Todas as manhãs, ao abrir os olhos, sair da cama e iniciar um novo dia, as crianças partem rumo a uma jornada de descobertas. Curiosas por natureza e experimentando primeiras vezes nos mais variados contextos, elas desde sempre apresentam comportamentos que têm tudo a ver com a lógica da investigação. Viver a infância com incentivos para desenvolver o pensamento investigativo e lógico — partir de uma dúvida, observar, comparar fatos e dados, formular hipóteses, argumentar e validar uma descoberta — traz benefícios para a vida das crianças e para seu desenvolvimento na juventude e na fase adulta.

A interação com o meio ao redor, tanto o físico quanto os meios social e cultural, é o que começa a plantar em cada indivíduo a semente da busca por entender o mundo e, por consequência, investigá-lo. “A criança não precisa ser ensinada a ser curiosa. Desde bebê, ela demonstra uma forte disposição para compreender o mundo. Ela observa, experimenta, repete uma ação para perceber o que acontece; ela compara, estranha aquilo que não compreende e busca explicações”, conta Monique Voltarelli, que é pedagoga e professora doutora da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (UnB).

A partir desta natureza do que é ser criança, o incentivo ao pensamento lógico da investigação pode e deve ocorrer. Os caminhos são variados e a literatura para as infâncias também se faz presente. Histórias como as do livro “Detetives de pelúcia” (Andréa Del Fuego, Escarlate, 2026) podem colaborar para isso: na obra, as cachorrinhas Margô e Dominique precisam desvendar um clássico mistério de “quem matou” — neste caso, as vítimas são animais do sítio onde elas vivem. Para tal, partem para a prática investigativa: procuram por informações, conversam com os bichos do local, comparam dados, levantam hipóteses… Esse processo lógico de uma investigação ocorre também nas mais diversas buscas e descobertas das infâncias.

pensamento investigativo
Imagem do livro “Detetives de pelúcia” de Andréa Del Fuelgo e Kaká Leal (Escarlate) | Foto: Samuel Gregory

“Para além dos fatores biológicos, a formação de cada sujeito também acontece a partir de suas experiências psicológicas e sociais, nas relações que faz com o mundo. Poder questionar esse mundo é também poder colocar uma parte de si na sua relação com ele”, diz Giovana Bruno da Silva, psicóloga clínica, psicanalista e neuropsicóloga. “Assim, quando a criança encontra espaço para suas dúvidas e questionamentos, ela tem a possibilidade de se tornar, ao longo da vida, um sujeito questionador e crítico, que não fica refém apenas daquilo que lhe é passado pelo outro”, continua.

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“por que isso? por que aquilo?”


O poder questionador da natureza humana não demora a se revelar nos primeiros anos de vida, com as mais diversas perguntas que uma criança é capaz de formular enquanto se desenvolve. Em todos os “por quês?” da infância moram valiosas oportunidades de mostrar aos pequenos o valor de perguntar sobre aquilo o que se quer saber, iniciando uma investigação, ao invés de simplesmente supor algo.

“Quando uma criança pergunta por quê, ela não está simplesmente esperando uma resposta pronta. Muitas vezes, ela está tentando construir uma explicação para algo que a inquietou. Ela quer compreender, quer estabelecer relações, quer encontrar sentidos. E é justamente aí que aparece o pensamento investigativo”, conta Monique Voltarelli, que continua: “O que nós, adultos, precisamos fazer é não interromper esse movimento e criar condições para que ele possa se ampliar”.

Guardadas as devidas proporções de contexto, o processo científico de investigação seguido profissionalmente por adultos traça um paralelo com as possibilidades de entender e descobrir o mundo como na infância. Ao observar algo e ter uma dúvida, levantar hipóteses sobre o que quer saber, buscar informações, comparar ideias e possibilidades, testar soluções e até rever o que pensava antes de todo esse processo, a criança vive uma investigação pautada pelo pensamento lógico da busca e descoberta.

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Tudo isso pode ocorrer nas situações mais cotidianas, como o simples observar da natureza. Entender por que as plantas crescem ou como os alimentos surgem, de que maneira se formam as sombras, como o Sol desponta no horizonte todas as manhãs, para onde as formigas estão andando… Durante a infância, investigar é também compreender como a vida acontece e como funciona o ambiente que habitamos. 

Em meio a isso, as brincadeiras são como um laboratório próprio dessa época da vida. “Brincar é a forma mais potente de investigação das crianças, porque o brincar, para elas, é um modo de ser e estar no mundo. É por meio da brincadeira que a criança experimenta possibilidades, cria situações, testa ideias, inventa regras, modifica o que está fazendo e observa o efeito de suas ações”, pontua Monique, que também é líder do Grupo de Estudos e Pesquisa sobre os Estudos Sociais da Infância (GEPESI/UnB), pesquisadora do Grupo de Estudos e Pesquisa Sociologia da Infância e Educação Infantil (GEPSI) da Faculdade de Educação da USP e co-diretora do Childism Institute.

“Imagine uma criança construindo uma casa com blocos: ela observa quando a estrutura cai, experimenta outro material, modifica a forma como organizou as peças, tenta novamente. Ou quando inventa uma brincadeira com outras crianças: elas criam uma regra, percebem que não está funcionando, discutem, modificam e continuam brincando. Tudo isso envolve investigação”, relata Voltarelli.

Diante dessas vivências, seja no dia a dia, nas relações com a natureza e o ambiente ou nas brincadeiras, as crianças também produzem teorias. “Às vezes, usamos a palavra ‘teoria’ como se ela pertencesse exclusivamente ao universo científico adulto. Mas as crianças também elaboram explicações para compreender o mundo. Elas criam interpretações, estabelecem relações e constroem sentidos para aquilo que vivem”, afirma a especialista, que completa: “Essas teorias não devem ser tratadas simplesmente como certas ou erradas. Elas nos mostram como a criança está pensando e como podem se transformar à medida que as novas experiências vão acontecendo”.

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como incentivar o pensamento investigativo na infância?

Um dos caminhos para estimular que as crianças tenham pensamento lógico e façam investigações para solucionar suas dúvidas é valorizar os momentos em que os pequenos trazem questionamentos com seus famosos — e, às vezes, temidos — “por quês?”. A maneira como o adulto recebe e encaminha as perguntas é essencial nessa jornada. Se a resposta para as dúvidas sempre girar em torno de uma esquiva (por exemplo: “você ainda é pequeno para entender”), a criança, aos poucos, pode assimilar que fazer perguntas não tem validade ou não é importante. 

A neuropsicóloga Giovana alerta para a postura dos adultos nesse contexto: “É importante que os adultos reconheçam quando não sabem algo ou mudam de opinião diante de uma nova informação. Afinal, a criança também se vê através do olhar do adulto. Se as perguntas delas são sempre ignoradas ou desvalorizadas, que lugar elas vão dar para aquilo que pensam?”

“Mais do que incentivar perguntas, precisamos estar dispostos a escutá-las e, inclusive, a sermos questionados” — Giovana Bruno da Silva, psicóloga clínica, psicanalista e neuropsicóloga

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Por outro lado, “imagine uma criança que pergunta e encontra alguém que diz ‘eu não sei, mas o que você acha? Como a gente poderia descobrir?’. A experiência é completamente diferente. Neste caso, o adulto não está simplesmente fornecendo uma resposta. Ele está criando condições para que a criança continue pensando. Em todo esse processo, o adulto tem um papel muito importante. Ele não precisa ser a pessoa com a resposta pronta e também não deve simplesmente dizer à criança se aquilo que ela pensou está correto ou errado. É preciso ampliar a investigação a partir da própria hipótese da criança”, explica Monique.

Pensamento investigativo
Foto: Canva

Juntos, adultos e crianças podem trilhar caminhos investigativos que unem diversão e descobertas rumo ao estímulo ao pensamento lógico e crítico para os mais variados campos da vida. Monique Voltarelli apresenta sugestões de como reagir diante das perguntas feitas pelas crianças, estimulando o processo de investigação:

• Por que você pensa assim?
• Como que nós poderíamos descobrir?
• O que poderíamos fazer para verificar?
• Será que existe outra possibilidade?
• O que aconteceria se fizéssemos de outro jeito?

“Essas perguntas fazem com que as crianças retomem seu pensamento, confrontem suas hipóteses com novas experiências e busquem informações para construir outras explicações”, conta a especialista. “O adulto não deixa de ensinar: ele passa a provocar, ampliar, sustentar os processos investigativos das crianças, sem substituir o pensamento delas pelo seu próprio. Isso também não significa deixar as crianças sozinhas diante da investigação; ao contrário, o adulto tem um papel muito importante de mediação. Ele observa, escuta, oferece materiais, apresenta novas informações e diferentes experiências, cria e oportuniza situações que permitem à criança aprofundar aquilo que está sendo investigado”, segue ela. 

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confiança e autonomia

Os benefícios de desenvolver o pensamento lógico investigativo desde a infância são variados: percorrem pontos como atenção, planejamento e capacidade de lidar com mudanças — por exemplo, descobrir que uma hipótese não se comprova como algo válido.

No entanto, para a neuropsicóloga Giovana, os benefícios vão bem além: “Quando a criança percebe que pode questionar, buscar explicações e reconsiderar suas ideias, também constrói confiança em sua própria capacidade de pensar. Ela aprende que não saber ou estar enganada, por exemplo, não significa ser incapaz, e que o conhecimento pode ser construído e transformado. São experiências que podem contribuir para a formação de adultos com uma postura mais crítica e menos passiva diante das informações que recebem”, analisa. 

Monique ressalta que esse processo fortalece a autonomia intelectual: “A criança também aprende que pode ter uma hipótese diferente, discordar, ouvir outras perspectivas, modificar suas próprias ideias quando encontra novos elementos ou quando discute com outras pessoas. Poder pensar diferente também é uma relação muito importante com o conhecimento. É compreender que aquilo que sabemos pode ser investigado, questionado e ampliado. Isso está profundamente relacionado com o pensamento crítico”.

Formiguinhas
Imagem do livro “Formiguinhas” de PriWi e Natalia Borges Polesso (FTD) | Foto: Rodrigo Frazão

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A especialista continua: “É muito importante que as crianças tenham sua autonomia, liberdade e confiança nos adultos, de saberem que suas opiniões serão valorizadas para seguir perguntando, investigando os pontos e as temáticas sobre as quais elas têm curiosidade em saber mais”.

O papel das famílias nesse processo é essencial, pois as primeiras investigações da vida de uma criança acontecem justamente no dia a dia, em meio ao cotidiano com os pais, irmãos e outras pessoas de convivência rotineira. A vida que já ocorre todos os dias está repleta de oportunidades para que os familiares incentivem as crianças em seu pensamento lógico investigativo.

“É essencial criar um ambiente em que as perguntas sejam bem-vindas. […] Uma das coisas mais importantes que a família pode comunicar é: ‘Eu quero saber o que você pensa’. Quando uma criança percebe que suas perguntas, ideias, hipóteses e descobertas são levadas a sério, ela compreende que sua voz tem valor. Isso ultrapassa a curiosidade sobre um determinado assunto. Estamos falando em construir uma relação com o conhecimento com base no desejo de compreender, na possibilidade de perguntar e na confiança para buscar respostas”, reflete Monique Voltarelli.

“Por isso, talvez uma das maiores contribuições que nós podemos oferecer às crianças seja simplesmente não ter pressa de encerrar sua curiosidade. [Em vez de oferecer] imediatamente uma resposta, sustentar a pergunta, ter disponibilidade para o encontro com a criança, permitir que ela pense, procure, experimente. E descubra que ela também é capaz de construir caminhos para conhecer o mundo”, finaliza a professora.

estante quindim

Conheça três livros, já entregues à Família Quindim, que incentivam o pensamento investigativo das crianças:

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Cadê o sono da Stella?, de Anete Melece (Boitatá)
Formiguinhas (escritora Natalia Borges Polesso, ilustradora PriWi, editora FTD)
Formiguinhas, de PriWi e Natalia Borges Polesso (FTD)