Os sonhos abrigam universos inimagináveis. Para algumas pessoas, eles podem ser premonitórios; para outras, uma porta para o inconsciente — seja individual ou coletivo — que traz respostas para antigos medos e desejos. Para os mais céticos, são apenas imagens mentais que se sobrepõem livremente em nosso cérebro quando estamos dormindo.
Porém, para diversos povos indígenas do Brasil e do mundo, o sonho é, na verdade, uma tecnologia ancestral que faz parte de um imaginário coletivo que conecta passado, presente e futuro. Em “O sonho de Borum” (Editora Yellowfante), livro de Edson Krenak entregue aos leitores do Clube Quindim em setembro, somos apresentados ao significado do sonho para os povos krenak através da missão que o menino Cruquerré (chamado de Borum pelas crianças da cidade) recebe do pajé da aldeia: simplesmente sonhar. E contar a todos o que sonhou.
“Para os krenak, o sonho, esse mistério humano que tentamos interpretar e compreender, é muito mais fácil de vivenciar coletivamente do que individualmente“, explica Edson Krenak, autor de “O sonho de Borum”, escritor, pesquisador e ativista indígena do povo krenak, mestre em Estudos Literários pela UFSCar, doutorando em Antropologia Jurídica pela Universidade de Viena e pesquisador do Instituto UKA — Casa dos Saberes Ancestrais, em entrevista à Revista Quindim.

Além disso, em uma forma de vida em que a coletividade é um dos principais pilares, o sonho passa a ser compartilhado e compreendido enquanto experiência conjunta. É comum contar para amigos e familiares o que foi sonhado, dividir memórias e medos e, a partir dessa partilha, tomar decisões e entender acontecimentos do cotidiano e da vida.
“Para os povos indígenas, é muito difícil encontrar algo que seja individual. A cultura, os valores morais, os princípios e até mesmo alguns sentimentos e emoções que a gente tem são coletivos, são compartilhados. E, de alguma forma, isso é até institucionalizado. Faz parte da tomada de decisão e de como a gente cuida uns dos outros” — Edson Krenak
o sonho para os krenak
Os krenak, que também se autodenominam borum, são um povo indígena do leste de Minas Gerais, historicamente ligado à região do Rio Doce. A principal Terra Indígena Krenak fica em Resplendor (MG), às margens do rio. Segundo o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 654 pessoas indígenas viviam na Terra Indígena Krenak naquele ano. A língua Krenak pertence ao tronco linguístico Macro-Jê, e o povo sofreu expulsões e diferentes formas de violência ao longo da sua história.
Para os krenak, o sonho não está separado da vida. Ele faz parte de uma relação mais ampla com a ancestralidade, em que passado, presente e futuro não aparecem como tempos isolados: o que foi vivido pelas gerações anteriores continua atravessando o presente, enquanto aquilo que ainda está por vir também pode fazer parte da experiência de agora.
“Qual é o tempo que a gente vive enquanto indígena? Nós não vivemos no passado e nem mesmo no futuro. Nós vivemos um presente que é visitado por muitas coisas do passado. E muitas coisas também do futuro, por que não? Coisas que a gente quer que aconteçam e continuem vivendo no futuro. Então, o sonho é resultado desse tempo que nos visita hoje e das gerações passadas”, pontua Edson.
Como um lugar que atravessa tempos e dimensões, o sonho é, nesse contexto, algo participante da vida, e não apenas devaneios que acontecem durante o sono. Essa relação entre diferentes tempos ajuda a compreender também a jornada de Borum, menino que, na obra de Edson, não consegue se lembrar dos próprios sonhos e recebe do pajé a missão de sonhar e contar aos outros o que viu. Depois de uma experiência com um mico-leão-dourado, ele inicia uma jornada que passa pelo encontro com animais, com o rio e com outras formas de existência.
Mas, nessa perspectiva, o sonho não se restringe à experiência humana. Ao encontrar animais, plantas e o rio, Borum percebe que não está diante de seres completamente separados dele. É uma relação que também aparece na própria cosmovisão krenak, na qual a floresta não funciona apenas como cenário, mas como parte de uma comunidade que inclui múltiplas formas de existência.

Leia também: Você sabia que a Amazônia foi plantada por povos indígenas?
“Através do sonho, isso faz com que ele descubra que o sonho não está nem mesmo somente na comunidade humana, mas também na comunidade mais que humana. Naqueles outros que a gente convencionou chamar de animais”, diz Edson.
Para ele, é justamente nesse sentido que o sonho também pode ser entendido como uma passagem para outros lugares, através de uma experiência capaz de aproximar quem sonha de ancestrais, memórias e histórias que não são acessíveis da mesma maneira no cotidiano.
“O sonho, ele não é somente um tempo. É um lugar. Ele é um lugar onde habitam os ancestrais, onde habita a memória, onde habitam as experiências coletivas, onde habita a contação de histórias. Então, quando você acessa esse tempo e esse lugar, você está se abrindo para as histórias contadas em outros mundos”, declara o autor.
Entre esses mundos estão os dos animais, das plantas e das águas. O rio, que ocupa um lugar central na história de Borum, também tem um significado ancestral para os krenak. “Sonhar com o rio é sonhar realmente com a voz do Watu, a voz mais ancestral dos krenak”, afirma Edson.
O Rio Doce, chamado de Watu pelos krenak, carrega uma grande história de violência ambiental. Em 5 de novembro de 2015, o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), liberou cerca de 45 milhões de metros cúbicos de rejeitos, que atingiram o rio Doce depois de passar pelos rios Gualaxo do Norte e do Carmo. A lama percorreu mais de 600 quilômetros até chegar ao litoral do Espírito Santo e afetou comunidades, ecossistemas e povos indígenas ao longo da bacia. Mais de dez anos depois, o rio continua sendo monitorado e passa por ações de recuperação ambiental, enquanto os impactos do desastre ainda permanecem na bacia.
Por isso, em um cenário em que o coletivo é sempre priorizado, a compreensão do que é o sonho marca também uma diferença em relação às interpretações individuais. Em algumas vertentes da psicanálise, sonhos podem ser analisados a partir de desejos, medos, traumas e outras questões relacionadas à experiência de cada pessoa, que muitas vezes ficam escondidas em camadas do nosso subconsciente. Para Edson, porém, a perspectiva krenak parte de outro lugar: a relação entre o indivíduo e a comunidade da qual ele faz parte. Não se trata de aspirações individuais.
Um outro ponto importante é o tempo em que o sonho é maturado para, depois, ser compartilhado e vivido. Esse intervalo é importante em uma sociedade marcada pela velocidade e pela necessidade de compartilhar tudo rapidamente.
“Quando você quer contar logo, você perde a oportunidade daquela experiência realmente criar raízes em você. E quando chega o momento de você contar, ela já está lá enraizada. É aquela coisa do sonho ser uma semente e ele precisa de tempo para germinar, enraizar e dar os seus frutos”, conclui Edson. Assim, através da contação de histórias que conectam sonhos, vivências e memórias, a identidade de todos é fortalecida, como em uma rede ancestral que passa pela oralidade, presente quando todos estão acordados, mas também quando dormem.
o sonho como conhecimento da origem da vida
Os mbyá-guarani são um subgrupo do povo guarani, presente principalmente nas regiões Sul e Sudeste do Brasil, além de comunidades no Paraguai e na Argentina. Pertencentes à família linguística Tupi-Guarani, mantêm uma forte relação com o território e a mobilidade entre comunidades. Segundo o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 9.373 pessoas se declararam guarani mbya no Brasil.
Entre eles, o sonho também ocupa um lugar importante na formação das pessoas e do coletivo. Segundo Leandro Kuaray Mimbi, um dos autores de “Teko Hypy: a origem do mundo” (Editora Boitempo), os sonhos estão relacionados à espiritualidade, aos ancestrais e a Nhanderu, uma figura divina associada à criação e à origem da vida, além de fazerem parte da própria caminhada de cada pessoa.

“Na cosmovisão mbyá-guarani, o sonho é uma forma de comunicação, orientação e produção de conhecimento, relacionado à espiritualidade, aos ancestrais, a Nhanderu e à caminhada da pessoa. É através dos sonhos que alguns pajés recebem revelações dos nomes para as crianças, por exemplo”, conta Leandro Kuaray Mimbi, escritor e professor mbyá-guarani, graduado em Licenciatura Intercultural Indígena pela Universidade Federal de Minas Gerais e professor de Língua Guarani na Universidade Federal Fluminense (UFF), em entrevista à Revista Quindim.
Essa sabedoria, porém, não é construída de forma isolada. Os significados dos sonhos são compartilhados e compreendidos na conversa com os mais velhos e com aqueles que conhecem o Nhande Reko, o modo próprio de viver mbyá-guarani. Assim, observar, viver e sonhar fazem parte de um mesmo processo de aprendizagem, que também contribui para a formação e para as responsabilidades de cada pessoa dentro da comunidade.
Leia também: Fora do cotidiano: por que é importante ler livros infantis sobre realidades diversas?
A relação com o território também aparece nesse processo: para os mbyá-guarani, os sonhos podem trazer orientações e sinais que ajudam a perceber a si mesmo como parte constituinte de um mesmo cosmo, que não difere humanos dos animais e da natureza.
Em Teko Hypy, as narrativas sobre a origem do mundo também preservam sabedorias ancestrais sobre a vida, os seres e o Nhande Reko. Memória e oralidade se encontram como formas de transmissão entre gerações, mantidas pela escuta. Assim, os sonhos concretizam um encontro entre passado e futuro, como uma tecnologia que mantém viva a história e o que permeia a compreensão de mundo de cada um dos mbyá-guarani.
Leandro também pontua que, para quem não pertence a uma comunidade indígena, conhecer essas perspectivas pode ampliar a própria compreensão sobre o que significa produzir e transmitir conhecimento. Muito além de buscar uma única maneira de interpretar os sonhos, essas experiências mostram que existem outras formas de aprender, baseadas no resgate da nossa própria ancestralidade e na forma com que nos relacionamos com o meio em que vivemos.
Direto do Instagram: 8 livros que apresentam diferentes cosmovisões indígenas
a importância de ampliar nosso olhar para ler o mundo
As experiências krenak e mbyá-guarani nos relembram como diferentes povos constroem suas próprias formas de compreender o mundo. Dentre os povos indígenas, que são tão diversos, existem várias outras maneiras. Essas perspectivas foram transmitidas entre gerações e continuam presentes na maneira como cada comunidade se relaciona com a vida, com o território e com aquilo que não está separado da experiência cotidiana.
Conhecer essas outras formas de pensar ajuda a perceber que a visão de mundo predominante nas sociedades ocidentais também é fruto de uma história. Ambientalista e liderança indígena, o escritor Ailton Krenak chama atenção para essa construção ao questionar uma ideia ocidental de humanidade que coloca as pessoas no centro e estabelece uma separação entre seres humanos e natureza. Mais do que isso, é uma visão que coloca a natureza como um produto a ser consumido e acessado.
Será que, em meio a um condicionamento de vida tão utilitário, nós deixamos de nos conectar até com os nossos próprios sonhos? Como podemos usar respostas tão concretas para explicar o mundo? Para trazer luz a esses questionamentos, de acordo com muitas das obras de Ailton Krenak, o primeiro indígena a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, é preciso recuperar a capacidade de imaginar – e de lembrar – outras formas de existência e de relação com a Terra.
estante quindim
Conheça três livros, entregues à Família Quindim, que trazem cosmovisões indígenas:







A importância do sonho na cosmovisão de povos indígenas
6 livros para fortalecer a autoconfiança das meninas desde cedo
8 livros inspiradores para renovar as esperanças