O artigo 15 do Estatuto da Criança e do Adolescente determina que toda criança tem o direito à liberdade, respeito e dignidade enquanto pessoas humanas em processo de desenvolvimento. O texto continua dizendo que as crianças são sujeitos de direitos civis, humanos e sociais, ou seja, são cidadãos.

A Constituição Federal, por sua vez, diz que cada brasileiro, enquanto cidadão, tem o direito e dever de participar politicamente de onde vive. Isso, portanto, inclui as crianças, que são cidadãs em processo de desenvolvimento. Para que elas possam exercer sua cidadania, a Constituição é enfática ao dizer, no artigo 227, que é responsabilidade de todo mundo garantir que esse e todos os demais direitos estejam acessíveis a elas. Afinal, apesar delas serem tão cidadãs quanto os adultos, temos que respeitar o nível de desenvolvimento de cada uma.

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Isso não significa que iremos subestimar ou ocultar deliberadamente assuntos que julgamos não ser “coisa de criança”. Pelo contrário: para conversar com elas sobre política, por exemplo, devemos considerar a faixa etária da criança e seu repertório, munindo-as, pouco a pouco, de ferramentas, diálogos e conhecimentos necessários para que elas construam a própria opinião. É o que defende Lisandra Ogg Gomes, doutora em Educação pela Universidade de São Paulo (USP) e professora da disciplina de Crianças e infância na interface política.

“Quando não compreendemos que as crianças são parte da sociedade e atuantes, acaba-se por inivisibilizá-las” — Lisandra Ogg Gomes.

Com a chegada do período de campanha eleitoral, as crianças acabam tendo maior contato com o debate político. Nisso, algumas famílias temem que suas crianças tenham acesso a assuntos considerados por muitos difíceis e discursos de ódio, mas essa na verdade é uma ótima oportunidade para que elas aprendam, desde cedo, sobre seus direitos e possam exercer sua cidadania e desenvolver seu senso crítico.

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Veja 10 dicas sobre como conversar sobre política com crianças

O papel dos adultos nos conflitos entre crianças
Foto: Canva

1) Use comparações e linguagem simples

Camila Pamplona é editora-chefe do Joca, um jornal que explica e contextualiza notícias para crianças e adolescentes. Segundo a jornalista, não devemos subestimar a compreensão das crianças sobre o mundo, nem fugir de termos que pareçam distantes do léxico delas, como democracia. “Pelo contrário, a gente explica cada uma dessas palavras ‘chatas’ de modo simples, com linguagem acessível, explicativa e contextualizada”, diz. 

“Nós temos, por exemplo, o Manual das Eleições, um material gratuito que atualizamos a cada eleição e que explica com profundidade os poderes, os cargos de cada representante popular, e questões como o voto eletrônico, as fake news e o uso de IA segundo as regras do TRE”, conta Camila.

Explicar esses conceitos e os cargos é um dos primeiros passos para aproximar a criança da política. E isso desde os primeiros anos de vida. De acordo com Claudia Cerqueira, pesquisadora e atual coordenadora do Centro Brasileiro de Pesquisa Aplicada à Primeira Infância (CPAPI), a partir dos dois ou três anos de vida, a criança já tem uma visão mais concreta do mundo e pode ser introduzida a alguns conceitos. Dos quatro anos em diante, ela já consegue vislumbrar e compreender muitas coisas ao seu redor.

“Uma forma muito legal de conversar com crianças sobre política é fazendo associações e analogias. Por exemplo, você não precisa explicar para ela o que é o STF e todas suas prerrogativas, mas pode contar como a sociedade funciona e que regras são essas que todo mundo deve cumprir.”- Claudia Cerqueira

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2) Traga-as para perto do processo eleitoral

Aproveite as próximas eleições para introduzir os filhos nas etapas que compõem o processo de votação. Mostre para eles como você escolhe o candidato em que vai votar, e como eles estão comunicando suas promessas. No dia das eleições, leve-o com você, mostrando os números que você precisará colocar na urna e explicando como ela funciona.

política
Foto: Canva

Segundo Lisandra, a construção da cidadania se inicia pela participação, “desde quando as crianças estão no colo de um adulto, acompanhando-o no dia da eleição (…) ou até mesmo ouvindo-os justificar suas escolhas partidárias.” Mesmo sem direito ao voto, é preciso reconhecê-las como pessoas de direitos e ativas na sociedade.

3) Pergunte e escute a opinião de seu filho

Por não votar, as crianças necessitam de políticos que estudem e lutem pelos direitos delas. Por isso, escutar o que elas têm a dizer é fundamental para compreender quais são suas demandas e interesses, sobretudo em uma sociedade tão adultocêntrica.

Pergunte, escute e responda às dúvidas de seus filhos. Não há nada mais democrático do que uma conversa honesta e recíproca. Para Lisandra, cabe aos adultos não apenas apresentar e contextualizar o momento eleitoral de modo pedagógico, mas também estar aberto para a conversa a partir das suas perguntas e inquietações. “Mais do que oferecer respostas prontas, é importante criar um espaço de diálogo entre pessoas, e isso é uma ação política”, afirma.

Não tenha medo, portanto, de debater algumas das promessas de campanha dos candidatos com seus filhos. Mostre, por exemplo, o que determinado político diz e o que já foi feito por ele até então, perguntando à criança o que ela acha sobre tudo isso. No Joca, uma das maneiras de retratar assuntos complexos é justamente trazer a opinião dos próprios leitores, para que eles próprios exercitem o senso crítico. “Ao trazer o olhar da criança para dentro do jornal, isso legitima o lugar de fala dela e as experiências de vida que ela tem.”

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4) Aponte a política no dia a dia

Para além do período eleitoral, é possível trabalhar valores democráticos com as crianças todos os dias. “A política está implícita em muitas coisas diárias da nossa vida”, explica Claudia. “Por exemplo, o jantar. Como foi tomada a decisão do que a família inteira iria comer? Quem participou? Por quê?” Nesses e em outros momentos, é possível convidá-las a pensar nas discussões e decisões coletivas que afetam diretamente sua rotina.

dia na escola
Foto: Canva

E isso pode acontecer em todos os espaços que a criança frequenta e tem contato com outras pessoas da comunidade, para além da família e da escola. “[Esses são lugares que elas] têm a possibilidade de opinar, escutar o outro, explicar (e também negociar) sua posição, questionar e relacionar as situações com suas próprias condições de vida, por exemplo”, acrescenta Lisandra. 

5) Apresente o ECA

O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) é a principal lei sobre as infâncias no país. Por isso, apresentá-lo às crianças é uma das maneiras delas exercerem a cidadania. O ECA está publicado em diferentes formatos, sendo assim acessível até para os mais novos.

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6) Incentive o brincar coletivo

No universo infantil, brincadeira é coisa séria. É por meio dela que as crianças imaginam novas possibilidades, negociam e criam cenários inéditos junto dos outros. É, portanto, essencial que elas tenham esse espaço do brincar livre com as demais crianças, sem a intermediação de adultos.

“O lúdico, assim, se constitui como um modo de atuação política, uma vez que o jogo e a brincadeira se abrem como espaços de liberdade, experimentação e criação de outras possibilidades na relação com o mundo”, complementa Lisandra.

Brincadeiras com caixa de papelão

7) Não tenha medo de “doutrinação”

Segundo Maria Benevides, socióloga e cientista política brasileira, a doutrinação muitas vezes é confundida com aqueles valores que não concordamos, ou seja, acusamos uma escola de doutrinadora, por exemplo, apenas quando ela mostra ideias e realidades que nos opomos.

No entanto, de acordo com Lisandra, quando possibilitamos que crianças participem de espaços plurais, com pensamentos e realidades diversas, criamos condições democráticas para que elas desenvolvam o próprio modo de pensar. “Não se trata de oferecer uma resposta única, mas possibilitar que pensem sobre seu mundo, questionem, comparem, construam suas próprias ideias e compreendam, inclusive, que é possível revê-las e mudá-las”, afirma a educadora.

Se acusamos que uma criança está sendo doutrinada pelo simples fato dela ter contato, por exemplo, com uma religião diferente da sua, no fundo acreditamos que ela é como um pote vazio a ser preenchido, e não um sujeito capaz de pensar e compreender o que está à sua volta.

“É muito interessante quando você faz a criança refletir dessa maneira: ‘Olha, aquela pessoa pensa um pouco diferente, o que que você pensa sobre isso?’ A partir dos quatro anos, ela já consegue elaborar argumentos e isso vai sendo desenvolvido na cabeça dela, sempre na expectativa de formar um cidadão crítico”, explica Claudia.

8) Tente não ser tão pessimista em relação à política

Em meio a tanta notícia ruim e em um mundo cada vez mais polarizado, é difícil falar sobre política sem exprimir certa repulsa ou descrença. Mas justamente por esse motivo, a coordenadora do Centro Brasileiro de Pesquisa Aplicada à Primeira Infância (CPAPI) sugere que apresentemos conceitos e valores sobre cidadania de uma maneira mais positiva para as crianças. “Porque senão o que a gente vai ter é uma massa de cidadãos mais acrítica, com menos envolvimento político”, argumenta Claudia Cerqueira.

Assim, compartilhe com seus filhos valores que você acredita e que te faz apoiar determinados políticos, seja da parte social, ambiental, econômica ou de saúde.

9) Aposte na educação midiática

Cada vez mais, a educação política está diretamente relacionada à educação midiática, ou seja, à prática de ensinar as pessoas a consumir e compartilhar informações nos diferentes meios de comunicação. No período de campanha eleitoral, isso é ainda mais importante.

“Um dos jeitos mais legais da gente colaborar para a formação crítica e cidadã das crianças durante esse momento é justamente no ponto da desinformação e do consumo midiático”, diz Camila. Por isso, busque sempre investigar junto das crianças as afirmações que os políticos fazem, separando juntos o que é verdade do que não é. Ferramentas como portais de checagem são essenciais nesse momento.

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10) Consuma livros infantis sobre esses assuntos

10 livros sobre politica para apresentar aos pequenos meio
Imagem do livro “Papai, por que você votou no Hitler?“, de Didier Daeninckx e Pef. Crédito: Clube Quindim

Por fim, leia com as crianças livros que versem sobre política, cidadania e todos os temas que orbitam esse universo. Há muitas obras infantis de boa qualidade que vão te ajudar a aproximar o seu filho da vida política.

estante quindim

Conheça três livros, já entregues à Família Quindim, que podem iniciar diálogos fundamentais sobre política e despertar o senso crítico desde cedo:

Juntos e misturados (autor Laurent Cardon, editora WMF Martins Fontes) 
Juntos e misturados, de Laurent Cardon
PapaiVotouHitler CapaTransparente e1730206214163
Papai, por que você votou no Hitler?, de Didier Daeninckx e Pef
A manhã marrom (de Franck Pavloff e Mariana Zanetti)
A manhã marrom, de Franck Pavloff e Mariana Zanetti