Em alguns momentos da vida, adultos e jovens podem preferir ler romances. Em outros, livros de crônicas. Há ainda aqueles que focam em um gênero, com um gosto bem definido desde cedo. Pode ser suspense, autoficção, realismo mágico… são diferentes possibilidades e estéticas para ir a fundo, e há sempre um novo mundo para conhecer. É assim que vamos delineando nossas preferências e construindo nossa jornada literária particular. Por que, então, quando pensamos na literatura infantil, existe ainda uma ideia de que os livros infantis não possam abraçar essa pluralidade? Que precisam, sempre, ensinar algo, ter moral ou apenas divertir os pequenos, de maneira frívola ou facilmente compreensível com começo, meio e fim, sem espaço para a subjetividade? 

Para responder essa pergunta, é preciso adentrar em alguns estudos que abordam a sociologia da infância. O chamado “adultocentrismo”, fortemente ligado à matriz da cultura ocidental, enxerga a infância como uma fase preparatória para se tornar adulto, como um ser que ainda não é, mas que irá se tornar. A criança não é enxergada como uma criança em sua plenitude, mas como um “pequeno projeto de adulto”. 

Disso, surgem concepções equivocadas para todas as áreas de conhecimento, e a literatura não fica de fora. Neste ideal mais restritivo, se a criança precisa “aprender como se tornar um bom adulto”, os livros indicados para que ela leia não precisam ser sentidos e apreciados naquele momento, mas sim utilitários, levando para um caminho focado em aprendizado e formação. E, assim, não sobra muito espaço mesmo para a subjetividade, para o sensível, para novos questionamentos, para o indizível e tanto mais que a literatura infantil pode despertar.

Clube Quindim

o único grupo social que não escreve para si mesmo

Anete Abramowicz é um nome que figura entre as principais pesquisadoras sobre a sociologia da infância no Brasil. Para ela, há um ponto muito importante a ser debatido quando pensamos na literatura infantil: a de que as crianças são um dos únicos grupos sociais que não escrevem a própria literatura.

Ao pensarmos na literatura de maneira geral, é bem possível que, em algum texto encontremos vivências parecidas com a nossa, escritas por autores que compartilham características em comum. Sejam elas sobre gênero, raça, classe ou orientação sexual, por exemplo. Já a criança, ao ler um livro infantil, lê muitas vezes o que um adulto imagina que seria algo de interesse das infâncias. 

Isso não significa, é claro, que a literatura infantil seja incapaz de dialogar verdadeiramente com as crianças. Pelo contrário. Apenas reforça que, nessa escrita, é preciso que o adulto se retire totalmente, assim como nossas concepções do que seria o ideal de que uma criança lesse

“Já tem uma relação hierárquica dada logo de início. O adulto para conseguir alcançar a perspectiva da criança, ele tem que fazer muitos movimentos. Porque a gente supõe, a gente imagina, a gente constrói um ideal de criança, e funcionamos nessa representação. Então, surge uma representação daquilo que a criança aguenta e daquilo que a criança não aguenta. E isso pode resultar em uma literatura que é esvaziada de todo o potencial que a própria criança tem”, explica Anete, mestre em Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), doutora em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), pós-doutora em Sociologia da Infância pela Universidade Paris Descartes, na França, e professora titular da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), em entrevista à Revista Quindim. 

subjetividade na literatura
Imagem do livro “Primavera” de Odilon Moraes e Carolina Moreyra (Joaquina). | Foto: Rodrigo Frazão

O cenário apontado por Anete pode aparecer de diferentes formas: quando um livro é considerado “sensível demais” para crianças, quando a narrativa é construída para conduzir o leitor a uma lição de moral — definida, mais uma vez, pelo olhar dos adultos — ou quando a literatura é reduzida a uma ferramenta de ensino, deixando em segundo plano sua dimensão artística e subjetiva.

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“Na literatura infantil, de alguma maneira, o adulto tem que se retrair. Se o adulto não se retrai, ele ocupa todo o espaço. E não uma retração só de lugar, mas uma retração absoluta. É um processo de subjetivação”, aponta Anete. 

a criança já vive uma experiência de mundo própria – e completa

Para que essa literatura alcance de fato as diferentes infâncias, é preciso compreender, antes de tudo, que a criança já vive uma experiência de mundo completa. Ela não “virá a ser”, mas sim já é um indivíduo em sua totalidade. Indivíduo esse que tem medo, curiosidade, raiva, angústias, vivencia o luto, o sarcasmo, a ironia e tantos outros sentimentos complexos que a literatura pode oferecer. 

Além disso, ao definir o tipo de literatura que uma criança deve ler, um outro perigo é acionado: o de subestimar a infância, que enxerga o mundo sob óticas diferentes, mas não menos importantes ou inferiores. 

“A experiência da infância é mergulhada na perplexidade, na curiosidade, no estranhamento frente um mundo que é tão interessante, com suas materialidades, acontecimentos e processos de transformação. As crianças convivem com mistérios, contradições, perguntas sem resposta, invenções e fabulações cotidianas. Elas habitam o campo da imaginação com uma liberdade que muitas vezes os adultos já perderam”, ressalta também Stela Barbieri, autora de mais de 24 livros infantis, arte-educadora, uma das curadoras do Clube Quindim, ex-curadora do Educativo da Fundação Bienal de São Paulo, ex-diretora da Ação Educativa do Instituto Tomie Ohtake e atual diretora do Binåh Espaço de Arte, em entrevista à Revista Quindim.

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Imagem do livro “Isso não é uma caixa” de Antoinette Portis | Foto: Rodrigo Frazão

Esse mundo infantil, tão palpável e ainda sem definições limitantes que vamos adquirindo ao longo da vida, pode ser acessado de diferentes formas, tendo em vista que a literatura é recebida de maneira única por cada pessoa. E, justamente por isso, para manter viva essa gama de pluralidade e subjetividade, é preciso que a criança possa ler livros com temáticas, estéticas e gêneros diferentes

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Nesse caminho, um livro de imagens pode evocar memórias. Um livro mais sensível pode ajudar a compreensão de sentimentos difíceis. Já uma obra questionadora inicia novos diálogos, ou um texto irônico ensina a rir mais de si mesmo… São muitas searas capazes de ativar a subjetividade!

“A infância é um território onde também existem os conflitos. As crianças convivem com perdas, medos, dúvidas, alegrias, sentimentos contraditórios e experiências difíceis desde muito cedo. A literatura não cria esses sentimentos; ela possibilita habitá-los. Um livro pode ser uma oportunidade de nomear, imaginar, deslocar ou transformar experiências que já fazem parte da vida”, reflete Stela. 

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subjetividade na literatura: consumimos arte por prazer, e não apenas para aprender. crianças também!

Se a literatura faz parte da experiência humana, é de comum entendimento que ela não cabe em uma única função. Há livros que nos emocionam, outros que nos fazem rir, alguns despertam estranhamento ou medo e há aqueles que simplesmente não gostamos. Nem toda obra será compreendida na primeira leitura, nem encontrará identificação imediata. Algumas permanecem conosco por anos antes de fazer sentido, enquanto outras apenas passam. 

É justamente essa convivência com diferentes experiências estéticas que nos permite construir, aos poucos, um repertório próprio e descobrir aquilo que nos move como leitores. Não por acaso, a 6ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, divulgada em 2024 pelo Instituto Pró-Livro, aponta que 26% dos brasileiros leem principalmente porque gostam, percentual superior ao daqueles que buscam atualização cultural ou conhecimento geral (15%). 

Por isso, com as infâncias, não deveria ser diferente. Ao ter contato com livros melancólicos, irônicos, divertidos, poéticos, nonsense ou inquietantes, a criança também vai alimentando sua subjetividade e constrói seu gosto pela leitura por meio da bibliodiversidade, entendendo, aos poucos, quais histórias a fazem rir, chorar, imaginar, questionar ou simplesmente voltar a elas mais tarde. Mais do que tudo, elas leem essas histórias porque querem, porque se interessam e porque são humanas. Segundo Anete, não há a necessidade de uma razão maior que essa. 

“As crianças têm questões vitais, sobre a morte, sobre a vida, sobre o que vai acontecer, sobre seu tamanho, sobre seu país. (…) Uma boa literatura é aquela que a ajuda a rir, a se entender, a prosseguir as suas questões”, conclui Anete. 

Afinal, validar a criança como um indivíduo pleno também significa reconhecer seu direito à subjetividade e de viver a literatura da mesma forma que qualquer outro leitor: não apenas para aprender, mas para sentir, e seguir fazendo tantas perguntas ao longo da vida. 

estante quindim

Conheça três livros, já entregues à Família Quindim, que convidam as crianças a mergulharem na subjetividade da literatura:

Primavera
Primavera, de Carolina Moreyra e Odilon Moraes
O livro do futuro CapaTransparente e1786554504773
O livro do futuro, de Mac Barnett e Shawn Harris
Pedro e a Lua (autor Odilon Moraes, editora Jujuba)
Pedro e Lua, de Odilon Moraes