Para a criança, o brincar é a própria vida. A importância dele é tamanha que equivale (ou até ultrapassa) à atenção que adultos dão a seus empregos. E isso não significa que, por ser importante, toda brincadeira deve cumprir com determinada função, ou ser previamente pensada para enriquecer o processo de desenvolvimento infantil. Para a psicopedagoga Célia Marques, o brincar é livre e já basta como experiência de vida. “Ele é fundante, cria o alicerce para que essa criança desenvolva as suas capacidades ao longo da vida e isso permaneça. A criança vive e constrói a sua vida por meio desse brincar”, diz.
Isso não impede, no entanto, que novas habilidades sejam construídas por meio das brincadeiras. Muito pelo contrário. Em entrevista à Revista Quindim, o terapeuta ocupacional (T.O.) Rafael Carvalho diz que o trabalho dos T.O.s com crianças é justamente o de acessá-las por meio das brincadeiras, trabalhando assim o desenvolvimento e reabilitação infantil. E uma das principais habilidades possíveis de se desenvolver por meio do brincar é a autonomia.
No desenvolvimento infantil, autonomia não é sinônimo de independência, nem obediência. Para o psicólogo Jean Piaget, uma criança autônoma não é a que apenas cumpre a regra, é a que entende por que a regra existe e participa de sua construção. E o lugar onde ele foi observar isso foi justamente nos jogos infantis, uma vez que as crianças podem elaborar, por conta própria, as regras de uma brincadeira.
Autonomia é a criança criar identidade e se perceber no mundo: perceber que ela age no mundo e que, logo, ela também faz parte dele — Célia Marques
Por isso, a revista Quindim conversou com o Rafael e a Natalia Maltez, também terapeuta ocupacional, para montar, a partir da curadoria e embasamento técnico deles, uma lista de 11 brincadeiras que incentivam o desenvolvimento da autonomia em diferentes faixas etárias.
conheça brincadeiras que incentivam a autonomia:
1. até onde você alcança?
- Faixa etária: 0 a 1 ano
Um dos primeiros passos para o desenvolvimento da autonomia dos bebês é em relação ao próprio corpo: descobrir suas potencialidades e perceber que é possível controlá-lo. E há inúmeras maneiras de incentivar isso.
Uma delas é por meio dessa brincadeira simples, em que você pode usar um brinquedo para desafiar pequenas distâncias entre o bebê e o objeto. Desse modo, ele começa a buscar diferentes alternativas para resolver problemas como rolar, se arrastar e engatinhar.

“A tendência do adulto é antecipar soluções para a criança, não deixar que ela tente resolver o problema que cabe ali para a faixa etária dela, né?”, comenta Natalia. “Então, cabe ao adulto oferecer segurança, materiais e pequenas pistas, mas permitindo que a criança tente, erre e tente novamente.”
2. me imita
- Faixa etária: 1 a 2 anos
Jogos de imitação são uma boa maneira para apresentar ações do cotidiano de uma forma segura e divertida. Para Lev Vigotski, psicólogo russo do século XX, o imitar das crianças não é só copiar: é ensaiar hoje, com ajuda, o que ela logo fará sozinha. Ao brincar, a criança age acima do comportamento habitual da própria idade.
Por isso, provoque o bebê a te imitar em diferentes contextos: fazendo uma ligação, comendo, dançando. Tudo é válido! Aos poucos, a criança começa a perceber que ela pode tentar, fazer algumas escolhas e até participar mais ativamente da própria rotina.
3. lava, corta, tempera e cozinha
- Faixa etária: 2 a 5 anos
Com o tempo, as brincadeiras vão ganhando novas camadas. Aqui a ideia é instigar as crianças a perceberem como as atividades do dia a dia têm etapas. Ao brincar de comidinha, por exemplo, o Rafael sugere indagar a criança cada vez mais: ‘Ficou meio cru, você cozinhou?’ ou ‘Como podemos tirar a sujeira?’

O filófo francês Merleau-Ponty levanta o questionamento de que a criança não brinca para mostrar o que sabe ou não fazer.
A criança brinca num movimento de relacionar-se com o outro, com o mundo, consigo mesma. Se ela pega uma caixa e a transforma em uma casa, essa já é uma experiência vivida por ela — não é um ensaio de uma casa futura, é uma casa construída a partir do que ela já viveu. Ela já está no mundo e já experimentou, em alguma dimensão, morar em uma casa” — Célia Marques
4. corrida maluca
- Faixa etária: 2 a 7 anos
Circuitos, obstáculos e outras brincadeiras que exploram o espaço são bem bacanas para a criança planejar os movimentos necessários para circular com mais segurança pelo ambiente. “A criança aprende a escolher, planejar e buscar soluções, habilidades fundamentais para a autonomia”, explica Natalia.
Uma maneira divertida de explorar essas movimentações é por meio da corrida maluca. Monte uma pista de obstáculos para que a criança percorra por eles: podem ser bambolês no chão, cordas, cabos de vassoura, bolas e o que mais encontrar. A criatividade não tem limites! Crie regras para esse circuito, mas não diga às crianças como contorná-las. Por exemplo, ao invés de dizer para se equilibrarem sobre uma fita adesiva esticada, diga apenas que, nesse trecho, o chão é lava.

“Uma brincadeira nada mais é do que momentos de repetição, de desafio, onde aquela criança vai saber lidar com as adversidades”, comenta Rafael.
5. passeio da vez
- Faixa etária: 3 a 7 anos
Quando a criança visita um lugar novo, como a sala do dentista, mercado, feira, hospital ou museu, ela descobre um novo mundo e, junto, conhece quem ela é dentro daquele espaço. Ao observar esse novo universo, ela vê novas possibilidades de ser e começa a entender que ela também pode, por exemplo, apalpar uma fruta para checar se está macia. Por isso, uma brincadeira legal de se fazer é simular os lugares que a criança visitou na semana.
Depois de ir a um consultório médico, que tal brincar dela ser a doutora? Ou então depois de acompanhar as compras do mês, vamos brincar de supermercado? E se, após visitar um museu, convidar a criança a montar a própria exposição para a família?

“Essas brincadeiras permitem que a criança faça escolhas, organize as pequenas sequências do dia a dia e experimente participar simbolicamente do cotidiano, da rotina dela”, diz Natalia.
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6. duvido que sua cabana…
- Faixa etária: 5 a 10 anos
A brincadeira de cabaninha, presente em muitas infâncias, proporciona às crianças muitas oportunidades para que elas pratiquem a autonomia. Mas é possível incrementá-la! Convide as crianças a montarem uma cabaninha na sala com lençóis, almofadas e o que mais for seguro e possível. Ao finalizar, provoque-as com uma série de situações inusitadas, para que elas adaptem a cabaninha de acordo com o desafio proposto:
- “Duvido que sua cabana flutue no mar.”
- “Duvido que sua cabana dobre de tamanho.”
- “Duvido que sua cabana tenha um chão de nuvens.”

“E, nesses desafios, é legal não passar dicas de como fazer, né? É bom deixar a criança chegar nas suas respostas”, comenta Rafael.
7. isso não é…
- Faixa etária: 7 a 10 anos
Essa é uma brincadeira de roda que convida as crianças a investigarem objetos e pensar em funções inusitadas para eles. Pegue algo que esteja próximo de vocês e comece o desafio: “Isso não é um lápis, isso é o quê?”. O próximo da roda deve pegar o objeto e falar o que aquele objeto é, mostrando uma nova função para ele, por exemplo: “Isso é uma baqueta de bateria!” E assim segue: a próxima pessoa irá dizer: “Isso não é uma baqueta, isso é uma miniflauta”; “Isso não é uma miniflauta, isso é uma limusine sem rodas”…
“Eu acredito no processo mais do que onde a gente vai chegar. O processo, para mim, é muito mais importante”, diz Rafael.
8. caça ao tesouro reverso
- Faixa etária: 7 a 12 anos
Caça ao tesouro é outro jogo muito legal para que as crianças se sintam desafiadas a resolver o mistério, exercitando a mente e intuição. Mas é possível ir além. Para crianças que já tenham brincado de um caça ao tesouro antes, vale propor delas montarem um novo jogo, dessa vez para os adultos resolverem.
Deixe que elas escondam pistas, pensem em enigmas e formulem toda a sequência da brincadeira. “Quando a criança escolhe planejar, seguir etapas e resolver pequenos desafios, ela desenvolve habilidades muito importantes para participar da rotina com mais autonomia”, acrescenta Natalia.
9. inventaria
- Faixa etária: 8 a 12 anos
Reúna materiais recicláveis, bugigangas, itens que já não usa mais e proponha à criança uma fábrica de inventarias. Pegue cola, tesoura, tinta, fita adesiva e todos os materiais que possam ajudar na transformação desses objetos e deixe a imaginação rolar solta. É possível fazer novos brinquedos, itens de decoração ou qualquer outro objeto que a criança pensar.
“Uma crítica que tenho em relação a brinquedos que vem cheios de estímulos é que isso, às vezes, poda o processo imaginativo da criança”, comenta Rafael. “Uma coisa que eu gosto muito é criar cenários que possibilitem o brincar livre.”
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10. faça sua festa
- Faixa etária: 8 a 12 anos
Que tal ajudar a criança a planejar um pequeno evento com os amigos ou família? Pode ser um piquenique, uma festa ou até uma noite dos pijamas. A ideia é deixar a organização nas mãos da criança e ir auxiliando-a em cada etapa, garantindo que ela não se esqueça de nada importante.

Ela pode produzir os convites, decidir a programação e o que cada convidado deve levar, concluindo as ações com cada vez menos ajuda de um adulto. “Assim ela vai começar a praticar escolhas e responsabilidade dentro de uma experiência que é prazerosa ali para ela”, completa Natalia.
11. monte sua pizza
- Faixa etária: 8 a 12 anos
Na mesma linha da brincadeira anterior, é legal criar, de tempos em tempos, a tradição de uma noite temática como “Monte sua pizza”. Os adultos podem preparar a massa de minipizzas e convidar as crianças a montarem seus próprios recheios a partir de ingredientes pré-selecionados com a supervisão de responsáveis. A cada fornada, a criança vai entendendo quais misturas funcionam e quais ela não gosta tanto.
estante quindim
Conheça três livros, já entregues pelo Clube Quindim, que também propõem brincadeiras para fazer com as crianças:








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