Dividir um brinquedo, esperar a vez de falar, perceber quando alguém ficou de fora de uma brincadeira ou questionar por que algumas pessoas têm mais do que outras: o senso de justiça começa a ser construído muito antes das grandes discussões sobre política e sociedade. Na infância, experiências do dia a dia ajudam crianças a desenvolver noções de empatia, coletividade e responsabilidade com o outro — cada uma à sua maneira e dentro do que consegue compreender em cada fase da vida. Mais do que ensinar o que é “certo” e “errado”, especialistas apontam que estimular a escuta, a participação e a autonomia de pensamento pode ajudar crianças a se sentirem parte ativa do mundo ao redor.
A teoria do desenvolvimento moral
Segundo o psicólogo suíço Jean Piaget, reconhecido por criar teorias importantes a respeito do desenvolvimento cognitivo infantil, nos primeiros anos de vida o ser humano passa por três etapas em seu desenvolvimento moral: anomia, heteronomia e autonomia.
A primeira fase é quando há a ausência de noções de regras ou moralidade: a criança age sobretudo por impulsos motores e necessidades básicas. Por volta dos cinco anos, ela passa então para o estado de heteronomia, em que ela é capaz de compreender as regras de um modo maniqueísta — ou seja, o certo é sempre certo e o errado, sempre errado. Por fim, os indivíduos alcançam a autonomia moral, quando conseguem ter um senso crítico já mais desenvolvido, capaz de enxergar as nuances morais e sociais para além das regras.
É importante, no entanto, não fazer uma interpretação errônea da teoria de Piaget e concluir que apenas a partir da autonomia é que a criança é capaz de ter um senso de justiça e equidade. Para cada faixa etária, há maneiras diferentes de se trabalhar estas questões para contribuir de modo saudável ao desenvolvimento crítico dela.
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As diferentes faixas etárias
É o que diz Cassia Moraes Longo, mestre em educação e líder de programas e projetos educacionais da Fundação ABRINQ. Entre dois e quatro anos, conta Cassia, o superego (ou seja, o egocentrismo) é muito latente. “É ‘meu brinquedo’ e ‘minha mãe’”, exemplifica. Por isso, para a primeira infância, a educadora recomenda que se trabalhe com temas como injustiças sociais de modo mais lúdico, por meio de jogos, brincadeiras e contação de histórias.

A partir daí, pode-se também “ler uma reportagem do mundo real e perguntar para as crianças o que elas acham daquela notícia”, sugere Cassia. Com esses primeiros momentos de reflexão, a criança começa a construir um repertório daquilo que chamamos de moral. “São as boas perguntas que levam a criança a ter boas respostas.” Já com os adolescentes, é possível provocar a capacidade deles de argumentar por meio de debates, por exemplo, trabalhando assim algumas das macrocompetências socioemocionais.
“Hoje a gente não valoriza só os conhecimentos científicos, mas trabalhamos com a educação integral, voltada também para os aspectos emocionais da vida prática. Então, quando falamos de justiça social para uma criança ainda em desenvolvimento, podemos pensar como que a gente faz para trabalhar isso na vida, como ao desenvolver projetos e elaborar soluções para problemas da vida prática”, defende Cassia.
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exercendo a cidadania no dia a dia
Cassia continua e diz que, sempre que possível, responsáveis e educadores devem colocar em pauta temas da vida cotidiana para que as crianças reflitam com a mediação de um adulto. “É importante que as crianças tenham voz e vez para opinar sobre tudo que é sério”, ressalta.
Por isso, é imprescindível que os adultos não tenham medo de adentrar em temas difíceis ou complexos — desde que se respeite a idade e desenvolvimento de cada criança. Educadores têm que buscar se informar, em fontes seguras e confiáveis, dos principais assuntos atuais, para que consigam ter uma troca sincera com os estudantes enquanto cidadãos que já são. “Se eu ofereço apenas o recorte de uma única opinião, elas vão tomar aquilo como verdade. Agora, se elas tiverem momentos na escola, entre pares, para refletir sobre opiniões diferentes, elas terão repertório para opinar e problematizar”, alerta Cassia.
“Quanto mais a gente trouxer o mundo real para as crianças discutirem e dar um passo adiante a gente vai construindo uma sociedade mais justa e mais igualitária.”
Assim como aprendemos a escrever escrevendo, o senso de justiça, o respeito e a empatia também se aprendem na prática e na vivência. Daí surge uma das razões de aproximar a escola de ações sociais, como campanhas do agasalho e projetos socioambientais. “Tem escolas também que criam uma personagem, como um boneco”, exemplifica a educadora. “Ele vai passando de casa em casa e aí as crianças podem observar como cada um cuidou dele.”

A resposta está no coletivo
A ABRINQ atua em diferentes projetos que encorajam o protagonismo infantojuvenil e algo que se destaca em praticamente todos eles é o apelo à coletividade. “Vigotski diz que, para a gente aprender, precisamos de diversas interações sociais”, cita a educadora.

Os agrupamentos, sobretudo quando diversos, ajudam a criança a romper o círculo familiar e desenvolver o olhar ao outro. E é este um dos pilares da Escola Maria Felipa, a primeira escola afro-brasileira do país. Maju Passos é artista educadora, mestranda em dança e sócia da escola. Em entrevista ao Clube Quindim, ela diz que é muito enriquecedor para as crianças que elas consigam viver a diversidade dentro da escola, onde passam boa parte do tempo. Ao verem e se relacionarem com pessoas de diferentes cores, origens e classes sociais, os estudantes ampliam a capacidade de desenvolver empatia e senso de equidade.
“Não tem outra forma da gente se entender, entender o outro, se organizar coletivamente e produzir conhecimento em torno daquilo que a gente precisa elaborar, se não for a partir da educação”, ressalta.
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A arte e os outros

Além do trabalho enquanto educadora e articuladora cultural, Maju tem uma extensa trajetória com a dança, uma linguagem universal, segundo ela mesma. E é justamente a arte uma das maneiras capazes de sensibilizar o olhar da criança. “A expressão corporal — assim como a arte em si — é uma grande aliada para que aquela criança se aproprie de si, que é diferente do outro”, diz Maju.
Por isso é tão importante que crianças acessem uma produção artística diversificada, sobretudo de artistas decoloniais — ou seja, que partam de realidades distintas daquilo que é hegemônico. Ao entrar em contato com diferentes histórias, corpos, culturas e formas de existir, a criança amplia sua capacidade de enxergar o mundo para além da própria experiência.
“A gente sempre fala para as escolas visitarem os locais de cultura tão potentes, que tenham teatro e literatura, por exemplo. Porque a gente sabe que nós, seres humanos, precisamos desses espaços para a gente se constituir enquanto um sujeito mais integral”, completa Cassia.
Estante Quindim
Conheça três livros já enviados pelo Clube Quindim que apresentam narrativas diversas e possibilitam dialogar sobre temas que incentivam a construção do senso de justiça das crianças.








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