Confira a seleção especial de poemas de Manoel de Barros para crianças que a Quindim preparou.

Em homenagem a Manoel de Barros, o nosso clube de assinatura de livros infantis separou 9 poemas infantis do escritor para que as crianças conheçam mais sobre este brilhante autor brasileiro e se encantem com os versos do poeta.

Manoel de Barros: o poeta das infâncias

Poemas de Manoel de Barros para crianças amarem poesia

As coisas que não têm nome são mais pronunciadas por crianças

Manoel de Barros

Um pouco sobre o escritor

Dessa vez, a nossa edição do “petisco poético” contará com poemas de Manoel de Barros. Escritor reconhecido pelos seus escritos que recriam o universo infantil de maneira tão sensível e delicada. 

Conheça um pouco mais sobre o autor que vai cativar as crianças com as palavras, ritmos e rimas que podemos encontrar em seus versos.

O autor cuiabano passou a infância no Pantanal e produziu uma obra marcada pela simplicidade e referências intensas à natureza e à observação dos acontecimentos singelos da vida. 

Em seus versos, conseguimos reencontrar o sentimento do próprio autor diante dos acontecimentos que o cercavam enquanto menino. O trabalho com as palavras nos transporta em direção à calmaria de um estilo de vida despreocupado, curioso e brincante, tão característicos da infância. 

Por que ler poemas para as crianças?

Poemas de Manoel de Barros para crianças

Saiba quais são os benefícios desse gênero literário na infância e por que você deve incentivar a leitura de poesias pelos pequenos.

Criar novas visões literárias

Muito se engana quem pensa que poesia não é coisa de criança

A leitura de poemas é uma maneira de apresentar novas perspectivas de literatura aos pequenos, mostrando outros jeitos de combinar palavras. 

Ao escutar a musicalidade da poesia, escutar novas palavras (por vezes palavras criadas para o poema), a criança cria uma relação com um universo de liberdade criativa: sem limitações da gramática, cria-se a possibilidade de várias explorações com as palavras, explorando as semelhanças e diferenças sonoras entre elas.

Potencializar o processo de alfabetização

Poemas de Manoel de Barros e por que ler poesia para crianças

A leitura infantil de poemas agregará em um processo de alfabetização infantil mais completo e saudável.

A poesia instiga a audição da criança, proporciona a criação de relações de sentido e conteúdo entre as palavras, o que impacta no desenvolvimento da expressão pessoal e linguística.

Segundo especialistas da infância, o contato com obras de poesia suscita momentos de prazer e descontração, essenciais às crianças. Por isso, nós sempre nos preocupamos com uma curadoria poética com livros de poemas para crianças que elas vão amar!

Fique agora com a nossa seleção super especial de 9 poemas de Manoel de Barros para crianças:


1. Borboletas

Poemas Borboletas de Manoel de Barros

O privilégio insetal de ser uma borboleta me atraiu.

Por certo eu iria ter uma visão diferente dos homens e das coisas.

Eu imaginava que o mundo visto de uma borboleta seria, com certeza,

um mundo livre aos poemas.

Daquele ponto de vista:

Vi que as árvores são mais competentes em auroras do que os homens.

Vi que as tardes são mais aproveitadas pelas garças do que pelos homens.

Vi que as águas têm mais qualidade para a paz do que os homens.

Vi que as andorinhas sabem mais das chuvas do que os cientistas.

Poderia narrar muitas coisas ainda que pude ver do ponto de vista de

uma borboleta.

Ali até o meu fascínio era azul.


2. Um bem-te-vi

O leve e macio

raio de sol

se põe no rio.

Faz arrebol…

Da árvore evola

amarelo, do alto

bem-te-vi-cartola

e, de um salto

pousa envergado

no bebedouro

a banhar seu louro

pelo enramado…

De arrepio, na cerca

já se abriu, e seca.


3. Bernardo é quase uma árvore

Poemas de Manoel de Barros para crianças e jovens

Bernardo é quase uma árvore

Silêncio dele é tão alto que os passarinhos ouvem

de longe

E vêm pousar em seu ombro.

Seu olho renova as tardes.

Guarda num velho baú seus instrumentos de trabalho;

1 abridor de amanhecer

1 prego que farfalha

1 encolhedor de rios – e

1 esticador de horizontes.

(Bernardo consegue esticar o horizonte usando três

Fios de teias de aranha. A coisa fica bem esticada.)

Bernardo desregula a natureza:

Seu olho aumenta o poente.

(Pode um homem enriquecer a natureza com a sua

Incompletude?)


4. O fazedor de amanhecer

Sou leso em tratagens com máquina.

Tenho desapetite para inventar coisas prestáveis.

Em toda a minha vida só engenhei

3 máquinas

Como sejam:

Uma pequena manivela para pegar no sono.

Um fazedor de amanhecer

para usamentos de poetas

E um platinado de mandioca para o

fordeco de meu irmão.

Cheguei de ganhar um prêmio das indústrias

automobilísticas pelo Platinado de Mandioca.

Fui aclamado de idiota pela maioria

das autoridades na entrega do prêmio.

Pelo que fiquei um tanto soberbo.

E a glória entronizou-se para sempre

em minha existência.


5. Deus disse

Deus disse: Vou ajeitar a você um dom:

Vou pertencer você para uma árvore.

E pertenceu-me.

Escuto o perfume dos rios.

Sei que a voz das águas tem sotaque azul.

Sei botar cílio nos silêncios.

Para encontrar o azul eu uso pássaros.

Só não desejo cair em sensatez.

Não quero a boa razão das coisas.

Quero o feitiço das palavras.


6. Exercícios de ser criança

No aeroporto o menino perguntou:

-E se o avião tropicar num passarinho?

O pai ficou torto e não respondeu.

O menino perguntou de novo:

-E se o avião tropicar num passarinho triste?

A mãe teve ternuras e pensou:

Será que os absurdos não são as maiores virtudes da poesia?

Será que os despropósitos não são mais carregados de poesia do que o bom senso?

Ao sair do sufoco o pai refletiu:

Com certeza, a liberdade e a poesia a gente aprende com as crianças.

E ficou sendo.


7. A menina avoada

Foi na fazenda de meu pai antigamente

Eu teria dois anos; meu irmão, nove.

Meu irmão pregava no caixote

duas rodas de lata de goiabada.

A gente ia viajar.

As rodas ficavam cambaias debaixo do caixote:

Uma olhava para a outra.

Na hora de caminhar

as rodas se abriam para o lado de fora.

De forma que o carro se arrastava no chão.

Eu ia pousada dentro do caixote

com as perninhas encolhidas.

Imitava estar viajando.

Meu irmão puxava o caixote

por uma corda de embira.

Mas o carro era diz-que puxado por dois bois.

Eu comandava os bois:

– Puxa, Maravilha!

– Avança, Redomão!

Meu irmão falava

que eu tomasse cuidado

porque Redomão era coiceiro.

As cigarras derretiam a tarde com seus cantos.

Meu irmão desejava alcançar logo a cidade –

Porque ele tinha uma namorada lá.

A namorada do meu irmão dava febre no corpo dele.

Isso ele contava.

No caminho, antes, a gente precisava

de atravessar um rio inventado.

Na travessia o carro afundou

e os bois morreram afogados.

Eu não morri porque o rio era inventado.

Sempre a gente só chegava no fim do quintal

E meu irmão nunca via a namorada dele –

Que diz-que dava febre em seu corpo.


8. Tratado geral das grandezas do ínfimo

A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.

Meu fado é o de não saber quase tudo.

Sobre o nada eu tenho profundidades.

Não tenho conexões com a realidade.

Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.

Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).

Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.

Fiquei emocionado.

Sou fraco para elogio.


9. Mundo Pequeno I

O mundo meu é pequeno, Senhor.

Tem um rio e um pouco de árvores.

Nossa casa foi feita de costas para o rio.

Formigas recortam roseiras da avó.

Nos fundos do quintal há um menino e suas latas maravilhosas.

Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas com aves.

Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco,

os besouros pensam que estão no incêndio.

Quando o rio está começando um peixe,

Ele me coisa.

Ele me rã.

Ele me árvore.

De tarde um velho tocará sua flauta para inverter

os ocasos.

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