Conta pra mim: caminho para o homeschooling e a desvalorização da literatura infantil brasileira

Ler com seu filho é uma das melhores coisas que você pode fazer por ele. O momento de leitura em família é muito potente, fortalece os vínculos de afeto, ajuda a formar leitores e, até mesmo, como consequência, pode melhorar o desempenho escolar dos pequenos. Entretanto, para formar um leitor crítico e autônomo, precisamos oferecer livros de diferentes gêneros literários, autores, estilos e técnicas de ilustração, entre outros tantos aspectos que constroem um repertório rico para as crianças. Mas não é isso que encontramos ao navegarmos pelas obras da coleção Conta Pra Mim, da Política Nacional da Alfabetização do Ministério da Educação.

O Programa Conta Pra Mim traz uma coleção de 40 livros, lançada com o propósito de incentivar a leitura em família sob o pretexto de que ela seria benéfica para o processo de alfabetização. As obras são de autoria de 4 escritores e, ao que parece, ilustradas por uma única artista. 

COLEÇÃO CONTA PRA MIM: censura dos clássicos?

Ao ler algumas dessas histórias, nos deparamos com recontos que beiram à censura. Como informou o MEC em nota a nossa parceira Quatro Cinco Um, que publicou um artigo sobre a coleção, “O MEC entende que todas as crianças brasileiras têm o direito de conhecer as grandes obras de arte imortais da história da humanidade.” Apesar dessa afirmação, ficamos em dúvida se as obras da coleção, que sofreram intervenções drásticas às suas versões clássicas ou até mesmo às suas adaptações mais consagradas, realmente poderiam ser comparadas a “grandes obras de arte”. 

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Contos de fadas e seus seres mágicos trazem sentimentos que as crianças vivenciam desde seus primeiros dias, como amor, ciúme, medo…

É curioso que, em um país como o Brasil, com uma literatura infantil e juvenil tão rica, reconhecida internacionalmente, com instituições como a Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) e uma longa história de parcerias delas com o governo para entregar literatura de qualidade, a coleção Conta Pra Mim tenha a supervisão técnica de Carlos Francisco de Paula Nadalim, secretário da alfabetização, um ex-aluno do ex-astrólogo Olavo de Carvalho, que se autodeclara filósofo e é conhecido por sua atuação na extrema-direita. Entre dezenas de especialistas em literatura infantil e em formação de leitores que já trabalharam junto ao governo no passado, o que torna o secretário qualificado para supervisionar a criação de uma coleção de livros para crianças?

POR QUE A COLEÇÃO CONTA PRA MIM DESVALORIZA NOSSA IDENTIDADE E A LITERATURA NACIONAL

A coleção Conta Pra Mim parece virar as costas à nossa tradição literária, que tem buscado valorizar nossa identidade, inclusive com seu “mascote”, um urso, animal que não faz parte da fauna brasileira. Como já dissemos aqui, o Brasil sofre forte colonização cultural, e isso se reflete já na primeira infância, quando nossos pequenos brincam com seus ursinhos de pelúcia, assistem quase exclusivamente a desenhos animados estrangeiros e, se lhes pedirmos para desenhar uma casa, provavelmente ela terá um telhado pontudo como nenhuma que a criança tenha visto pessoalmente.

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Além disso, as obras reforçam mensagens morais, “apresentando o valor das virtudes, dando conselhos ou ensinando regras de boa conduta”, como afirma o próprio Guia da Literacia Familiar, em sua página 20. Enxergar a literatura dessa forma é reduzi-la a uma cartilha escolar, é negar a complexidade das vivências que podemos conhecer por meio dela e das sensações que ela pode provocar.

O DEVER MORAL DE ALFABETIZAR

E entre os erros do Programa não está apenas sua visão míope da literatura infantil brasileira: ele ainda coloca sobre a família a carga da alfabetização. Nessa sociedade em que os cuidados com os filhos e os afazeres domésticos ainda são majoritariamente atribuídos à mulher, este programa apresenta uma lista de dez pontos para praticar a literacia familiar sem prestar nenhum tipo de apoio às famílias. Pelo contrário, parece trazer uma pressão maior às mães, que, além de todos os papéis que já desempenham, teriam o dever moral de desenvolver atividades para alfabetizar seus filhos em casa. Isso, aliás, vem se tornando uma questão problemática para mães e pais em todo o país desde o início da pandemia. 

Muitas mães e pais sofrem culpa por não conseguirem acompanhar de perto os estudos dos pequenos em meio a tantas responsabilidades, e este trecho, encontrado no site do Programa Conta Pra Mim sob o título “Motivação”, parece reforçar essa culpa: “Por serem as figuras mais importantes na vida dos filhos, tudo o que os pais falam e fazem tem um peso enorme sobre as crianças, tanto para o bem quanto para o mal.”

CONTA PRA MIM: UM CAMINHO PARA A PRECARIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO?

No Guia da Literacia Familiar, em sua página 13, esta frase ganha destaque: “Literacia Familiar é o reconhecimento de que os pais são os primeiros professores de seus filhos.” Em um período em que vemos a profissão do educador desvalorizada, o que significa essa afirmação? 

Como disse Cristiane Tavares, mestre em crítica literária, a Rubens Valente da Quatro Cinco Um: “A promoção da literacia familiar como objetivo principal da coleção Conta Pra Mim tem, por trás, essa perigosa concepção que caminha no sentido de mais uma supressão de direitos básicos previstos na Constituição Federal e na Lei de Diretrizes e Bases, como o acesso à Educação e a valorização da escola como espaço privilegiado de construção de conhecimentos.”

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MARINA FORTES

Estudante de Editoração na Universidade de São Paulo, Marina acredita no poder transformador da leitura. Já trabalhou em diversos projetos da Secretaria Estadual de Educação de São Paulo, do MEC e da ONU. No Quindim, gerencia as mídias sociais e toda sua produção de conteúdo, em um esforço contínuo para aproximar, cada vez mais, livros infantis de qualidade das famílias brasileiras.