Em tempos de redes sociais, cursos, especialistas e métodos que prometem ensinar a criar filhos “do jeito certo”, muitas mães vivem um paradoxo: nunca houve tanto acesso à informação e ainda assim, elas nunca se sentiram tão inseguras. Sabe aquela sensação de que estamos sempre fazendo algo errado? Ou que poderíamos fazer melhor? A necessidade de acertar o tempo todo e buscar respostas prontas virou parte da experiência de maternar hoje.

Mas, para a neuropedagoga e educadora parental Maya Eigenmann, essa insegurança não é tão paradoxal assim e pode ser, inclusive, um sinal de que estamos passando por uma transformação que tende a ser majoritariamente positiva. “Enxergo esse processo com muita naturalidade, porque, no início, toda mudança social gera essa insegurança”, afirma.

Segundo ela, isso acontece porque vivemos uma ruptura com modelos antigos de criação. “Nas gerações passadas, era: ‘Cala a boca, porque quem manda que sou eu’. Não havia questionamento em relação a educação dos filhos”, lembra. “Fico feliz em saber que os pais não estão tão confiantes como as gerações passadas estiveram, porque era uma confiança de subordinação da criança”, acrescenta. 

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A sensação de estar perdido em uma missão tão importante como a de criar um ser humano pode até parecer ruim e trazer certo desconforto; no entanto, ter dúvidas sobre qual caminho seguir é um sinal positivo. Afinal, é assim que se abre o espaço para fazer reflexões e ouvir diversas opiniões diferentes. O importante é usar o impulso dessa inquietação para buscar melhores respostas.

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Dúvidas, sim; atalhos, não

Se por um lado, os questionamentos abrem brechas para buscar novos pontos de vista, eles também podem levar a uma armadilha comum: a tentativa de encontrar fórmulas prontas para educar. E é aí que mora um risco importante. “Nenhuma relação se sustenta com base em fórmulas”, afirma a educadora. “É como aquelas dicas que vemos, tipo: ‘Três passos para manter a chama acesa no casamento. Isso pode até funcionar por um ou dois dias, mas uma relação se sustenta na intimidade, na conexão”, compara. Buscar fórmulas prontas é uma tentativa de terceirizar a responsabilidade. “Em relações, atalhos significam superficialidade”, atesta. 

Não existe receita ou manual, mas relativizar tudo também não é a saída, na visão de Maya: “Essa ideia de ‘não tem jeito certo e errado de educar’ é uma grande falácia. A neuropedagoga defende que há caminhos mais adequados, que vêm sendo apontados e sustentados por pesquisas científicas sobre desenvolvimento infantil. “Existe jeito certo, sim, e a gente tem de construir isso no dia a dia”, orienta. O adulto precisa se atualizar e estar aberto ao conhecimento, às informações e às mudanças. Isso significa que, embora não haja uma receita pronta, há responsabilidade.

A culpa não é inimiga… é bússola!

Mamãe Zangada (de Jutta Bauer, editora Companhia das Letrinhas)
Imagem do livro “Mamãe Zangada“, de Jutta Bauer (Companhia das Letrinhas)‘| Foto: Rodrigo Frazão

Em meio à pressão por acertar, fica difícil escapar da culpa. É um sentimento que massacra as mães todos os dias, em tempos de uma maternidade solitária, muitas vezes, sem apoio e sem ninguém com quem dividir o peso e as responsabilidades.

Mas Maya lembra que, de certa forma, esse sentimento pode ter um papel fundamental no processo de educar. “A culpa nem sempre é nossa inimiga. Ela, na verdade, é maravilhosa para nos nortear”, diz. “Imagina se a gente não sentisse culpa ao bater numa criança ou ao gritar com ela? Seria um apocalipse para a infância”, lembra. Nesse sentido, o desconforto pode ser um sinal importante de ajuste de rota e não algo a ser eliminado a qualquer custo.

A culpa em excesso ou paralisante, é claro, atrapalha. Mas ela mostra que há algo que pode e deve ser melhorado e quando isso se transforma em ação, pode beneficiar a forma como olhamos e cuidamos dos nossos filhos. 

Entre o apoio e a autonomia

Diante de tanta informação, como não se tornar refém de métodos e especialistas? É preciso entender que o apoio é necessário, especialmente no início, mas não deve ser permanente. “Enquanto os pais ainda estão inseguros, é natural que queiram e precisem de apoio”, explica Maya. Mas ela reforça que esse processo tende a evoluir: “Conforme aprendem e se sentem mais seguros, eles mesmos vão desenvolvendo essa autonomia”. A educadora compara o processo com o aprendizado de um idioma: no começo, há dependência; depois, o desenvolvimento acontece de forma mais independente.

Educar passa por fazer escolhas, que, por mais que tenham amparo no conhecimento, em evidências científicas e até em apoio profissional, são também baseadas na individualidade da família, dos pais e da criança. É uma construção que vem de dentro, mas, felizmente, hoje, conta com outras formas de suporte.

Para Maya, confiar apenas na intuição pode ser problemático, já que ela não é neutra. “O que a gente chama de intuição é enviesado pelos nossos traumas”, aponta. Ela compartilha, inclusive, uma experiência pessoal: “Na minha infância, vivi muita solidão e abandono emocional. Então, não sabia me conectar aos meus filhos. No começo, eu confiei apenas na minha intuição e machuquei meus filhos emocionalmente. Assim, como a minha, existem inúmeras histórias. Estruturalmente falando, pouquíssimos são os adultos que tiveram realmente uma infância saudável e que podem ter desenvolvido uma boa intuição, na qual podem se embasar para educar”. 

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Foto: Canva

Por isso, a especialista defende que a parentalidade precisa ser aprendida e não apenas sentida. “A gente vai precisar, sim, de apoio estruturado para conseguir educar adequadamente”, diz ela. Assim como acontece em outras áreas da vida, estudar e aprender também é necessário para executar uma missão tão importante, como é a de educar um ser humano.

Não existe maternidade sem erro

Ao navegar pela maternidade, o objetivo parece ser evitar os erros. Queremos acertar sempre, ao máximo. Contudo, é impossível passar pelo processo sem cometer erros. E é preciso ter muito cuidado também com essa busca incessante, porque ela oferece outro risco: o de focar na performance e esquecer do principal, que é a criança.

“O perfeccionismo é realmente tóxico”, alerta Maya. “Enquanto busco a perfeição, não estou olhando para os meus filhos e me relacionando com eles. Estou olhando para a minha excelência. É como se eu só me preocupasse com a nota final em uma prova e não em aprender o conteúdo”, compara. O anseio em acertar se sobrepõe à conexão, que é o mais importante. 

A consciência de que os tropeços vão existir e que você vai aprender com eles, assim como seus filhos, é fundamental. “Eu entrava em um processo de autoflagelo muito forte. Precisei construir a habilidade de ser compassiva com os meus erros. Não de ‘passar pano’, mas de entender que o mundo não ia acabar por conta daquele erro e que eu tinha a chance de recomeçar”, confessa.

Um conceito que se popularizou, quando o assunto é parentalidade, é o de não precisar ser a mãe perfeita, mas ser “suficientemente boa”. O termo foi bastante difundido por Donald Winnicott, um pediatra e psicanalista britânico. Mas, para Maya, essa visão também exige uma certa cautela. “É interessante, mas pode ser perigosa”, afirma. “Suficiente para quem?”, pergunta. 

Ela explica que quem tem de responder se ela é uma mãe suficientemente boa não é ela mesma, mas os filhos. “Eu posso falar o quanto eu quiser que eu sou uma excelente jardineira. Se as minhas plantas estão todas murchas, será que sou uma jardineira suficientemente boa?”, compara, lembrando também da importância de se fazer um recorte de raça, de gênero e de classe social. “Estamos longe de ser suficientemente bons para os nossos filhos, em parte, também, por causa do contexto social no qual nós estamos inseridos”, observa.

Leia também: Como os pais lidam com a frustração de errar com os filhos?

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por uma Maternidade possível

Ok, até aqui, deu para entender que não, não existe um manual, uma fórmula ou uma receita. Também compreendemos que a intuição não é totalmente confiável, já que pode falhar. A perfeição está longe de ser o caminho. Então, o que resta? Para Maya, a resposta está no processo, que é imperfeito, mas possível.

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Foto: Canva

Ela defende a importância de desenvolver uma postura mais compassiva consigo mesma, sem ignorar erros, mas também sem se destruir por eles. “Você vai errar e o mundo não vai acabar por causa disso. E você tem chance de recomeçar agora”, lembra.  

A ideia de confiar no seu processo, na maternidade, não é um convite a seguir apenas o instinto, nem uma rejeição ao conhecimento, mas a busca pelo equilíbrio entre aprender, questionar, ajustar e, principalmente, se conectar com a criança. Sem fórmulas. Sem atalhos. Sem perfeição. Mas com escuta, verdade e muita presença.

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Conheça três livros, já entregues à Família Quindim, que retratam diferentes questões da maternidade, como o medo e a frustração de errar com os filhos.

Minha mãe caminha (de Isabel Malzoni e Laura Gorski, editora Caixote)
Minha mãe caminha, de Isabel Malzoni e Laura Gorski
Mamãe Zangada (de Jutta Bauer, editora Companhia das Letrinhas)
Mamãe zangada, de Jutta Bauer
Mamãe tem medo (escritora Beatrice Masini, ilustrações Alizera Goldouzian, editora Pulo do Gato)
Mamãe tem medo, de Beatrice Masini e Alizera Goldouzian