“Slam Poetry” ou “Batalha de poesia”, em tradução livre para o português, é a expressão artística em que, através de poesias faladas em uma roda aberta para o público, são abordadas diferentes questões sociais, políticas, pessoais e identitárias. Cada Slam já possui uma temática previamente definida e, como em uma “batalha”, cada participante declama sua poesia. Ao fim, o público decide o vencedor.
A prática surgiu em Chicago, nos Estados Unidos, na década de 80, como uma manifestação cultural para que a poesia fosse incentivada e circulasse mais rapidamente nas cidades, passando especialmente pelas periferias. Por isso, também é considerado uma expressão artística que surge como uma resposta às culturas marginalizadas.
Muitas pessoas confundem as famosas batalhas de rima com o Slam Poetry e, embora sejam culturalmente parecidas, não são a mesma coisa. Enquanto o Slam envolve poesias faladas, que são previamente escritas e performadas, as batalhas de rima priorizam o improviso, as rimas e o “flow” dos participantes.
E você sabia que o Slam também é um espaço para crianças e adolescentes? Inclusive, projetos de Slam para crianças, muitas vezes, possuem um papel fundamental de aproximar os jovens da literatura. Por ser um espaço onde a expressão é livre e convida à leitura, muitos participantes passam a ter um contato maior com a literatura e, consequentemente, também com a escrita, após participarem das batalhas.
O slam nas escolas
Lá na EMEF Conde Carneiro, localizada na Zona Sul de São Paulo, alunos do Ensino Fundamental II participam do projeto “Slam Nossa Voz”, iniciativa da Diretoria Regional de Educação (DRE) que articula literatura, oralidade e protagonismo juvenil.
Na escola, o projeto se organiza ao longo do ano e culmina em batalhas de poesia. Mas começa muito antes: nas aulas semanais, nas atividades na sala de leitura e nos encontros específicos de Slam, realizados no contraturno.
Na sala de leitura, a professora e pedagoga Viviane Maria da Silva Mendes, mediadora da sala de leitura na EMEF Conde Carneiro e uma das organizadoras do projeto “Slam Nossa Voz”, conduz esse processo a partir de eixos temáticos — como questões de gênero, racismo, migração ou violência — que também dialogam com o calendário pedagógico da escola. A partir desses temas, ela apresenta repertório aos estudantes, com destaque para a literatura periférica e autores que dialogam com a realidade dos jovens, além de promover rodas de conversa e momentos de escuta.

Os alunos, então, desenvolvem textos autorais, podendo partir tanto de propostas sugeridas quanto de inquietações próprias. Nesse processo, são incentivados a buscar referências, dialogar com outras áreas do conhecimento e elaborar poemas que misturam experiências pessoais, crítica social e repertório literário. A professora acompanha essa construção sem interferir diretamente na escrita, atuando como mediadora: indica caminhos, amplia referências e, posteriormente, trabalha aspectos de oralidade, expressão corporal e presença de palco para a apresentação.
O percurso se completa com as batalhas internas na escola, que selecionam os representantes para as etapas interescolares, mas também funcionam como um espaço coletivo de escuta, reconhecimento e troca entre os estudantes. Em paralelo, a escola também passou a desenvolver o “Slam na praça”, que devolve a prática para as ruas e para o espaço público, de onde surgiu.
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referências que convidam
Ao longo desse processo, muitos alunos passam a se interessar pela literatura a partir de referências que, às vezes, são citadas pelos próprios “oponentes” das batalhas. Ao ouvirem uma frase ou o nome de alguma obra ou autor, a partir de uma identificação criada, os estudantes passam a querer ler mais sobre aquilo.
Alguns estudantes que se interessam em participar do Slam na Conde Carneiro, por exemplo, já são leitores. Outros, por sua vez, são curiosos pela prática e, durante o caminho e as mediações de leitura com Viviane, acabam se tornando leitores interessados.
“Vou dar um exemplo do ano passado, quando fizemos uma montagem unindo Carolina Maria de Jesus e ‘Morte e Vida Severina’. Apresentei a eles o clássico de João Cabral e eles compreenderam o conceito da ‘vida severina’; em paralelo, fizemos a leitura de ‘Quarto de Despejo’. Uma aluna, que também era do Slam, resolveu usar o termo ‘vida severina’ em sua produção. Ela se aprofundou no poema, entendeu o que aquilo significava e escreveu seu próprio texto sobre os ‘severinos’. Olha só a bagagem que ela trouxe!”, ressalta Viviane.

Em alguns casos, alunos até mais novos, por exemplo, em diálogo com os estudantes mais velhos, passam a também se interessar pela prática. Nessas situações, é claro, as obras apresentadas para a construção dos textos para a batalha também precisam ser adequadas para cada faixa etária. Aqui, a literatura infantil surge como um forte pilar; especialmente através dos livros que dialogam sobre sentimentos difíceis, questões sociais e realidades distintas.
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Regulação de sentimentos e confiança pela literatura
Na comunidade de Paraisópolis, em São Paulo, o Instituto Pró-Saber, organização sem fins lucrativos que busca democratizar o acesso à leitura, o Slam surgiu como uma iniciativa de trazer os jovens para perto da literatura através de uma prática cultural, amplamente ligada a localidade, que pudesse refletir os sentimentos e engajar as crianças dentro da comunidade.
Em atividades mediadas pela biblioteca do Pró-Saber, a prática recebe participantes de regiões como Capão Redondo, Campo Limpo, Grajaú, Real Parque, Jardim Colombo, além de cidades como Guarulhos e Mauá, realizando diferentes eventos de batalhas de rima.
Para Fernanda Renner, coordenadora pedagógica do Pró-Saber, a prática faz com que muitos participantes passem a expressar e entender as próprias ideias de maneira mais clara, além de, é claro, fortalecer outras habilidades como a escrita e a oralidade.

“Muitos chegam ao slam e acabam se aproximando da biblioteca, trazendo consigo suas próprias referências culturais e experiências de leitura. Essas crianças chegam com saberes e conhecimentos de mundo que foram construídos ao longo da vida, e isso também enriquece quem já frequenta o espaço há mais tempo”, conta a coordenadora.
Segundo ela, o compartilhamento do conhecimento instiga a busca por mais referências. “Muitas vezes eles procuram obras ou autores que ainda não conhecemos, o que nos leva a pesquisar e ampliar o acervo ou as indicações de leitura. Também acontece com frequência de um poeta ou um texto ser citado durante as batalhas, despertando o interesse de quem escuta. A partir daí, muitos jovens procuram ler mais sobre aquele autor ou sobre aquele tipo de poesia“, conta Fernanda.
identidade e autoconsciência
Através da literatura e do Slam, essas crianças e adolescentes passam a ter, antes de tudo, uma maior autoconsciência e confiança para expressarem suas ideias. Uma vez que se sentem ouvidos e representados, tudo flui mais fácil.
No Slam, a literatura periférica — aquela produzida por autores que viveram em comunidades e abordam isso em suas obras, relatando suas percepções e vivências — é um ponto crucial. No Brasil, nomes como Carolina Maria de Jesus, Férrez, Paulo Lins e Sérgio Vaz são alguns dos principais expoentes do movimento.
Isto porque através do contato com a literatura periférica, muitos jovens enxergam suas questões, medos e sonhos representados por outros autores que compartilham o mesmo tipo de vivência. E essa identificação gera um grande impacto.
“Depois que participam uma vez do slam, querem vir em todas as edições. Começam a escrever as próprias poesias sem ninguém pedir, por vontade própria. Na hora em que vão ler, leem de um jeito diferente, mais emocionado. Colocam o corpo, a emoção e os sentimentos nas leituras, como se fosse uma declamação”, explica também Lucy Maura Cardoso de Carvalho, coordenadora da Biblioteca do Pró-Saber SP.
Aqui, o objetivo não é apenas ganhar o Slam ou construir os versos mais elaboradas ou inteligentes, mas sim sentir que foi possível, durante os encontros, construir uma relação verdadeira com as palavras, a leitura e a escrita. E, posteriormente, os reflexos dessa arte se dão em diferentes áreas.

“Quem lê tem mais possibilidades de explorar diferentes linguagens, estilos e temas. Esse repertório aparece depois na escrita: na forma de pensar e também na maneira de se expressar artisticamente, como acontece no Slam”, pontua Fernanda.
Já para as crianças mais novas, o Slam também surge como uma brincadeira entre colegas, que tentam replicar rimas com réplicas e tréplicas em tom de provocação. A partir desses cenários, com aulas e leituras mediadas, é possível se aprofundar na prática e fazer com que as crianças, naturalmente, queiram ler mais sobre um tema para escreverem poemas e rimarem sobre ele.
Entrando na brincadeira que já existe, surge o caminho de estreitar os laços com a leitura e a literatura para infâncias. Além de, é claro, trazer identificação para crianças que já vivenciam realidades parecidas com algumas temáticas abordadas nas batalhas.
“Quando digo que o Slam é terapêutico, conecto essa forma de arte também à ideia de cura. Sinto os alunos mais aliviados depois que conseguem externalizar, por meio da poesia, um tema ou algo que os incomodava. E o momento do aplauso é muito especial, pois eles são aplaudidos pela coragem de expor essa dor. Como o Slam é muito forte na expressão de sentimentos, acredito que essa prática permite que eles passem por um processo de cura, pelo menos naquele momento”, conclui Viviane.
estante quindim
Conheça três livros, já entregues à Família Quindim, que dialogam sobre a pluralidade das infâncias em lugares periféricos:







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