Neste ano, a 30ª edição da Conferência das Partes (COP) ocorre pela primeira vez no Brasil, na cidade de Belém (PA), entre 10 e 21 de novembro. O evento terá um foco particular na Amazônia, bioma essencial para o equilíbrio climático global, e discutirá temas como redução das emissões de gases de efeito estufa (GEE), financiamento climático para países subdesenvolvidos, transição energética e justiça climática.

Especialistas dizem que a COP 30 será uma oportunidade para o Brasil reforçar seu papel na agenda ambiental internacional e atrair investimentos em energia limpa. Mas não é só isso! Educadores ambientais indicam também que esta é uma ótima oportunidade para trabalhar algumas das principais questões com as crianças, uma vez que, a partir de 2025, temas como mudanças do clima e proteção da biodiversidade serão obrigatórios nas salas de aula — conforme atualização da Política Nacional de Educação Ambiental de junho deste ano.

Para entender melhor como trazer assuntos como justiça climática para o centro da roda, conversamos com Viviane Vazzi Pedro, Coordenadora-Geral para a Diversidade e Sustentabilidade de Educação Ambiental do Ministério da Educação (MEC).

“O trabalho que estamos fazendo aqui no MEC (…) é para um diálogo com a comunidade escolar e a abertura dos muros da escola para essa conversa. É também para a produção de saberes a partir dos territórios (…) e combate à desinformação climática”, declara Viviane.

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Clube Quindim

O que é a COP?

Organizada pela Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC), um órgão da Organização das Nações Unidas (ONU), a Conferência das Partes (COP) é um encontro que reúne anualmente autoridades internacionais, governantes, empresários e ativistas de quase 200 países para debater maneiras de evitar desastres climáticos e recuperar o meio ambiente.

O objetivo principal é de manter a discussão e manutenção de acordos internacionais a favor do meio ambiente, como a Carta da Terra (1992), o Protocolo de Quioto (1997) e o Acordo de Paris (2015).

Como abordar sobre os temas da COP-30 com as crianças?

1) Não dê foco às catástrofes

Você já ouviu falar em ansiedade climática? É quando um indivíduo, independente da idade, preocupa-se tanto com as questões do clima que acaba por desenvolver um quadro ansioso. Isso tem sido comum, sobretudo por conta das ocorrências cada vez mais frequentes de eventos climáticos extremos. Além disso, o fato de estarmos quase sempre conectados, com acesso rápido e fácil a toda e qualquer notícia, contribui para o aumento dessa ansiedade.

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Imagem do livro “Fio de Rio“, Anita Prades. Foto: Rodrigo Frazão

Quando lidamos com crianças e adolescentes, tudo é ainda mais delicado. Por isso, Viviane diz que é importante não trazer para esse público as catástrofes de modo isolado e descontextualizado. Um dos pilares da educação ambiental é, pelo contrário, trabalhar com exemplos de reversão, ou seja, casos que mostram como é (e foi) possível reverter quadros mais críticos de destruição. “Por exemplo, o Protocolo de Montreal (1987), que conseguiu reverter o uso de substâncias que estavam causando a perfuração da camada de ozônio”, cita a coordenadora do MEC.

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2) Considere os cuidados necessários para cada faixa etária

A teoria do desenvolvimento maturacional de Donald Woods Winnicott (1896 – 1971), pediatra e psicanalista britânico, diz que a realidade e o mundo devem ser introduzidos para as crianças em pequenas doses, em busca de um amadurecimento saudável e seguro. Quando o assunto é clima, não é diferente! Aconselha-se que pais e educadores trabalhem essas pautas respeitando o repertório e desenvolvimento de cada criança.

3) Busque aprofundar e evitar soluções muito simplistas

Ao trabalhar com as ações que cada um de nós podemos fazer, como reciclar e não desperdiçar água, é importante também explicar à criança que nossas ações não estão isoladas, mas que fazem parte de uma estrutura sistêmica e complexa, com diversos agentes com capacidade maior ou menor de influência no mundo.

Assim, apresente à criança, aos poucos, como o mundo está organizado. O que é norte e sul global? Quais países emitem mais poluentes? Quais sofrem mais? Na realidade da criança, quem são os tomadores de decisão em nível municipal, estadual e federal? Como as crianças podem estar mais próximas das esferas de poder? O que elas podem fazer para estar a par da agenda pública e reivindicar o que sua comunidade precisa?

Ao começar a entender como os mundos político e econômico funcionam, a criança compreende o real valor de reciclar e cuidar do planeta, sem se frustrar ou concluir que não há nada que possa ser feito pelo mundo.

“Então, é possível mostrar como o diálogo é importante para a revisão de princípios, mas que nem tudo está na nas mãos dessa criança ou comunidade escolar. Que ela saiba que esse plano de vida que ela tem individual está entrelaçado a uma rede de cuidados que se constrói a partir da escola e além (…). É isso que caracteriza a educação ambiental e não somente tratar do tema de meio ambiente.”

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4) Promova atividades que mostrem à criança que ela é parte da natureza

“Tudo pode ser um pretexto educativo quando a proposta é fazer com que a criança se perceba parte da natureza,” diz Viviane. Segundo a educadora, todo e qualquer momento do dia é uma oportunidade para falar sobre meio ambiente, afinal, fazemos parte dele. Por isso, provoque as crianças a pensarem como os alimentos e produtos que elas consomem foram parar em suas mãos. Como é possível produzir tamanha quantidade de cadernos e brinquedos? Por que será que, em grandes cidades, é possível encontrar para consumo a mesma fruta, mesmo que não seja a época dele?

Aos poucos, a criança passa a entender que sua rotina e o próprio corpo são parte da natureza — daí a importância do tema. Esse também é um modo dos responsáveis entenderem que meio ambiente não é assunto de determinado espectro político, mas algo inerente ao ser humano.

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5) Trabalhe a educação ambiental como um assunto multidisciplinar

Meio ambiente não é apenas pauta das aulas de ciências e geografia, mas está presente em todas as matérias, dentro e fora da escola. É importante frisar: a educação ambiental funciona quando é feita de modo sistêmico, complexo.

6) Aprenda mais sobre educação decolonial e pratique-a

Por muito tempo, as escolas brasileiras adotaram apenas abordagens eurocêntricas para explicar o mundo, mas elas não são as únicas capazes de educar uma criança — especialmente quando o tema é algo próximo ou parte do território em que vive.

COP-30 conversas sobre mudanças climáticas e proteção do meio ambiente_meio. Imagem do livro Kaaliawiri
Imagem do livro “Kaaliawiri: a árvore da vida“, de Francisco Ortiz e Ciça Fittipaldi

No caso do clima e meio ambiente, há muitos saberes indígenas, por exemplo, que dão conta de apresentar às crianças a riqueza e fragilidade da biodiversidade brasileira. É na troca de saberes com as populações tradicionais e grupos vulnerabilizados que entendemos as reais implicações das mudanças climáticas no Brasil. Por isso, busque aumentar seu repertório para conseguir apresentar às crianças essas vozes.

Muitas vezes, dentro ou próximo da comunidade escolar, há conhecimento popular riquíssimo. A proposta aqui não é trocar os conceitos internacionais pelos tradicionais, mas associá-los. O que há no território em que a criança vive que conversa diretamente com o que os livros escolares dizem?

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7) Estimule a cidadania de cada criança

“Como é que você vai criar uma cidadania ambiental, ou mesmo qualquer tipo de cidadania, sem o afeto e a integração?”, provoca Viviane. Segundo a coordenadora, é papel dos mediadores (sejam eles responsáveis ou educadores) promover atividades coletivas e diálogo entre as crianças, de modo a gerar nelas noção de pertencimento e comunidade. “É nas infâncias que a cidadania se fortalece.”

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Estante Quindim

Conheça 3 livros infantis já enviados pelo Clube Quindim aos seus assinantes que ajudam a conversar com as crianças sobre os temas discutidos durante a COP-30.

Ei voces ai ja chega CapaTransparente e1757624722415
Ei vocês aí, já chega!, de Davide Calì e Giulia Pastorino
FioDeRio CapaTransparente e1716402958307
Fio de Rio, de Anita Prades
Capa Frente Mudar o mundo transparente e1716403297309
Como mudar o mundo?, de Stela Barbieri e Fernando Vilela