Criar uma criança nos dias atuais, por mais bonito e transformador que possa ser, carrega em si uma rotina muitas vezes exaustiva. Há um cansaço que é intrínseco à parentalidade, e isso não invalida, de modo algum, a capacidade que um responsável tem de cuidar de seus filhos. Pelo contrário, são as forças — e fraquezas — de pais e mães que trazem o que há de mais íntimo na relação com os filhos.

Esse cansaço não é à toa: escola, trabalho, tarefas domésticas, saúde da família e compromissos sociais se avolumam de tal modo que, muitas vezes, falta tempo para sentar no chão da sala com as crianças e inventar brincadeiras de modo descompromissado. Por isso, ferramentas que facilitam a dinâmica familiar acabam sendo uma opção para mães e pais cansados. E não há de se julgar, afinal a realidade de muitos exige que eles encontrem atalhos para garantir os cuidados com os filhos.

algoritmização da parentalidade
Foto: Canva / Arte: Clube Quindim

É aí que ocorre o fenômeno da algoritmização da parentalidade, ou seja, o uso de mecanismos algorítmicos para exercer, em diferentes proporções, escolhas e atividades que, até então, eram de responsabilidade única de quem cuida dessas crianças.

Na prática, isso aparece em gestos do dia a dia. Pedir para uma ferramenta de inteligência artificial (IA) montar o roteiro do fim de semana, o cardápio do lanche, recorrer a ela para tirar uma dúvida da escola — ou mesmo questões comportamentais da criança —, tentar dar conta de tudo o que o feed das redes sociais sugere ou participar em família de trends de fotos e vídeos que viralizam.

Esses são conteúdos e dicas que não são feitos (ou escolhidos) por seres humanos, e sim por algoritmos, que são, na computação, sequências de instruções lógicas criadas para executar uma tarefa específica. Por exemplo, em uma rede social, uma série de algoritmos entende, a partir dos seus dados, aquilo que é mais relevante de ser mostrado para você, de modo a atender as suas preferências — ou as da plataforma, anunciantes e criadores digitais.

É por isso que muitos responsáveis têm, cada vez mais, dado um passo atrás na hora de se entregar a essas possibilidades. Afinal, é seguro confiar o exercício da parentalidade a mecanismos algorítmicos?

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É PRECISO CAUTELA AO USAR FERRAMENTAS DE IA

Para Rodrigo Nejm, psicólogo social e especialista em educação digital do Instituto Alana, o tema da algoritmização da parentalidade não deve ser tratado de modo alarmante. Ele defende, no entanto, que toda novidade tecnológica exige, antes de mais nada, certo nível de cautela e pensamento crítico.

“Essa é uma boa maneira de lidar com o novo, que é diferente do pânico, da resistência e do desespero.” Um primeiro passo, por exemplo, seria não expor dados sensíveis da família em uma ferramenta de IA, como nome completo, endereço, rotina familiar, fotos de crianças, entre outros.

“Mesmo que você não pague nada, você está usando um produto que tem um interesse comercial por trás. Ela tem critérios que são de venda, tentando te convencer de que o produto dela é o melhor”, alerta. No fim das contas, quando um serviço ou plataforma é de uso gratuito, você e seus dados são, muitas vezes, a moeda de troca.

“Elas não são produtos feitos por pediatras, especialistas em parentalidade ou em desenvolvimento psicológico de crianças e adolescentes. Elas não tiveram base em evidências científicas para esse uso específico. Por mais que ele seja capaz de enganar bem e entregar coisas úteis, não significa que é um instrumento especializado o suficiente para nos dar informação segura para a tomada de algumas decisões (…). Esse esforço que as empresas de IA fazem para que a gente trate elas como humanos é, inclusive, muito perigoso” – Rodrigo Nejm, psicólogo social e especialista em educação digital do Instituto Alana, em entrevista à Revista Quindim.

Você sabe o que seu filho faz na internet_meio. Família acessando computador
Foto: Canva

“Claro, também não é nova essa situação em que os responsáveis transferem a tomada de decisão para terceiros, como a escola e cuidadores pagos”, considera o especialista. Mas há alguns extenuantes. Quando essa recomendação vinha da escola, de um conhecido, ou até mesmo de um site, era possível entender e avaliar quem estava fazendo a indicação. Pode-se ponderar coisas como: ‘Ah, essa escola é mais construtivista, ou então esse portal tem uma editoria que eu gosto.’ “Tem uma falta de transparência, no entanto, nesses mecanismos de inteligência artificial.”

Além disso, essas ferramentas foram projetadas para transmitir uma falsa impressão de respostas certeiras e 100% acuradas. Diferente da opinião alheia, que muitas vezes desconfiamos e buscamos outras fontes, quando perguntamos ou pedimos algo para a IA, fomos educados, nos últimos anos, a aceitar a resposta gerada como suficiente. Mas hoje já entendemos que não é bem assim.

Rodrigo vai além e diz que, mesmo trazendo uma série de itens em uma resposta, há ainda muito mais coisas que a IA deixa de trazer. Essas ferramentas são produtos de outros países (como EUA e China) e portanto não foram montados a partir da cultura e perspectiva brasileira. “Há a invisibilidade, inclusive, de noções culturais de cuidado, infância e educação. Quando pedimos por dicas de parentalidade, é muito possível que ela esconda, por exemplo, inúmeras formas de cuidar de comunidades originárias e afro-brasileiras”, completa.

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como funciona a algoritmização da parentalidade NAS REDES SOCIAIS?

Naturalmente, buscar por recomendações para a criação dos filhos, seja na hora de decidir o que comer, brincar ou que lugares visitar, não é novidade. Antes mesmo da internet, os responsáveis já se guiavam por dicas que recebiam da escola, parentes, babás e até mesmo sugestões que viam na televisão. Com as ferramentas de IA, no entanto, os responsáveis têm a possibilidade de terceirizar a tomada de decisão, ou seja, a capacidade de filtrar o que é o melhor para as crianças.

Para Rodrigo, o mesmo vale ao consumir conteúdos nas redes sociais. Elas nada mais são do que plataformas cujo modelo de negócio depende, sobretudo, do nosso consumo e permanência em seus aplicativos e lucram com quem paga para ser visto.

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Foto: Canva

“Elas não são para conectar as pessoas, muito menos para a aprendizagem. São plataformas de venda de espaço digital de publicidade”, relembra Rodrigo. Por isso, ao fazer a curadoria de conteúdos voltados para a parentalidade, é importante ter isso em mente, tendo um olhar crítico sobre o que está sendo consumido. Em vez de seguir apenas o que o algoritmo sugere, busque dicas em perfis em que você confia, como os de especialistas e instituições com trabalho reconhecido na área.

Ao publicar e reproduzir conteúdos com as crianças, é importante pensar com cautela: você tem controle de quem irá ver? O que isso contribui para o desenvolvimento e lazer de seus filhos? “Há riscos de entrar em uma lógica de competição de quem tem a família mais feliz, ou fez o passeio mais divertido, e isso não é nada saudável, né?”, comenta.

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A PREOCUPAÇÃO NÃO É SÓ DAS FAMÍLIAS!

Rodrigo finaliza pontuando algo importante sobre o tema da algoritmização da parentalidade: o principal responsável pelo modo que essas plataformas influenciam na parentalidade não deve ser apenas o tutor da criança, e sim o Estado. “A educação midiática das famílias nunca vai ser suficiente se não vier junto de uma regulação consistente dos estados democráticos”, diz.

O especialista traz uma metáfora que ilustra muito bem o quão absurda pode ser a liberdade que essas big techs têm atualmente. O simples fato de um consumidor saber que ele não deve comer alimentos venenosos não é o suficiente. As fábricas de produtos alimentícios devem ser proibidas de vender comidas que tenham veneno em seus componentes, caso contrário, haverá mortes.

Da mesma maneira, não basta que as pessoas entendam qual a maneira sadia de usar as redes sociais e as ferramentas de IA. O Estado deve regulá-las para que não entreguem produtos que sejam nocivos à população. “O ECA Digital, por exemplo, é uma grande conquista. Ele não é só para as autoridades e especialistas. Ele é um aliado para todas as famílias brasileiras, das analfabetas às mais instruídas, e ajuda a termos ambientes digitais mais seguros para as nossas crianças”, finaliza.

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