As férias, as festas de fim de ano e o convívio prolongado com familiares costumam trazer momentos de afeto, mas tanta proximidade também é capaz de jogar a luz sobre conflitos parentais. Entre comentários sobre birras, opiniões sobre limites, julgamentos sobre rotina e comparações entre estilos de criação, muitos pais entram em janeiro com uma sensação de desgaste emocional e questionamento em relação às próprias escolhas sobre como educar os filhos.

Esses conflitos parentais são mais comuns do que se imagina e, em muitos casos, até esperados, de acordo com a educadora, palestrante e especialista em Neuroeducação e Desenvolvimento Infantil Priscilla Montes. “Cada adulto chega à parentalidade com uma bagagem própria: experiências da infância, valores familiares, traumas, crenças culturais, referências educacionais e níveis diferentes de acesso à informação. Cada um traz a sua história”, observa.

Conflitos parentais
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O passado acompanha, mas a criança nasce em outro momento. Os pais vivem uma fase de transição entre modelos mais tradicionais e abordagens mais contemporâneas de educação. “Esse choque de diferentes modelos costuma gerar divergências, especialmente quando o casal ainda não construiu uma visão compartilhada de infância e desenvolvimento”, afirma a educadora.

Chegar a um lugar comum, envolve rever visões consolidadas, revisitar marcas do passado, ampliar o olhar, organizar tarefas que envolvem muita complexidade e uma boa dose de abertura e disposição

O peso das divergências ENTRE OS RESPONSÁVEIS PELAS CRIANÇAS

Diferenças de opinião fazem parte da vida em família. Elas se tornam um problema quando passam a causar impactos emocionais. “As diferenças começam a prejudicar quando a criança é exposta de forma recorrente a modelos educativos muito diferentes. É o que ocorre, por exemplo, quando um adulto aposta no diálogo e na regulação emocional e o outro recorre ao autoritarismo, intimidação ou práticas violentas, sejam físicas ou emocionais”, diz a especialista. 

Nesse contexto, os efeitos desses conflitos parentais podem ser profundos. “A criança pode ficar confusa sobre regras e limites, desenvolver insegurança, medo, hipervigilância ou até comportamentos de adaptação excessiva para agradar o adulto que detém mais poder”, detalha Priscilla. Para ela, o alinhamento entre os responsáveis não deve ser tratado como uma disputa de estilos, mas como uma responsabilidade conjunta em relação à criança – e não quem está certo ou errado.

“O primeiro passo é tirar a criança do centro do conflito e reconhecer que violência não é uma opinião educativa, mas um fator de risco ao desenvolvimento infantil”, afirma. O diálogo entre os adultos precisa acontecer fora do calor do momento e, se necessário, com apoio profissional. “O ideal é estabelecer princípios mínimos inegociáveis: respeito, previsibilidade, limites sem agressão e comunicação coerente. É fundamental que os adultos assumam a posição de cérebros maduros e consigam se alinhar nesse propósito”, acrescenta. 

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outras gerações: COMO AVÓS ENTRAM NO ALINHAMENTO

Mesmo quando os pais estão alinhados, há outros tipos de conflitos parentais que podem interferir na educação dos pequenos – em maior ou menor nível de impacto, dependendo do tipo e da frequência da convivência. Estamos falando das diferenças entre gerações, com a participação dos avós, que, muitas vezes, têm visões opostas sobre disciplina, obediência e afeto. “Muitos avós falam a partir de um referencial de outra época. Isso não significa desautorizar, mas entender o contexto de onde vêm essas opiniões”, explica Priscilla.

Conflitos parentais
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A solução nem sempre é radical. Para a educadora, é possível se posicionar com firmeza sem romper vínculos importantes. “Colocar limites com respeito não significa se justificar o tempo todo. É possível comunicar decisões com clareza, serenidade e sem ironia ou confronto”, defende. 

Frases que reforçam a intenção positiva, como o cuidado com o bem-estar da criança, tendem a reduzir resistências. “Preservar vínculos não exige concordância absoluta. Exige comunicação firme, assertiva e não violenta”, orienta. 

festas e férias: períodos críticos de conflitos parentais

Em festas, almoços de família ou encontros sociais, críticas sobre a forma de educar podem surgir diante das crianças, o que intensifica o impacto emocional da situação. “Nesses momentos, a prioridade deve ser sempre proteger a criança emocionalmente”, diz Priscilla. Longas explicações ou confrontos em público, em geral, não são nada úteis. “Respostas breves, neutras e firmes ajudam a encerrar o assunto sem expor o adulto ou a criança. O diálogo pode ser retomado em outro momento”, recomenda a educadora. 

Mais do que sair de uma discussão como detentor da razão, o foco deve ser preservar a criança. “Ela precisa sentir que os adultos que cuidam dela são sua base de segurança, não uma fonte de tensão”, resume a especialista. 

Outro ponto sensível do período pós-festas é a mudança de rotina. Regras mais flexíveis durante viagens ou visitas a familiares e mesmo temporadas na casa dos avós podem gerar regressões ou comportamentos diferentes ao voltar para casa. “Para crianças menores, a mudança de rotina pode gerar confusão emocional e comportamental”, explica Priscilla. “O papel dos pais não é criticar a experiência vivida, afinal, flexibilizar também é saudável. O que eles precisam fazer é ajudar a criança a reorganizar expectativas”, diferencia. 

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Antecipar a retomada das regras, acolher possíveis regressões e oferecer previsibilidade são estratégias fundamentais. “A previsibilidade é reguladora. Ela ajuda a criança a se sentir segura, orientada e emocionalmente amparada”, afirma. 

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quando vale explicar – e quando vale se preservar!

Nem sempre discutir longamente sobre escolhas e conflitos parentais é produtivo, especialmente quando o diálogo vira embate constante. “Explicar pode ser saudável quando há abertura genuína para escuta. Mas, quando a conversa se transforma em disputa, o silêncio estratégico, a mudança de assunto ou a colocação de limites claros também são formas legítimas de autocuidado”, destaca Priscilla.

Ela lembra que preservar energia emocional também é uma decisão parental responsável: “Nem toda relação comporta longas justificativas. E tudo bem”.

Conflitos parentais
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O impacto emocional dos conflitos parentais nas crianças

Quando presenciam discussões ou críticas sobre sua criação, crianças podem internalizar sentimentos difíceis. “Elas podem sentir insegurança, confusão, culpa ou até medo de errar. Em alguns casos, passam a se sentir responsáveis pelos conflitos dos adultos”, lembra a educadora. 

Por isso, depois desses episódios, o acolhimento emocional é essencial. “É fundamental validar sentimentos, reafirmar que a criança não é o problema e oferecer explicações simples e honestas que restaurem o senso de segurança”, diz ela. 

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Para pais que se sentem abalados por julgamentos externos, Priscilla lembra que a parentalidade atual exige mais do que instinto. “Já foi o tempo em que educar era baseado em achismos. Hoje, a confiança parental se constrói com estudo, informação de qualidade, reflexão e apoio”, pontua. Felizmente, o conhecimento é cada vez mais acessível.

Buscar referências confiáveis, trocar experiências com outros pais e contar com acompanhamento profissional são caminhos para fortalecer escolhas. “Nenhuma parentalidade é perfeita. O que sustenta é a coerência, a intenção consciente e a capacidade de ajustar rotas sem se desautorizar”, diz a educadora. 

Estante quindim

Conheça três livros, já entregues à Família Quindim, que trazem diferentes reflexões que permeiam a construção da parentalidade:

mamãe zangada jutta bauer
Mamãe zangada, de Jutta Bauer
MinhaMaeCaminha CapaTransparente 1 e1746536874721
Minha mãe caminha, de Isabel Malzoni e Laura Gorski
Orbitar (autor Alexandre Rampazo, editora Maralto)
Orbitar, de Alexandre Rampazo