Em casa na quarentena: conheça histórias de quatro famílias e seus desafios

O Clube Quindim entrevistou famílias que decidiram contar como encontraram formas de ressignificar as relações enquanto estão em casa na quarentena

Cada família encontra suas próprias estratégias para lidar com o isolamento. A distância dos familiares, a comemoração de aniversários e a necessidade de conciliar o cuidado dos filhos com o trabalho são desafios comuns a muitas famílias brasileiras. Reunimos o relato de quatro famílias que estão enfrentando a quarentena para entender as estratégias adotadas para minimizar os impactos da pandemia.

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Aumento da carga de cuidados e aniversário em casa na quarentena

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Veronica Linder, 34 anos, jornalista. Mãe das gêmeas Bia e Alice, 2 anos e 6 meses, do Rio de Janeiro (RJ)

“Como sempre fiquei muito tempo sozinha com minhas duas filhas, não senti tanta falta de sair durante o isolamento. O que acontece é que antes sempre tive rede de apoio (remunerada ou não). Minha mãe, meu irmão e uma babá me ajudavam a cuidar das meninas para que eu conseguisse trabalhar”, relata a jornalista Veronica Linder, mãe das gêmeas Bia e Alice, de 2 anos e 6 meses.

Com o isolamento, quase toda a ajuda foi interrompida e Verônica teve de parar o trabalho – ela fazia mapas astrais de bebês para conexão de pais e filhos, algumas vezes na semana, enquanto as gêmeas recebiam cuidados da babá. “Eram dias em que me dedicava ao trabalho e a outros projetos, mas tinha um tempo só para mim. Em casa na quarentena, a dedicação às gêmeas é exclusiva. E como essa válvula de escape deixou de existir, o isolamento me trouxe uma carga muito maior do que eu já tinha”, conta Veronica.

Bia e Alice também sentem falta da rotina antes do isolamento, principalmente do contato com outras pessoas. “Elas ficam na varanda falando com quem passa e beijam o telefone quando veem a avó”, diz.

Veronica completou 34 anos no dia 9 de maio, bem no meio da quarentena. Então, para não passar em branco, fez questão de colocar uma mesa, sempre presente nas comemorações da família, no meio da sala. “Minha casa ficou um caos. Decidi manter a tradição e arrastei a mesa sozinha, mesmo sem ninguém vir para a minha casa durante a festa”, diverte-se. Mas a tradição foi seguida e, além da mesa, teve parabéns cantado junto com as pequenas e transmitido por videoconferência para os familiares. Além disso, a jornalista também ganhou uma aula de alongamento on-line, para iniciar seu dia de comemorações, e aproveitou para comer uma lasanha presenteada por uma amiga.

Em relação ao contato com familiares e amigos, Veronica acha que a frequência mudou pouco. A mãe ainda faz supermercado e o irmão trabalha com ela em uma empresa de almofadas para aleitamento, por isso se falam sempre. Com os amigos, o contato funciona basicamente pelas redes sociais, onde ela expõe o dia a dia dela e das gêmeas. “A vida social não mudou, porque sair de casa sempre foi mais difícil, até mesmo sozinha, porque tinha que pagar alguém para cuidar delas. Por isso, minha interação social se resume praticamente à internet, que também é meu ambiente de trabalho. A maior diferença dessa quarentena, para mim, foi a questão da rede de apoio.”

Na opinião de Veronica, a sociedade agora entende parte do que é passar por um puerpério. “Mesmo sem as mudanças hormonais típicas desse momento, a sensação de isolamento é parecida com a de ser mãe no pós-parto: depender de rede de apoio – se você tem condições de contar com uma –, ter movimentação restrita, estar isolada da sociedade”, conclui.

Você pode acompanhar o trabalho de Verônica no Instagram: @amulherqueengoliuomundo

Dias alternados na guarda compartilhada e a casa inteira como tela

O atributo alt desta imagem está vazio. O nome do arquivo é IMG-20200511-WA0016-766x1024.jpgEm casa na quarentena

Yvânava Lua Alves, 25 anos, publicitária. Mãe de Luna, 2 anos, de Paulista (PE)

Para a publicitária Yvânava Lua Alves, não poder contar mais com uma rede de apoio também foi o que mais impactou a rotina em casa na quarentena. No contraturno da escola, uma das avós sempre ficava com a pequena Luna, que completou 2 anos no dia 12 de abril. “Como a escola parou, reduzimos ao máximo o contato com as avós, mesmo que as duas sejam jovens e fora do grupo de risco”, conta a mãe.

A saída, para Yvânava, foi montar uma estratégia com o pai de Luna, com quem tem guarda compartilhada. Assim, a pequena fica com os pais em dias alternados, o que possibilita que os dois trabalhem. “Como sou publicitária, já trabalhava remotamente, por isso meu ritmo não diminuiu. Como o ritmo dele mudou nessa quarentena, essa tática nos ajudou na flexibilização”, detalha. Mas se lidar com o homeoffice não é uma novidade, o desafio é mesmo o homeschooling (educação domiciliar). “Na idade dela, se você está em casa ela entende que você está disponível. É difícil para ela assimilar que estou trabalhando. Mas conseguimos fazer uma dinâmica de agendas para que cuidar dela não interfira no trabalho. Acabo trabalhando em dobro em um dos dias, porque sei que no seguinte, com ela, fica mais complicado”, explica a publicitária.

Para Yvânava, ver o outro por uma tela fria de celular enquanto está em casa na quarentena dificulta a conexão afetiva, mas, hoje, com o número de casos da doença aumentando, as redes sociais são essenciais tanto para o escape como fonte de informação. “Onde moramos recebemos muitas notícias pelas redes sociais, sempre por meio de canais confiáveis, é claro. A videochamada com família e amigos ajuda a aproximar e nos deixa mais confortáveis.”

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Porém, para Luna, ver os amigos é mais difícil, porque muitos dos colegas não têm permissão para acessar o celular. Isso é compensado pelo contato da pequena com a família, que acontece frequentemente. “Luna participa de videochamadas e grava áudios para as primas da mesma idade. Elas têm uma linguagem própria que ninguém entende, mas elas sim”, descreve a mãe.

E até a comemoração do aniversário de Luna teve que ser com a ajuda da tecnologia, em live transmitida pelo Instagram. Na comemoração, além de Yvânava e do pai, Luna contou com a rara presença física das avós (que não são do grupo de risco). Participaram virtualmente parentes e até pessoas que acessaram o perfil de Yvânava na hora, pois o evento não foi divulgado. “Ela adorou, ficou emocionada, mesmo sem entender muito, foi dormir cansada.”

Mas nem tudo é festa. Em Paulista (PE), onde moram, Luna, 2 anos, recebe atividades da escola onde estuda para fazer em casa. “A cada 15 dias, vamos até a escola e pegamos as atividades de coordenação motora, além de um livro com várias atividades”, explica a mãe. Além disso, uma das estratégias de Yvânava para lidar com a ansiedade da filha nesse período foi liberar “a casa toda como papel”. Com lápis, caneta, tinta guache, Luna extravasa a criatividade fazendo da casa uma tela, sem restrições.

Você pode acompanhar o trabalho de Yvânava no Instagram: @musadoproletariado

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Atenção na qualidade das conversas e inclusão do filho nas tarefas domésticas

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Débora Zanelato, 30 anos, jornalista, mãe de Ben, 1 ano e 11 meses, de São Paulo (SP)

A principal mudança na família da jornalista Débora Zanelato, mãe de Ben, 1 ano e 11 meses, foi que o hábito de visitar semanalmente os avós do bebê foi interrompido, pois todos os familiares são do grupo de risco. “Para aplacar a saudade, quinzenalmente vou à casa dos meus pais e sogros. Dentro do carro, de máscara, nos vemos de longe, pois eles ficam dentro do portão. “Percebo minha mãe e minha sogra tristes por não poder pegar o neto no colo”, conta.

O pequeno Ben ainda não vai à escola, entretanto já tem um grupo de amigos desde antes mesmo do nascimento. “Fizemos um pré-natal coletivo e, desde então, mantemos contato com os pais desse grupo. No primeiro aniversário dos bebês nós estávamos juntos e ano passado até fizemos uma festa coletiva, além das individuais, que foi muito bonita”, relembra Débora. Este ano, por conta do isolamento e de estarmos em casa na quarentena, esse contato passou para o meio virtual. “Gravamos vídeos para os aniversários de 2 anos que já passaram ou comemoramos em videochamadas”. Então, para o aniversário de Ben, em junho, Débora deve montar uma festinha simples em casa, com um kit festas, e também terá convidados à distância.

Ao ter conversas com familiares e amigos pelo meio virtual, Débora toma certos cuidados. “Ao mesmo tempo em que não podemos ignorar a pandemia, procuro ter bate-papos que me façam me sentir bem, não apenas uma troca sobre o vírus ou a doença.” A qualidade dessas trocas, segundo ela, pode elevar o bem-estar. “Procuro ter conversas mais leves e, mesmo em momentos difíceis, busco não focar nesse assunto e nem terminar a ligação com ele”, indica. Segundo ela, a palavra-chave do momento é paciência. “Paciência, inclusive, para se nutrir de coisas mais importantes”, afirma.

No trabalho, Débora conseguiu se organizar em turnos diferentes do marido, para que alguém esteja sempre com Ben enquanto eles estão em casa na quarentena. Então, a divisão de tarefas tem dado certo. “As empresas precisam perceber que as crianças existem, não podemos ignorá-las e trabalhar normalmente, no mesmo ritmo. É necessário flexibilidade”, considera a jornalista.

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Por não ter começado a frequentar a escola, para Ben ficou mais fácil a adaptação ao isolamento, pois não havia iniciado a rotina escolar. Débora também encontrou uma forma de criar atividades lúdicas com o filho e encaixá-las na rotina. “Procuro fazer o que ele gosta: cabaninhas, jogos com bolinhas, massinha, montar Lego. Mas sempre procuramos nos perceber e entender nossos próprios limites. Existem momentos em que precisamos descansar ou fazer outras coisas. Então, creio que os filhos precisam também lidar com essa frustração, não dá para brincar sempre”, recomenda.

Além disso, Débora e o marido também aproveitaram esse período para incluir Ben nos cuidados com a casa. “Lavamos louça e estendemos roupa juntos, ele nos ajuda a colocar a roupa para lavar. É uma forma de aproveitar o tempo com ele para fazer essas atividades”, conclui.

Você pode acompanhar o trabalho de Débora no Instagram: @deborazanelato

Veja também: Tarefas para crianças: como os pequenos podem ajudar na rotina familiar (por faixa etária)

Tecnologia para se aproximar dos amigos e importância das comemorações em casa na quarentena

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Ana Beatriz Chacur, 36 anos, jornalista e Marcos Bisi, 40 anos, advogado. Pais de Clara e Helena, 6 anos, moram em São Paulo (SP)

Para a jornalista Ana Beatriz Chacur e o marido, o advogado Marcos Bisi, a falta de rede de apoio em casa na quarentena não impactou o cuidado com as filhas gêmeas, Clara e Helena, de 6 anos, uma vez que os dois sempre dividiram essa tarefa. O que aumentou, porém, foi a saudade dos encontros presenciais devido ao isolamento. “Sentimos falta de encontrar, abraçar, jogar conversa fora, mas por outro lado a tecnologia ajuda muito na aproximação. Sempre fazemos videochamadas e ligamos, algo que tínhamos deixado um pouco de lado devido à correria do dia a dia”, conta Ana Beatriz.

A tecnologia funciona tanto para aproximar o contato com família e amigos, como para conseguir trabalhar remotamente. “Todos tivemos que nos reinventar e certamente sairemos diferentes dessa pandemia. Sentimentos como medo, insegurança são comuns, mas procuramos seguir adiante, fazer planos”, avalia Ana Beatriz.

Como ela sempre trabalhou em casa, conciliar crianças e trabalho no isolamento não foi problema. A estratégia agora são os combinados com as filhas. “Trabalho no período da manhã e quando elas acordam, têm uma rotina de cuidados básicos e, depois, sabem que estão liberadas para a televisão. Com 6 anos já fazem tudo sozinhas, o que facilita muito. À tarde, fico em função delas, com aulas online da escola e propondo novas atividades”, detalha a jornalista. Uma das mudanças é que, agora, os serviços de casa tiveram que ser absorvidos, além do cuidado das filhas. “Para a comida usei como recurso as marmitas congeladas e para a limpeza de casa comprei equipamentos para facilitar o trabalho”, indica.

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Clara e Helena estudam em classes diferentes e, nesse período de quarentena, ligam para os amiguinhos da escola. A mãe conta que esse foi um momento para repensar o acesso delas às tecnologias. “Era muito encanada em liberar tão cedo, mas a pandemia mudou bastante a minha cabeça. Não limito o tempo de uso das chamadas de vídeo, se estão com saudade (e se a mãe do amiguinho pode emprestar o celular naquele momento), deixo que conversem sem interferir. Mas, claro, fico ouvindo tudo pra ficar por dentro dos assuntos”, confessa Ana Beatriz.

Por sorte, os aniversários da família caem no final do ano, então é possível que as comemorações tenham festinhas e convidados presenciais, já que até lá talvez tudo esteja normalizado. “Recentemente minha sobrinha fez aniversário e fizemos uma comemoração por videoconferência e editamos um vídeo, com todas as mensagens que ela recebeu. Assim, ela poderá ter alguma recordação do aniversário e não sentir a distância desse momento”, ressalta a jornalista. Ela considera a comemoração dos aniversários algo importante para as crianças. “Tudo o que pudermos fazer para marcar esse momento já é uma forma de manter todos mais próximos”, conclui.

Você pode acompanhar o trabalho de Ana Beatriz e Marcos no Instagram: @paisconteudo


Tatiana Lazzaroto

Tatiana Lazzarotto é jornalista, escritora e feminista. Atualmente é mestranda em Estudos Culturais na Universidade de São Paulo (USP). É formada em Comunicação Social-Jornalismo e Letras-Português, pela Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro) e especializada em Mídia e Política e Atores Sociais pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Também é Promotora Legal Popular (PLP), formação em direitos das mulheres da União de Mulheres de São Paulo. Natural de Santa Catarina e radicada em São Paulo-SP desde 2011, é apaixonada por plantas e por cachorros, especialmente Gabo e Mercedes. Acredita no poder transformador da educação, das palavras e dos novos olhares.