer uma programação diária levam muitos pais a enxergarem o tempo livre como um problema a ser resolvido. Mas isso não é verdade.
o tempo livre também faz crescer
Atividades educativas, cursos, esportes, experiências diferentes. Tudo isso pode ser muito enriquecedor para o desenvolvimento infantil, mas é importante lembrar que não substitui algo essencial: o tempo em que a criança pode simplesmente brincar, imaginar e descobrir o que tem vontade de fazer.

“Eu não vejo o tempo livre como um buraco na agenda. Para mim, é onde a mágica acontece”, diz Ana Luisa. “Quando a gente entrega tudo pronto — o horário, o brinquedo, a regra — a criança não precisa pensar. Ela só consome”, explica. É justamente quando não tem ninguém para definir o que vai ser feito e todos os próximos passos, que surgem as brincadeiras inventadas, os interesses inesperados e as experimentações que fazem parte da construção da autonomia.
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Férias escolares perfeitas x “não tenho nada para fazer”
Que atire a primeira pedra o pai ou mãe que não escuta essa frase várias vezes ao dia, principalmente no período de férias. E aí, é quase automático: os adultos procuram uma solução, sugerindo atividades, ligando a televisão ou entregando uma tela, como celular ou tablet. Mas esse “nada para fazer” tem um papel importante na infância.
Não dá para negar que, pelo menos inicialmente, haja um certo desconforto. Mas, segundo Ana Luisa, é esse incômodo que instiga a criança a buscar respostas dentro de si. Desse espaço aparentemente vazio nascem as brincadeiras mais criativas, as histórias inventadas e as ideias inesperadas. E não é só isso: aprender a lidar com momentos sem estímulos constantes também fortalece a tolerância à frustração e a capacidade de esperar.
Em vez de oferecer imediatamente uma solução, vale devolver a pergunta: “O que será que você pode inventar agora?”.
a importância de brincar sem roteiros
Nem toda aprendizagem acontece em atividades dirigidas. Quando a criança brinca de forma livre, ela cria regras, resolve conflitos, testa possibilidades e toma decisões o tempo todo. Sem um adulto conduzindo cada etapa, aprende a confiar nas próprias ideias e a lidar com os pequenos desafios que surgem naturalmente.
Direto do Instagram: Livre brincar: por que é importante que a criança seja responsável pela própria brincadeira?
Para Ana Luísa, é nesses momentos que a autonomia ganha espaço. Quanto menos interferimos em brincadeiras que poderiam ser resolvidas pelas próprias crianças, mais oportunidades oferecemos para que elas experimentem, errem, tentem novamente e descubram do que são capazes.
agenda cheia demais também atrapalha
É claro que passeios, viagens ou atividades organizadas são oportunidades incríveis para aproveitar, criar memórias e aprender. O ponto é que não é preciso preencher cada momento das férias escolares com eles. “Se cada hora do dia tem um compromisso, as crianças desaprendem a ouvir o que o próprio corpo pede”, explica Ana Luisa. O resultado pode ser cansaço, irritação e uma dependência cada vez maior de um adulto ou de outra pessoa para dizer o que fazer.
Famílias com excesso de ocupação acabam perdendo justamente aquilo que as férias poderiam oferecer de mais precioso: tempo para conversar sem pressa, rir juntos, cozinhar, ler uma história ou simplesmente não fazer nada.

Mas atenção: desacelerar não significa abandonar completamente a rotina. Dormir em horários parecidos, fazer as refeições juntos, brincar ao ar livre, descansar e participar das pequenas tarefas da casa continuam sendo referências importantes para a criança. “A rotina dá segurança. A agenda dá cobrança”, resume a especialista. Manter alguns pilares do dia ajuda a preservar o bem-estar e a previsibilidade, que traz segurança, sem transformar as férias escolares em uma sequência de compromissos.
Menos comparação, mais presença
Nem toda família consegue viajar ou planejar atividades especiais durante as férias, mas pode respirar com tranquilidade porque isso, nem de longe, quer dizer que as crianças estejam “perdendo alguma coisa”.
A comparação alimentada pelas redes sociais costuma ser uma das principais fontes de culpa, porque nos esquecemos que o que aparece na internet são apenas recortes felizes da vida de outras pessoas. Em vez de tentar reproduzir as férias perfeitas, talvez a pergunta mais importante seja: como podemos estar verdadeiramente presentes?
As memórias mais importantes costumam ser as mais simples
Uma receita preparada juntos, um jogo que estava esquecido no armário, uma cabana feita com lençóis no meio da sala, uma caminhada sem pressa ou horário pelo bairro, uma conversa enquanto a comida é preparada ou enquanto a louça é lavada… As experiências comuns também ajudam a construir vínculos e fortalecem o sentimento de pertencimento.
Talvez as melhores férias escolares não sejam aquelas com a agenda mais cheia, mas as que deixam espaço para o inesperado. Quando sobra tempo para brincar, imaginar, descansar e aproveitar os momentos simples juntos, a infância acontece com toda a potência.
estante quindim
Conheça três livros, entregues à Família Quindim, para desacelerar nessas férias:








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