Além da escola, os espaços de socialização infantil estão cada vez mais escassos, sobretudo nas grandes cidades. Se antes era possível brincar na rua, nos clubes, nas pracinhas ou mesmo nos condomínios, hoje as opções são reduzidas, seja pela insegurança, seja pela rotina corrida dos pais, que muitas vezes não conseguem acompanhar os filhos em atividades ao ar livre.
Nesse cenário, a socialização digital ganhou espaço. Plataformas de jogos online, como o Roblox, passaram a preencher esse vácuo, fazendo parte das conversas do recreio, das combinações entre amigos e da construção de vínculos.
Para a jornalista e educomunicadora Januária Cristina Alves, ignorar esse fenômeno não é uma opção. “A gente não pode negar que, hoje, o mundo online é, sim, um espaço em que as crianças se encontram, conversam, trocam ideias, opiniões, eventualmente brigam, como era a rua antigamente. É preciso partir do pressuposto de que esses espaços são legítimos”, afirma.

Segundo ela, especialmente em centros urbanos marcados pela falta de segurança e pela ausência de áreas livres, os ambientes digitais acabam funcionando como território de convivência. “Precisamos partir do pressuposto de que esses espaços são legítimos, sim, e as crianças podem ocupá-los”, defende. O problema é que nem sempre esses ambientes são seguros. Casos de aliciamento por meio de chats ou de exposição a conteúdos inadequados não são raros. “O ideal é que fossem espaços seguros, que possibilitassem socialização, negociação, divertimento e prazer, que são direitos da infância”, acrescenta.
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Recentemente, esse debate sobre a proteção de crianças e adolescentes virtualmente ganhou ainda mais força após o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital) entrar em vigor. O decreto busca responsabilizar plataformas e garantir ambientes mais adequados ao público infantojuvenil. O próprio Roblox passou a adotar medidas como restrições no chat para menores e sistemas de verificação de idade. “É um direito das crianças usufruir dos benefícios do universo digital, mas não a qualquer preço. Isso tem que ser feito de maneira responsável e segura”, destaca.
socialização infantil NA INTERNET: o que muda com o eca digital?
Em 18 de setembro de 2025, o presidente Lula sancionou a Lei nº 15.211/2025, referente a criação do ECA Digital. O documento é uma atualização do Estatuto da Criança e Adolescente, de 1990, para o contexto das redes sociais, jogos e aplicativos, reconhecendo o ambiente digital como um espaço central de socialização infantil e, principalmente, de exposição a riscos e a dependência.
Vale saber que, apesar do ECA digital já estar valendo, as plataformas têm seis meses para adequarem seu funcionamento. E a responsável por fiscalizar se elas estão cumprindo (ou não) com a lei é a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD).
O ECA Digital redefine como os espaços de socialização funcionam: exige verificação de idade mais rigorosa, restringe mecanismos de engajamento excessivo (como rolagem infinita e notificações insistentes) e proíbe publicidade direcionada a menores – para isso, o estatuto desautoriza a coleta de dados de crianças e adolescentes para conteúdos publicitários.
Também obriga a remoção mais rápida de conteúdos nocivos, amplia a responsabilização das plataformas, garante ferramentas de supervisão parental, proíbe loot boxes (mecanismos pagos e de recompensa) em jogos infantis e exige mais transparência sobre moderação e riscos.
Para que a fiscalização seja mais efetiva, criou-se também o Centro Nacional de Proteção à Criança e ao Adolescente, ligado à Polícia Federal, em que o objetivo é “centralizar denúncias de crimes digitais detectados pelas plataformas digitais”.

e na prática? o que muda?
Embora os ambientes sociais passem a ter uma nova legislação para o público infantil, na prática, ainda é preciso acompanhar como essas regras serão implementadas e fiscalizadas no dia a dia das plataformas. Vale lembrar que nenhuma regulação substitui a mediação de pais e cuidadores para orientar e acompanhar o uso desses espaços virtuais pelas crianças, principalmente os de jogos.
Januária lembra, por exemplo, que chats abertos em jogos já foram porta de entrada para abordagens abusivas. “Nas plataformas de jogos, os grandes perigos são essas interações. O jogar envolve conversa, troca de ideias. Então a criança tem que ser orientada de que os mesmos cuidados que ela toma no mundo lá fora são os que precisa tomar nas plataformas”, diz.
Além da segurança física e emocional, há também a dimensão econômica da exposição digital.
“A privacidade é valiosa, inclusive no sentido financeiro. É preciso explicar que esses dados são vendidos, que as fotos expõem e que há toda uma monetização desse conteúdo. Não é só jogar. A criança precisa conhecer o funcionamento da plataforma”, orienta.
Educação e diálogo, sim; proibição, nem tanto
Para a especialista, educação midiática começa cedo. “A educação digital tem que começar assim que a criança passa a ter acesso ao mundo digital, numa linguagem apropriada”, explica. Quando o assunto é controle, ela defende equilíbrio. “Quando se proíbe, se corta uma boa oportunidade de educar e dialogar”, acrescenta ela, que também não apoia a liberação irrestrita. “Não dá para largar totalmente na internet e nem dizer ‘você não vai participar’, porque isso gera exclusão. O acesso ao mundo online também promove socialização”, defende.

O caminho, segundo ela, é conhecer primeiro e depois combinar. “Como é que você vai educar para uma coisa que você não conhece? Sentar-se junto, entender como pontua, como funcionam os itens, por que as crianças se encantam tanto. Isso dá mais condição de orientar e agir com empatia.”
Depois, entram os acordos. “Se você não libera seu filho para sair a hora que quer, voltar a hora que quer, essa mesma regra vale para o digital”, lembra a especialista. E é fundamental explicar os motivos por trás dos combinados e limites. “Se eles não entenderem a razão das regras, vão achar sempre um jeito de subverter”, afirma.
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CONVERSAR FORA DA PLATAFORMA PODE SER UMA ALTERNATIVA PARA A SOCIALIZAÇÃO INFANTIL NOS JOGOS
Mesmo quando o chat é permitido, muitas famílias preferem bloquear a ferramenta interna e permitir que a interação aconteça por meios supervisionados, como o celular dos pais. As crianças gostam de conversar e jogar ao mesmo tempo, então, uma saída possível é fazer chamadas de vídeo pelo WhatsApp, enquanto a brincadeira acontece. Desta forma, dá para garantir que só terão crianças conhecidas, um grupo da escola ou do condomínio, enfim, pessoas com quem seu filho, de fato, tem contato fora da internet e pessoas que você também conhece e sabe quem são.
Para Januária, pode ser uma alternativa válida, mas não dispensa a presença real dos adultos e um cuidado atento. “Se os pais estão emprestando o celular, são ainda mais responsáveis pela supervisão. Pode ser uma oportunidade preciosa de saber o que os filhos estão fazendo”, reforça. Mais do que controlar, trata-se de participar.
o exemplo começa em casa
Por fim, a especialista chama atenção para um ponto sensível: o comportamento dos próprios adultos. “Muitos pais e educadores têm dificuldade, eles mesmos, de regular o uso digital”, afirma a educadora, que defende coerência e diálogo. “Se você trabalha usando o celular, explique para a criança. O diálogo é sempre a ferramenta mais importante na educação.”
A socialização digital existe e já ocupa um espaço importante na vida das crianças. Ela não substitui o mundo físico, mas tampouco pode ser ignorada. Entre proibir e liberar, o desafio das famílias é aprender a estar junto também no ambiente virtual, com presença, supervisão e muita conversa.
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