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A importância de escutar as crianças em todas as fases da vida

escutar as crianças

Foto: Canva

Parece óbvio ou um lugar comum, mas escutar as crianças e conversar em família ainda é a melhor saída. Manter um diálogo aberto e constante é fundamental, embora isso não queira dizer que seja um ato simples. Cada fase da vida dos nossos filhos exige uma demanda e uma escuta muito particular.

Diferente do que muitos podem pensar, o ato de conversar com as crianças deve começar quando o indivíduo ainda é um bebê e deve se manter constante por toda a primeira infância, adolescência e posteriormente, vida adulta. Para cada época, o falar tem a sua importância. 

No início da vida, os benefícios da conversa com o bebê não estão ligados diretamente a ele entender o que está sendo falado — e aqui, a escuta precisa ser mais das reações, sintomas e emoções. “Ao longo do desenvolvimento, o bebê se comporta com bastante expressividade e tais expressões são poderosas na regulação de contato com os adultos. Essa interação contribui para a formação do vínculo afetivo e segurança do pequeno. Inclusive, há estudos que apontam que a qualidade da interação inicial do bebê é considerada um fator mediador da linguagem, socialização e cognição”, explica a psicóloga Thaise Löhr Tacla, mestre em psicologia e professora do curso de psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). 

Cabe ao adulto, então, estabelecer troca de olhares com o bebê e responder a reações dele como os sorrisos e a emissão de sons típicos dessa fase. Ainda segundo Thaise, o diálogo com o pequeno deve envolver principalmente a narração do ambiente que ele está e da sequência de tarefas que será realizada para que, assim, ele entenda gradativamente o mundo ao seu entorno. “Cantar músicas também auxilia no processo do desenvolvimento da linguagem”, pontua a psicóloga. 

A leitura compartilhada de livros sobre o cotidiano do bebê é uma das formas de iniciar o diálogo sobre a rotina do pequeno para, assim, eliminar o fator surpresa do dia a dia e a ansiedade que vem junto dele. Veja aqui uma lista de obras já enviadas para a Família Quindim sobre o assunto.

quais são os benefícios de escutar as crianças na primeira infância?

Na primeira infância, o diálogo regular da criança com os pais, avós, amigos e outras figuras de seu círculo de contato continua intensificando o vínculo de afeto, principalmente porque a conversa reforça a sensação de estar segura e se sentir pertencente a esses grupos. 

“Além disso, ao expressarem seus sentimentos e pensamentos, as crianças aprendem a identificar e regular suas emoções, desenvolvendo habilidades sociais essenciais, como empatia e cooperação. Essas interações também estimulam a autoestima, pois elas percebem que suas opiniões são valorizadas e respeitadas”, pontua o psicólogo Paulo Cesar Porto Martins, doutor em psicologia clínica e professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). 

Apesar da idade tenra, não há temas errados para dialogar com as crianças. O que Paulo reforça é que eles devem ser adaptados conforme a faixa etária do pequeno. “Essas conversas permitem que a criança explore e entenda diferentes emoções, preparando-a para lidar com situações diversas no futuro”, completa o especialista. 

“Ao abordar diferentes assuntos, os pais ajudam os filhos a compreenderem o mundo ao seu redor, promovendo a curiosidade e o pensamento crítico” – Paulo Cesar Porto Martins, doutor em psicologia clínica e professor

O psicólogo também pontua que nem sempre é preciso esperar que a criança faça perguntas sobre assuntos mais desafiadores para que eles sejam introduzidos em sua vida. Mais uma vez, cabe aos pais iniciar e conduzir algumas conversas ao perceber que o tema é importante na percepção de mundo da criança, até mesmo porque essa abordagem proativa dos cuidadores pode evitar mal-entendidos futuros.

“Ao conversar sobre temas complexos, como emoções difíceis, mudanças ou eventos significativos, os pais demonstram que estão disponíveis para apoiar e orientar os filhos. É essencial criar esse ambiente de confiança, onde a criança se sinta segura para fazer perguntas e expressar suas dúvidas”, reflete Paulo. 

Frases como “você pode falar disso comigo”, “eu não vou julgar você”, “você está seguro aqui” são exemplos de reforços verbais que ajudam a criar esse ambiente de conforto e segurança para a criança dialogar sobre o que quiser.

Foto: Canva

Quando esse espaço de troca honesta é estabelecido desde cedo, a proteção se dá também para casos mais graves, como os de violência e abuso sexual infantil.  Segundo a campanha ‘Olhe mais perto: um olhar atento pode salvar uma criança’, da Childhood Brasil, a cada hora, oito crianças ou adolescentes são vítimas de violência sexual no Brasil – mas apenas 8,5% dos casos são denunciados. Para mudar esse cenário, a instituição defende a importância da escuta infantil. 

“Escutar crianças é um gesto sensível, que ultrapassa a ação, embora tenha início com ela. É um processo que demanda atenção, cuidado e, principalmente, disponibilidade – não só de tempo, mas de afeto” — diretrizes da Childhood Brasil.

A expressão da criança pode ser incentivada por atividades simbólicas — como a brincadeira de faz de conta —, desenhos, pinturas, músicas, danças, jogos de tabuleiros e/ou de cartas, rotinas de conversas e a leitura compartilhada. 

Histórias e personagens de livros infantis oferecem modelos de expressão emocional e social, permitindo que a criança observe e aprenda diferentes formas de se comunicar. Ao se identificar com personagens e situações, a criança pode se sentir mais confortável para compartilhar suas próprias experiências e sentimentos. Além disso, a leitura conjunta cria um ambiente seguro e acolhedor, incentivando o diálogo e fortalecendo o vínculo entre pais e filhos”, pontua Paulo. 

escutar os filhos na adolescência é fundamental!

Lançada neste ano, a série Adolescência, da Netflix, reacendeu o debate sobre a importância de ouvir os adolescentes e refletir sobre como essa escuta tem sido conduzida. A ausência de diálogo durante a juventude pode ser perigosa, tanto para o jovem quanto para aqueles ao seu redor.

Quando o adolescente não conversa e, consequentemente, estabelece trocas positivas com seus pares (e também com adultos que sejam boas referências para o seu desenvolvimento), há uma grande tendência ao isolamento social, o que favorece o desenvolvimento de transtornos psicológicos como depressão e ansiedade. “Sem orientação, o jovem também pode recorrer a fontes inadequadas de informação, aumentando a probabilidade de envolvimento com substâncias ilícitas ou práticas perigosas”, pontua Paulo.

Com o uso de telas, esses problemas ganham proporções ainda maiores, uma vez que a presença do filho dentro de casa dá a falsa sensação de que ele está em um ambiente seguro e sendo observado de perto. Sendo que, na verdade, ele pode estar tendo contato com pessoas que os pais nem sabem quem são e navegando por assuntos que nem sempre estão adequados para a faixa etária. 

Por aqui, já falamos sobre aplicativos que ajudam no monitoramento do conteúdo virtual. Mas, mais do que isso, é por meio do diálogo constante com o adolescente — sobre todos os assuntos e não apenas quando surgem problemas ou questões mais sérias — que se constrói um vínculo de confiança. Essa sensação de que há escuta e compreensão dentro de casa é essencial para que ele se sinta à vontade para conversar sobre qualquer tema, inclusive, sobre as dúvidas que a internet mesmo pode despertar.

Mesmo que nem sempre os pais compreendam a dimensão das questões enfrentadas pelo filho, com escuta ativa e acolhimento, o jovem se sente validado em suas dores e assim, corre menos risco de se isolar diante de desafios comuns da juventude, como a inadequação, inseguranças em relação ao próprio corpo e questões ligadas à sexualidade.

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