Uma criança “boazinha” e que “obedece” é o ideal de muitos pais, avós, tios, professores. Mas não deveria ser – e por várias razões. Já parou para pensar em como chega a ser contraditório o fato de os adultos desejarem que crianças sigam sempre todas as suas ordens e, ao mesmo tempo, quererem que elas cresçam com habilidades como senso crítico, criatividade, senso de autopreservação e coragem. Ninguém espera que seu filho adulto siga apenas comandos de outras pessoas, sem entender o que está fazendo, nem ter opinião própria ou firmeza para impor seu modo de pensar, certo?

Para a psicóloga e educadora parental Nanda Perim, autora do livro Educar sem pirar e conhecida por seu perfil @PsiMama no Instagram, há uma enorme diferença entre obedecer e cooperar — que você vai entender melhor ao longo desta reportagem. “A autoridade e o respeito precisam ser construídos pelo adulto junto à criança e não simplesmente impostos”, afirma ela.
Quando a criança é condicionada a obedecer pelo medo e pela violência, a motivação não é o respeito, nem a compreensão. “A criança entende que precisa fazer o que aquele adulto diz para proteger a si mesma de um perigo ou ameaça, ainda que a ordem não faça nenhum sentido para ela”, pontua.
As consequências são várias e vão desde crianças que não aprendem, não ponderam e não formam, nem expressam opiniões, até uma maior vulnerabilidade a diferentes tipos de abusos. “Com o tempo, isso leva a desconexão consigo mesma e a uma busca constante por satisfazer o desejo do outro, ainda que esteja infeliz. Sem falar nas consequências para a toda a sociedade, já que por obedecer sem concordar ou ao menos questionar, se fazem as guerras, surgem o nazismo, o racismo, o bullying, entre outros exemplos extremamente ruins”, afirma. “Agradar ao outro para ser aceito passa a ser mais importante do que tudo”, acrescenta.
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De onde veio a ideia de que criança só obedece?
Há séculos, a sociedade tem enraizada uma ideia equivocada de que a criança tem uma tendência natural a ser ruim e que cabe ao adulto ensiná-la a se tornar um ser bom, lembra a psicóloga. Ainda hoje, é comum, em alguns casos, a crença de que se o pai não bater ou não castigar a criança é ela quem vai crescer e bater nele ou vai apanhar do policial na rua porque certamente vai virar bandida.
Tem ainda aquela máxima clássica e extensivamente repetida de que quando a mãe passa muito tempo com o bebê no colo, ele vai crescer e se tornar um tirano e que está manipulando os pais desde cedo. “Esses conceitos vieram muito fortes, principalmente de culturas europeias, trazidas aos países colonizados”, aponta Nanda. Hoje, mesmo à luz de mais conhecimento, pesquisa e estudos sobre comportamento humano e educação, alguns resquícios deste modo de pensar permanecem.
Assim, criou-se a noção da obediência. “Dizia-se que era preciso bater na criança quando ela fazia algo errado e ensiná-la a fazer tudo o que o adulto pede, muito rapidamente. Além disso, os adultos foram colocados como seres hierarquicamente superiores à criança, que não pode, de forma alguma, incomodá-los. O mais velho manda e o mais novo serve. Simples assim. A criança não pode ferir o ego dos adultos, questionando, discordando ou respondendo, ainda que com respeito”, afirma a psicóloga. Mais que disfuncional e contraproducente, é uma lição perigosa.
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O que é obedecer?

Até uma certa idade, a criança não consegue nem obedecer a si mesma, já que não possui controle do próprio corpo o suficiente para isso, reforça a especialista. “Uma criança de 3 anos, muitas vezes, tem dificuldades de obedecer aos seus próprios comandos e desejos. Às vezes, ela quer ficar parada e não consegue deixar de se mexer, por exemplo”, diz a psicóloga. Em um contexto saudável, ela só vai entender melhor o conceito de obedecer mais tarde.
Já uma criança que sofre violências obedece mais cedo. “Não porque entendeu o conceito. Ela simplesmente faz o que qualquer adulto manda porque isso significa estar protegida – o que a deixa vulnerável a abusos e outros tipos de violência, além de desconectá-la de si mesma, dos próprios desejos e vontades”, explica. “Uma criança tratada com carinho e respeito vai entender o conceito de obediência entre os 6 e 12 anos, quando também já desenvolveu um juízo de valor, tem suas opiniões e quer entender por que precisa seguir aquilo que o adulto mandou”.
Ao ensinar uma criança a obedecer a uma autoridade, sem questionar e sem senso crítico, sem entrar em contato com o que ela sente, sem pensar no que ela gostaria de fazer de verdade (mesmo que nem sempre seja possível), não só a deixamos muito vulnerável a adultos maldosos e predadores, que vão querer que ela obedeça e faça o que ela não se sente à vontade ou confortável fazendo, como também a ensinamos a ignorar as mensagens do próprio corpo.
Não é uma missão fácil, mas o ideal é estimular esse senso crítico, dar espaços reais e respeitosos para que, aos poucos, a criança aprenda a discordar e a discernir quando cabe argumentar ou mesmo se recusar a fazer algo, só porque um adulto mandou. “A sociedade, porém, ainda vê com maus olhos uma criança de 7 ou 8 anos querendo entender e questionar. Apesar de ser saudável e natural, é algo que ainda incomoda muitos adultos”, diz ela.
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Obedecer x cooperar
Dizer que obedecer aos adultos indiscriminadamente, o tempo todo, não é saudável, é claro, não é o mesmo que dizer que as crianças podem fazer sempre o que quiserem ou que não precisam ouvir os adultos. Elas necessitam, sim, de direcionamento e isso faz parte de uma educação consistente e positiva. “Mas é muito importante a criança aprender a cooperar, que é diferente de obedecer”, afirma a psicóloga.

Em uma educação autoritária, a criança obedece porque tem medo do adulto. “Há algumas gerações, era muito comum ouvir dos pais frases como: ‘Eu não quero que você me ame, quero que você me respeite’”, lembra Nanda. Os adultos simplesmente impunham a autoridade pela hierarquia, sem oferecer nada em troca. “Culturalmente, espera-se que a criança obedeça, sem nem conhecer aquele adulto, só pelo fato de ser uma pessoa mais velha ou mesmo por medo do que o adulto pode fazer com ela, caso não obedeça. É ilógico e irracional esperar isso de qualquer pessoa e ainda mais de uma criança, que é um ser extremamente vulnerável”, pontua.
As crianças precisam de adultos que as ajudem a entender o papel delas, porque elas precisam cooperar naquele momento, as razões pelas quais existem certas regras e combinados, entender que as orientações fazem algum sentido, ainda que isso nem sempre seja totalmente compreensível para elas.
As crianças têm de confiar nos adultos não por imposição, mas com base em uma relação, que é construída no dia a dia. “Seus filhos sabem que você cuida deles, que os protege, que considera seus interesses, que pensa sempre no que é mais saudável e mais seguro para eles. Então, eventualmente, se você pedir que façam algo, mas não conseguir explicar na mesma hora os motivos ou responder a eventuais dúvidas, eles vão fazer porque confiam em você”, exemplifica.
A criança precisa sentir que é ouvida, que suas opiniões são levadas em consideração e entender que pode perguntar, com segurança. Assim, saberá se impor, pedir ajuda, demonstrar seu ponto de vista, quando necessário, não só com os pais ou demais adultos, mas também em outras relações ao longo da vida.
“Isso porque a maioria dos adultos quer exercer autoridade, mas se esquece da parte que devem às crianças, da responsabilidade deles para a existência dessa autoridade”, ressalta Nanda. Para se tornar essa figura de referência, uma relação de respeito precisa ser desenvolvida. “Para isso, a criança precisa sentir que é vista, considerada”, aponta a psicóloga.
“Nas culturas baseadas no conceito de obediência, é possível ver altos níveis de depressão, de violência e de rebeldia. A obediência, sem a construção desse respeito, não faz mais sentido, dentro de relações humanas evoluídas” – Nanda Perim, psicóloga e educadora parental
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