“Tem um monstro debaixo da cama”. Aos olhos de um adulto, esse medo, relativamente frequente na primeira infância, pode parecer apenas uma expressão da imaginação. Mas você já parou para pensar no que esse monstro significa para a criança? Em alguns casos, é um faz de conta, mas, em outros, pode representar mais que isso. Talvez seja uma maneira de sinalizar a existência de um medo, ainda que ela não tenha encontrado as palavras mais assertivas. Pode ser uma raiva difícil de explicar, uma saudade, uma frustração, uma angústia. 

Na infância, a fantasia também é uma linguagem. É muito difícil dizer ou mesmo compreender um medo. Então, em vez de dizer “estou com medo de ficar sozinha”, a criança pode falar sobre um lobo, por exemplo. Em vez de explicar uma raiva que parece grande demais, ela pode imaginar e mencionar uma bruxa muito malvada. Em vez de processar uma perda, ela pode se comover com um personagem que também precisa se despedir de algo ou de alguém.

Para o psicanalista Christian Dunker, professor no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IP-USP), a fantasia é parte fundamental na maneira como construímos nossa relação com o mundo e com nós mesmos. Ela não apenas transforma experiências em histórias que podemos recordar, mas também permite imaginar possibilidades, desejos e caminhos.

“Os super-heróis e os monstros dão imagem e sentido para afetos indiscerníveis, ou para que os antropólogos chamam de ‘estados informulados do ser’, ou ainda ‘estados inumeráveis do ser’, como chamava o teatrólogo Antonin Artaud. Ou seja, nós temos muitos estados, nós somos muitos. E temos um problema de simbolização, que é: como esses ‘muitos’ habitam um só, que sou eu?”, reflete o especialista.

Na infância, isso tudo está em pleno movimento. A criança ainda está construindo recursos para reconhecer o que sente, organizar experiências e encontrar maneiras de expressá-las. A literatura é uma das maneiras de oferecer personagens, imagens e enredos para que algo difícil de apreender ganhe contorno.

na fantasia, quando o medo vira monstro

Talvez por isso os vilões sejam tão fascinantes. Bruxas, lobos, monstros e outros personagens assustadores concentram sentimentos que, na vida cotidiana, podem aparecer de maneira muito mais confusa.

Dunker chama atenção para o fato de que esses personagens nunca existem isoladamente. Repare como eles estão sempre dentro de uma trama ou relacionados a outros personagens e envolvidos em conflitos. Assim, a criança acompanha o medo, a ameaça, a tensão e, muitas vezes, a possibilidade de saída. “Eles oferecem uma existência por procuração, onde eu consigo me aproximar da expressão desses afetos sem me confundir com eles”, aponta o psicanalista. 

A deformação também tem um papel. Muitas vezes, um monstro é enorme, tem três olhos, garras imensas, uma bruxa pode ser assustadora, com um nariz enorme e muito torto, um lobo pode querer devorar alguém. O sentimento aparece aumentado, transformado em imagem, quase como uma caricatura. Justamente por não ser a realidade literal da criança, acaba ficando mais fácil se aproximar dele. Neste espaço, a literatura pode oferecer uma experiência valiosa: em vez de simplesmente eliminar o medo, permite que a criança faça alguma coisa com ele.

Imagem do livro 'Onde vivem os monstros, de Maurice Sendak
Imagem do livro ‘Onde vivem os monstros, de Maurice Sendak | Foto: Rodrigo Frazão

Nas histórias, a angústia não fica necessariamente solta. Há uma trama, uma sequência de acontecimentos, personagens que tomam decisões. A narrativa cria um percurso para aquilo que, na experiência emocional, parece um emaranhado. “A narrativa distende a ação, nos faz introduzir o pensamento entre o juízo e o ato, entre o ato e o juízo. […] É assim que a gente trata a angústia, colocando palavras, nomeações, propondo uma narrativa”, explica o psicanalista. 

É pouco provável que uma criança pequena conclua de forma direta: “Este monstro representa a minha ansiedade”. É possível que essa correspondência tão direta nem exista. Mas a literatura é uma maneira de experimentar aquilo que assusta sem que seja preciso vivê-lo.

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depois da última página

Nada disso termina quando se fecha o livro. Isso porque a literatura ajuda a construir um repertório, que permanece. Uma história ouvida muitas vezes pode reaparecer quando uma adversidade acontece, assim como um personagem pode voltar à memória, diante de alguma situação que vivemos. 

“Uma boa história é aquela que cria uma espécie de caixa de ferramentas para a criança ou mesmo para o adulto. Naquele momento em que acontece algo inesperado, você lembra do João e o Pé de Feijão, lembra da bruxa… Ou seja, isso forma um repertório que vai ser convocado em outros momentos”, diz Dunker. 

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É também por isso que a repetição, tão característica da infância, pode ter um sentido que vai muito além de simplesmente “gostar daquele livro”. A criança já sabe o que vai acontecer. Conhece o caminho, reconhece a ameaça e sabe que, em determinado momento, ela será resolvida — ou não. Pode antecipar uma frase, esperar determinada imagem, notar um detalhe que antes havia passado despercebido. “Para um adulto pode ser chato, porque é ‘de novo’, mas, para a criança, isso é parte da descoberta do prazer com a literatura e que fazer de novo não é a mesma coisa”, aponta o especialista. 

A previsibilidade oferece segurança e a repetição permite o acúmulo de experiência. A história de hoje carrega algo que aconteceu na leitura anterior. É como se cada volta ao mesmo livro abrisse uma pequena diferença. Às vezes, a melhor pista sobre algo que aconteceu durante a leitura é o que vem depois dela, seja uma pergunta, uma brincadeira, uma associação, uma conversa inesperada. Para Dunker, livros que geram perguntas se desdobram em conversas: “É quando o livro termina e a gente continua falando. Esse encadeamento com a vida é muito importante”.

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ler junto

Ler com uma criança é muito mais do que simplesmente transmitir as palavras que estão impressas nas páginas. Envolve voz, entonação, ritmo e, sobretudo, a proximidade. Há ainda o corpo de quem segura o livro e as reações diante de um trecho ou de uma ilustração. Tem risada, tem silêncio, tem interrupção.

Dunker chama a atenção para a ambivalência que existe na relação entre o adulto e a criança: o adulto é, ao mesmo tempo, aquele que protege e aquele que impõe limites. É quem oferece colo e também quem manda tomar banho, comer brócolis, ir à escola ou dormir. A leitura compartilhada pode criar um espaço singular entre os dois. O livro entra como um terceiro elemento, o que permite que assuntos delicados apareçam sem que adulto e criança precisem necessariamente falar diretamente sobre si mesmos.

fantasia
Foto: Canva

A mãe pode comentar que a personagem ficou furiosa e, a partir dali, conversar sobre a raiva sem dizer à criança que aquela personagem “é ela”. O pai pode observar que determinado personagem sentiu saudade e simplesmente deixar a história seguir. O livro cria uma distância, que é justamente o que permite a aproximação.

não tem certo, não tem errado

Alguns adultos programam uma leitura compartilhada como se houvesse uma maneira perfeita de fazer tudo. Há todo um planejamento sobre a escolha do livro certo, sobre o tempo de leitura, o número de páginas lidas, as perguntas, o momento que a criança vive, a necessidade de chegar até o final e de conversar sobre emoções. Mas, em alguns casos, eles se esquecem de que a realidade é mais viva do que isso e não cabe em um “script”. 

Vai haver momentos em que a criança quer continuar, em outros, não vai nem querer abrir o livro. Em alguns dias, vai recursar o livro novo e pedir para você repetir a história que já leram juntos mais de dez vezes. Vai chorar, vai se distrair, vai dormir, vai interromper a leitura para contar uma história que não tem nenhuma relação aparente com o que está na página. Para Dunker, esses movimentos fazem parte da própria experiência.

“A gente precisa levar em conta que a peça em cartaz tem de conversar com o momento que está sendo vivido”, diz ele. Isso significa que a leitura precisa se adaptar ao que acontece. Se o tempo acabou, vocês podem retomar o livro no dia seguinte. Se uma passagem desperta uma conversa, talvez seja justamente a hora de deixar a leitura de lado por alguns minutos. Se o interesse é por outro livro, a nova história pode ficar para outro momento.

“Às vezes, é importante estar atento a sinais de desconcentração, de sono…”, lembra o psicanalista. Para ele, nem sempre é sinal de desinteresse pelo ato de ler. “Às vezes, são reações disfarçadas de angústia, às vezes, são reações que aparecem por você estar tocando em um ponto sensível, algo que você nem conhecia no seu filho”, exemplifica. 

É nesse sentido que a leitura pode funcionar como uma oportunidade de encontro. Não para o adulto descobrir algum significado oculto em cada comportamento, mas para perceber que alguma coisa aconteceu e permanecer disponível para a criança.

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sem blindagem

É uma tentação querer proteger as crianças, selecionando apenas histórias que tranquilizem, livros com finais felizes, em que todos os conflitos são resolvidos, todos os personagens ficam bem e todos os medos desaparecem antes do final. Mas a vida não funciona assim.

O psicanalista aponta para a importância de desconfiar de uma literatura que esconda a complexidade da experiência humana. “O pior que pode haver é aquela literatura infantil que encobre, que cria idealizações. No fundo, são meras negações”, observa.

Isso não significa, é claro, que crianças precisem ser expostas indiscriminadamente a histórias trágicas, nem que finais felizes sejam um problema. O ponto é que não há uma fórmula universal que determine o que uma criança pode ou deve encontrar no final de uma história.

Uma narrativa pode ser engraçada, assustadora, melancólica, poética, absurda ou triste. Pode terminar bem ou deixar perguntas em aberto. O que importa é a relação que aquela história estabelece com quem a lê. 

Um dos maiores presentes que a literatura oferece às crianças é a possibilidade de encontrar, dentro da ficção, algo que não precisa ser resolvido imediatamente. Um monstro pode continuar sendo um monstro, uma bruxa pode seguir bem assustadora e uma despedida, às vezes, vai demorar bastante para deixar de doer. Mas fica a lembrança de uma história, de um personagem que passou por situações complicadas e uma memória que pode ser resgatada quando a vida acontecer e trouxer um desafio parecido. 

Mas mais do que isso: fica a certeza de alguém que estava ali para ler junto e conversar sobre o que nem ela compreendia direito ou sabia que sentia. Há alguém para ajudar a decifrar aquelas sensações esquisitas, o frio na barriga, a vontade de chorar ou de esconder. Há alguém para acender a luz e entender, junto da criança, que monstro era aquele que estava debaixo da cama.   

estante quindim

Conheça três livros, já entregues à Família Quindim, que propõe formas de fazer as pazes com os monstros (reais ou inventados? É hora de descobrir!):

Onde vivem os monstros (autor Maurice Sendak, editora Companhia das letrinhas)
Onde vivem os monstros, de Maurice Sendak
Monstro Rosa (autora Olga de Dios, editora Boitatá)
Monstro rosa, de Olga de Dios
Como reconhecer um monstro (escritor Gustavo Róldan, editora Jujuba)
Como reconhecer um monstro?, de Gustavo Roldán