Mães empreendedoras: conheça desafios e soluções criativas dos pequenos negócios durante a quarentena

O Clube Quindim conversou com Gislayne dos Santos Sousa Abe, fundadora da Minitees, e com Vivian Abukater, sócia do Maternativa, para conheçer os desafios e as soluções criativas do dia a dia, principalmente durante a quarentena, das mães empreendedoras.

Como nasceu a Minitees

Gislayne dos Santos Sousa Abe, criadora da Minitees

Em 2018, a publicitária Gislayne dos Santos Sousa Abe trabalhava numa agência de comunicação e marketing havia 3 anos, foi então que se descobriu grávida de Maria Alice, hoje com 2 anos e 8 meses. Sem contrato formal, ela ofereceu à chefe a possibilidade de adiantar suas tarefas durante a gravidez, para, assim, se dedicar integralmente à bebê por 2 meses (pela CLT, as profissionais têm direito a pelo menos 4 meses de licença-maternidade). Mas, um mês após o nascimento da filha, a agência decidiu desligá-la e, como a publicitária estava no regime de Microempreendedora Individual (MEI), não teve direito a verbas rescisórias como um trabalhador do mercado formal.

Contando com o auxílio-maternidade previsto pelo governo para MEIs, Gislayne, que não tinha poupança para emergências, tomou uma decisão: não voltaria a trabalhar no mundo corporativo. “Já tinha presenciado histórico de humilhações, mães ordenhando no banheiro de empresas, situações desagradáveis que eu não estava disposta a passar, ainda mais no puerpério”, contou.

O marido possuía uma estamparia e Gislayne teve a ideia de criar uma marca de roupas para bebês e crianças, estimulada por uma busca pessoal. “Para fazer o enxoval da minha filha, sentia falta de encontrar peças pretas ou cinzas e modelos sem gênero”, explica. Assim, em março de 2018, de publicitária Gislayne passou a ser empreendedora e nascia a Minitees, uma loja de camisetas estampadas para crianças e mães.

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Maternativa e mães empreendedoras

Vivian Abukater, sócia da Maternativa

Histórias de mães empreendedoras como a de Gislayne são comuns no Brasil. Mulheres empreendem mais depois da chegada dos filhos, não apenas pelas oportunidades encontradas no mercado, mas também por necessidades pessoais, inclusive como alternativa à demissão. De acordo com Vivian Abukater, sócia da Maternativa, uma startup que contribui com as mães no empreendedorismo, 48% das mulheres são demitidas dos seus trabalhos antes de os filhos completarem um ano de idade. “Numa situação de crise, historicamente, as mães são mais impactadas em demissões. O empreendedorismo acaba sendo um caminho para gerar renda para a família, para que as mães aproveitem suas habilidades fora do mercado formal”, confirma.

Um dos pilares da Maternativa é dar visibilidade para o trabalho materno. Mais de 26 mil mulheres fazem parte da comunidade, com 80% de engajamento, segundo dados da startup. Fazem parte pequenas e microempreendedoras e até aquelas que ainda não estão formalizadas. Elas podem aproveitar formações gratuitas, rodas de conversa, além de mostrarem seu trabalho. Gislayne, por exemplo, faz parte do Compre das Mães, uma iniciativa da Maternativa para oferecer aos consumidores finais uma vitrine de negócios geridos por mães empreendedoras.

COVID-19 e impactos no mercado

Por meio das rodas de conversas virtuais, Vivian já percebe o aumento de relatos de demissões durante a pandemia da Covid-19, porém, ainda não é possível mensurar um número de mães desligadas neste período. O que é possível, analisar, por enquanto, é o impacto do isolamento para os negócios chefiados pelas mães da rede.

“Assim que o isolamento foi decretado, o consumo estancou e mulheres perderam capacidade de investir no próprio negócio, inclusive na compra de matéria-prima para continuar trabalhando”, comenta. Serviços como fotografia de eventos, decoração de festas, ou mesmo produções artesanais perceberam ainda mais esse impacto negativo. “Muitas pequenas e médias empresas não têm grande fluxo de caixa, não tem respiro financeiro para momentos de dificuldade”, aponta a sócia da Maternativa.

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Conhecimento para superar o momento de crise

Para Gislayne, com as quedas na demanda da estamparia do marido, sua loja tem sido praticamente a única fonte de renda da família. “Percebi que não poderíamos parar, mas ao mesmo tempo não sabia como vender num momento tão delicado”, lembra. Apesar de já vender on-line, o grande foco do negócio eram feiras presenciais, todas canceladas durante a quarentena. A empreendedora decidiu estudar o que especialistas em consumo digital aconselhavam para a pandemia. “Assisti lives, fiz cursos on-line, tudo para encontrar um caminho. Foquei 100% no digital e, nas redes sociais, procurei me dedicar à geração de conteúdo, não apenas em posts de vendas.”

Gislayne destaca ainda o cuidado redobrado na logística de compra de materiais para produção e envio de peças. “Saímos o mínimo possível de casa e concentramos as tarefas que precisam ser feitas na rua em uma pessoa só. Tivemos que nos adaptar.”

Participar de grupos de mães é outra forma de encontrar apoio e superar este momento. Junto de outras empreendedoras, em maio de 2019, Gislayne lançou o Mama Gang, uma rede de fortalecimento e acolhimento, que conta com 28 empresárias. Na pandemia, quatro dessas mulheres se uniram para criar lives, ações coletivas para alavancar as vendas, como cupons de descontos e sorteios em conjunto. O resultado foi alcance de novos clientes e vendas que possibilitaram manutenção do faturamento neste período.

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Acúmulo de tarefas

Dedicar-se a ações como essa foi possível porque, em casa, Gislayne teve apoio do companheiro, que se deparou com diminuição de demanda no próprio trabalho. “Ele pôde ficar com a Maria Alice e assumir mais tarefas em casa”, enumera. Para a Maternativa, o maior desafio da Covid-19 para as mães empreendedoras está ligado ao acúmulo de funções. Cuidar dos filhos, da casa e supervisionar a educação das crianças nas aulas virtuais são tarefas que acabam sobrecarregando, em geral, as mães.

“Culturalmente, o cuidado é um trabalho concentrado na mulher”, explica Vivian, ressaltando que o aumento da carga de trabalho (o remunerado e o não remunerado), é ainda mais sentido nos lares em que as crianças sejam pequenas e que a mãe seja responsável pelo negócio que gera renda para a família.

Cuidar de si mesma, num contexto em que o tempo é mais escasso, pode ser desafiador. “É importante que as mulheres dialoguem com companheiros(as), ou mesmo com os filhos, com as pessoas que moram com ela. As redes de afeto precisam ajudar na divisão de tarefas da casa”, comenta a sócia do Maternativa.

Só assim, as mães empreendedoras podem se dedicar aos seus negócios e aos seus propósitos. Para Gislayne, trabalhar com o próprio negócio é uma vitória. “Hoje não somos apenas uma marca. Damos vez e voz às mulheres e as empoderamos. A empresa serviu para me ajudar a superar a perda gestacional do meu filho Miguel, antes da Maria Alice, e me fortaleceu para o meu resgate como mãe e como mulher”, relata.

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Jornada da Mãe Empreendedora

Participar de uma comunidade de mães empreendedoras é uma das saídas para vencer as crises trazidas com a pandemia. Na Maternativa, além de um ambiente de formação para as mães cadastradas na rede, a empresa criou a Jornada da Mãe Empreendedora, com lives de especialistas em diversos setores, para pensarem o negócio nesse novo contexto da economia atual: mais sustentável, colaborativa e consciente.

Até 28/07, todas as terças-feiras, às 21h, as mães podem acompanhar um conteúdo criado para elas (confira a programação aqui). Para participar, não é necessário se inscrever previamente, mas é preciso ser mãe e participar do grupo da Maternativa no Facebook. As rodas de conversa também podem ajudar as mães a trocar ideias e oportunidades.


Tatiana Lazzaroto mães empreendedoras

Tatiana Lazzarotto é jornalista, escritora e feminista. Atualmente é mestranda em Estudos Culturais na Universidade de São Paulo (USP). É formada em Comunicação Social-Jornalismo e Letras-Português, pela Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro) e especializada em Mídia e Política e Atores Sociais pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Também é Promotora Legal Popular (PLP), formação em direitos das mulheres da União de Mulheres de São Paulo. Natural de Santa Catarina e radicada em São Paulo-SP desde 2011, é apaixonada por plantas e por cachorros, especialmente Gabo e Mercedes. Acredita no poder transformador da educação, das palavras e dos novos olhares.

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