Aula on-line na quarentena: como pais, escolas e professores podem se adaptar a essa nova realidade?

Logo no início da pandemia de Covid-19, escolas da rede pública e privada foram fechadas em todo o país para conter a propagação do novo coronavírus. Com as aulas presenciais suspensas, gestores educacionais, professores, pais e alunos tiveram que se adaptar, às pressas, à aula on-line na quarentena.

Na internet, há milhares de relatos de pais e professores que tentam se adequar à nova realidade da aula on-line na quarentena dentro do ensino básico. As opiniões nem sempre são boas, mas há inúmeras iniciativas que mostram que o ensino a distância (EAD) pode ser um caminho proveitoso para o Brasil pós-pandemia. Para entender os desafios e as oportunidades dessa forma de ensino, o Clube Quindim conversou com Carla Arena, educadora, empresária e cofundadora do Amplifica, instituto que promove projetos educacionais para integrar a tecnologia às estratégias didáticas e propor um aprendizado além do óbvio.

Carla Arena
Carla Arena, educadora, empresária e cofundadora do Amplifica

Para início de conversa, Carla, educadora inovadora certificada pelo Google (Google Innovator), propõe diferenciar o ensino a distância (ou on-line, dependendo da nomenclatura que se adote) do ensino a distância emergencial, utilizado no período de aula on-line na quarentena por causa do isolamento. “No começo, cada escola, professor e família se adaptou do jeito que podia, com uma perspectiva e uma estratégia próprias. Considero que agora estamos num período de realinhamento, de acomodação, em que todos estão se ajustando a essa nova realidade. É nesse processo que podemos falar realmente de um ensino on-line, com um programa mais estruturado”, resume. Confira abaixo a entrevista exclusiva ao Clube Quindim.


Clube Quindim: De forma geral, que estratégias escolas, pais e professores podem adotar para tornar essa experiência de aula on-line na quarentena mais proveitosa para a aprendizagem?


Carla Arena: Acredito que as escolas estão olhando para frente e se realinhando com o ensino a distância depois do período emergencial de aula on-line na quarentena. Nessa adaptação das escolas, não falamos apenas de on-line. Mas do ensino híbrido, ou seja, como trabalhar o presencial/analógico/off-line junto do digital, em ambientes virtuais. Para fechar essa equação, é essencial que as escolas tenham apoio de especialistas na área. A realidade é que, na maioria das vezes, não há ninguém na equipe que saiba trabalhar o ensino on-line. Por isso, é preciso ter, por exemplo, um designer instrucional, para ajudar a guiar os professores na aprendizagem remota. Afinal, não se trata de uma mera transposição de conteúdo. A gente também tem que pensar em formação continuada de professores, com apoio tanto na parte técnica do EAD como emocional.

No atual cenário, a escola está na batalha. Pequenas e médias estão sofrendo bastante. Mas ao mesmo tempo é necessário repensar esse modelo – professores que gravam um vídeo como se estivessem dando aula em sala. No presencial, mesmo que essa estratégia não funcione tão bem, ainda há um controle da sala de aula. Em aulas síncronas virtuais, é muito diferente. Temos que usar outras estratégias no aprendizado e ter uma formação de novos hábitos para o digital. Porque ela é necessária, inclusive para o mercado de trabalho.

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CQ: Algumas práticas ajudam os estudantes a absorverem melhor os conteúdos da aula on-line na quarentena. Revisar o que aprenderam ao final de cada aula ou módulo, por exemplo, facilita a compreensão. Há outras técnicas que podem ser utilizadas pelos professores?


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CA: Essa estratégia pedagógica de revisão do conteúdo funciona tanto no digital como no presencial. Afinal, muitas estratégias são baseadas na neurociência, com pesquisas recentes que contribuem para a educação. Temos as estratégias metacognitivas, em que o aluno diz o que aprendeu e o que ainda tem dificuldade para compreender. Outra tendência que não se tem falado muito, mas que é interessante, é a aprendizagem visível, em que por meio de estratégias e dinâmicas o aluno demonstra o que está aprendendo.

Um exemplo de estratégia de aprendizagem visível bastante utilizada hoje no ensino de inglês é o “Think – Pair – Share” (Pensar – Trabalhar em pares – Compartilhar). Com essa rotina, que chamamos de rotina de pensamento, a criança ou o jovem começa a trabalhar para fixar o conhecimento até que ele se torne memória de longo prazo. Há várias estratégias de rotina de pensamento que podem ser encontradas no site do Project Zero, por exemplo. Quando trabalhamos com criação de conteúdo com os alunos, podemos usar um menu de aprendizagem – espécie de cardápio com diferentes possibilidades de o aluno mostrar para o professor que entendeu aquele conteúdo. Pode ser por meio de um vídeo, gravar um áudio, escrever um texto etc.

Nessa perspectiva multimodal, a turma toda não precisa ter o mesmo tipo de entrega, cada aluno pode seguir um caminho diferente. A estratégia permite verificar ainda as lacunas de aprendizagem – e nisso o papel do professor é fundamental – para fazer intervenções pedagógicas e corrigir isso. Também tem a aprendizagem por meio de trilhas, em que o aluno é direcionado a criar caminhos próprios para realizar as atividades. Outra forma é usar estratégias de gamefication. O que estamos vendo é que essas tecnologias podem ajudar nisso, otimizar esse ensino. É claro que estamos falando de uma mudança, e o professor precisa estar disposto a ter domínio dessas ferramentas. O que no começo pode ser desafiador, mas depois se normaliza. Também é preciso um trabalho educativo com as famílias – para elas entenderem realmente esse novo projeto pedagógico.

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CQ: E por falar nas famílias, de que forma os pais que supervisionam o ensino dos filhos e a aula on-line na quarentena podem auxiliar na retenção e compreensão dos conteúdos estudados?


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CA: O mais importante é ajudar as crianças a criar a rotina de estudo. Pode fazer em casa um cantinho de estudo. Organizar o ambiente domiciliar para que o filho estude, provendo um móvel adequado ou um local mais silencioso. O aluno fica até mais confiante se o pai e a mãe apoiam nesse processo de estruturação. Depois ele pode seguir sozinho, nem sempre o pai precisa acompanhar toda a rotina, o tempo todo.

Na volta às aulas pós-pandemia, vai ser uma outra adaptação que exige paciência e confiança dos pais. Enxergamos pelo menos três cenários diferentes: as escolas não vão voltar agora; um cenário híbrido (algumas turmas retornam, outras ainda não); e o cenário de que todos os alunos voltam ao mesmo tempo. Também podemos ter casos de pais que não querem que o filho volte às aulas, por exemplo. É importante refletir que, em qualquer cenário de retorno, o digital vai ter que fazer parte dessa reacomodação. Os pais devem ter em mente que a escola está fazendo o melhor e confiar na equipe, para que a escola consiga entregar o melhor com os profissionais que ela tem. Será um momento de respirar antes de reagir, porque essa nova realidade não será normal – vai demorar um tempo para se estabilizar.

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CQ: O maior desafio do ensino a distância parece ser garantir o compromisso, assiduidade e engajamento nas aulas a distância. Que outros desafios você apontaria?


CA: Um desafio que tem sido muito debatido é como equilibrar a carga de trabalho dos professores. Então, a escola tem que buscar novas soluções para isso. Contratar, por exemplo, designers instrucionais, designers, tutores, com papéis muito bem definidos e divididos na escola. Afinal, o professor está assumindo todos esses papéis, o que gera um acúmulo de funções e uma sobrecarga de trabalho. A escola precisa oferecer apoio socioemocional ao corpo docente, porque os profissionais estão cansados, ansiosos e extremamente cobrados neste período de aula on-line na quarentena. E também para os alunos, porque as crianças e jovens têm lidado com esse distanciamento e precisam de um processo de recuperação emocional.


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CQ: Especialistas em ensino a distância mostram que, ao contrário de aulas no formato palestra, com monólogo de professores, uma saída mais eficaz é realizar vídeos mais curtos, que abordem conceitos-chave, intercalados com atividades práticas. Como fugir do formato “palestra” com os recursos que a maioria dos professores dispõe hoje?


CA: Concordo totalmente. Hoje tem muita estratégia bacana para ser utilizada. Os professores precisam entender que o conceito espaço-tempo que a gente tem na aula presencial é totalmente diferente do que se tem no ambiente virtual. Quando você entende isso, você começa a utilizar estratégias do ensino virtual e aproveitá-las muito melhor. Uma aula de 50 minutos não precisa ser reproduzida no mesmo formato no on-line, esse conteúdo pode ser “quebrado” em três vídeos curtinhos e os alunos podem trabalhar para mostrar o que aprenderam, trabalhar colaborativamente. O professor pode pensar no ensino híbrido não apenas em relação a plataformas, mas em aproveitar a junção do ambiente em que o aluno está com o virtual em que o ensino acontece. Como engajar o aluno para trabalhar no contexto em que ele está? A experiência síncrona (aulas ao vivo) não precisa ser só conteudista, mas uma experiência de conexão.


CQ: Você enxerga no pós-pandemia a oportunidade de o ensino a distância ser mais utilizado no Brasil? Como os professores podem se preparar para essa realidade?


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CA: A discussão é bem ampla porque também depende da legislação brasileira, que sempre foi limitada em relação ao ensino on-line no ensino fundamental e médio. Mas no Ensino Superior tem uma abertura maior para isso. Talvez nesse contexto a legislação, então, precisa ser revista no pós-pandemia. Acho que temos que compreender esse assunto em duas esferas: um é o programa de ensino on-line e o outro é o meio digital sendo utilizado para o aprendizado. Neste momento, estamos vivendo o segundo, para alcançarmos o primeiro dependerá de como a legislação será revista para isso.

Para os professores, o conselho é: não espere sua instituição prover a capacitação que você precisa, porque elas não podem absorver isso totalmente. Crie o seu próprio caminho de formação, procure opções gratuitas. Enxergue onde você se encaixa nesse contexto como profissional e aonde você quer chegar dentro da sua carreira e, o mais importante, aproveite todas as oportunidades.

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CQ: Como superar os obstáculos de acesso de muitos estudantes aos ambientes virtuais (acesso a computadores, tablets ou celulares, ou mesmo possuir uma boa conexão de internet), além das próprias dificuldades enfrentadas pelos professores para preparar esses materiais de forma on-line?


CA: Essa é uma questão bem sensível neste contexto de pandemia, porque trouxe à tona, de maneira tangível, a acessibilidade e o abismo digital. A média que vemos nas turmas é que 70% dos alunos têm algum tipo de conectividade e 30% não possuem. Dentro desses 30%, há várias situações, tanto crianças em situação de vulnerabilidade econômica como famílias de classe média que têm três filhos e não possuem três equipamentos para acesso simultâneo, por isso há dificuldade de conexão. O primeiro ponto é a necessidade de investimento em infraestrutura – por parte do poder público. Existem secretarias de educação que têm feito acordo com empresas de telefonia e fornecendo chips para famílias, isso num contexto emergencial.

Pensando na perspectiva do professor, é importante ter em mente que os conteúdos e experiências de aprendizagem devem ser criados em diferentes formatos, pensando nos tipos de conectividade que os alunos podem ter – qual formato de entrega de atividade que eu posso fazer, para que ele tenha acesso a esse conteúdo? No caso de alunos que têm baixa conectividade, posso montar um material em PDF para que o aluno acesse rapidamente e depois fique off-line para realizar as atividades? As entregas não podem ser 100% digitais, eu posso colocar na plataforma uma atividade que ele pode resolver no caderno e me mandar uma foto? Não tem uma solução fácil e rápida, mas professores e escolas precisam ter sensibilidade a essas várias realidades.


CQ: A partir de que idade a criança começa a construir seu próprio conhecimento? O ensino a distância pode apresentar conteúdos para que a criança tenha autonomia no aprendizado ou isso só é aplicado para estudantes de graduação, por exemplo?


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CA: Desde que nasce. Para a criança, isso envolve a criação de hábito, depende como os pais e a escola trabalham isso. Em relação ao desenvolvimento da autonomia, a partir do momento que você percebe que a criança começa a fazer algo de forma independentemente, estimule isso. A autonomia cria identidade, ou seja, mesmo essas pequenas coisas que eles conseguem fazer têm muito a ver com a construção da própria identidade.

Isso vale muito para a educação no geral. Muitas vezes a gente subestima os alunos nesse sentido. Quando a criança mostra uma capacidade de autonomia, desenvolve independência e confiança e isso envolve uma construção única de identidade. No digital, tem que ter cuidado, pois há formas de autonomia, mas tem que ter controle do tempo de tela, não é deixar só brincar. É preciso pensar o que a criança desenvolve de competência quando damos espaço.

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CQ: A aprendizagem por meio de experiências e vivências é bastante estimulada. Como não deixar que essa abordagem se perca no ensino a distância?


CA: Quando vamos para o digital, o espaço pode ser o digital, mas nada impede que o professor faça um híbrido com o espaço físico. Numa aula on-line, você pode estimular que os alunos peguem coisas na casa deles, fazer coisas em casa, desenvolver experiências no espaço em que se está. Além de repensar essa experiência de aprendizagem no ambiente presencial, é preciso repensar um sistema de visualização para ter retorno e feedbacks do que os alunos estão aprendendo. As experiências podem não ser só digitais. O professor pode aproveitar essas experiências de aprendizagem que estão sendo construídas fora da sala de aula e redesenhar suas aulas quando as escolas forem reabertas.

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CQ: O Instituto Amplifica lançou o Simplifica, um programa com trilhas gratuitas para estudantes do Ensino Fundamental. Qual é o objetivo desse projeto?


CA: Esse projeto foi uma força-tarefa e uma parceria entre o Amplifica, a Fundação Lemann e a Imaginable Futures. O conteúdo prevê atividades, inclusive para serem realizadas off-line, para cenários com diferentes possibilidades de conexão à internet. Há plataformas diferentes para líderes educacionais, pais e professores. Muitas secretarias de educação têm utilizado essa iniciativa e nos dado ótimos retornos. Esse projeto foi construído a muitas mãos logo no início da pandemia e nosso objetivo foi pensar como distribuir conteúdos que façam sentido neste momento, para a aprendizagem remota. Juntamos a nossa experiência, do Amplifica, com a de uma equipe acadêmica com uma diversidade de áreas e disciplinas para construir um modelo pedagógico, com conteúdos que as crianças e jovens têm que saber nesse período.

Além disso, toda a construção pedagógica foi balizada pela BNCC (Base Nacional Comum Curricular) e envolveu vários contextos e diferentes personas. O material foi criado do zero e assim resultou em um modelo pedagógico único. Afinal, queríamos oferecer algo que fosse um presente para as famílias e escolas e não um fardo. E que também envolvessem várias etapas, para que os alunos tivessem várias experiências ao aprender um mesmo conteúdo. A proposta é resgatar o prazer de aprender e mostrar aos professores uma nova forma de ensinar.


Tatiana Lazzaroto

Tatiana Lazzarotto é jornalista, escritora e feminista. Atualmente é mestranda em Estudos Culturais na Universidade de São Paulo (USP). É formada em Comunicação Social-Jornalismo e Letras-Português, pela Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro) e especializada em Mídia e Política e Atores Sociais pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Também é Promotora Legal Popular (PLP), com formação em direitos das mulheres da União de Mulheres de São Paulo. Natural de Santa Catarina e radicada em São Paulo-SP desde 2011, é apaixonada por plantas e por cachorros, especialmente Gabo e Mercedes. Acredita no poder transformador da educação, das palavras e dos novos olhares.

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