“A água do planeta vai acabar”. “A inteligência artificial está destruindo os empregos”. “Temos guerra por todos os lados”. “Não consigo imaginar qual profissão você terá no futuro ou como conseguirá comprar uma casa”. Se você já disse frases como essas para uma criança, ou ouviu adultos falando dessa maneira no convívio com os pequenos, é bom parar e refletir. Será que seus filhos, sobrinhos, netos ou outras crianças de convivência não estão ficando aterrorizadas por esse tipo de discurso?

Diante dos desafios enfrentados na atualidade é natural temer o futuro e, às vezes, ser vencido pelo pessimismo. No entanto, ouvir os pais ou outros adultos anunciarem os problemas de hoje como a falta de um amanhã promissor pode levar as crianças a terem pensamentos de desesperança. Por exemplo: “Se não terei emprego, casa ou planeta para viver, para onde eu vou? Não terei futuro?”.

De acordo com Marta de Oliveira Gonçalves, psicóloga, doutora em Psicologia da Educação pela PUC/SP, especialista em Psicopedagogia e Neurociência na Escola, o impacto do discurso pessimista dos adultos nas crianças é real e importante, variando conforme o nível de entendimento de cada uma, além de sua sensibilidade.

A especialista ressalta que “uma criança que escuta constantemente que a situação está difícil e complicada, vai se tornar um adolescente mais preocupado com o futuro — não é à toa que haja tanta busca por atendimento, em razão da ansiedade, quando chega a hora de escolher uma faculdade, uma profissão para seguir. Por isso, é preciso ter cuidado ao conversar com uma criança como se ela fosse um adulto. Mesmo que os pais estejam fazendo um desabafo sobre algum problema pontual, nem sempre a criança vai entender que, dali um tempo, a questão pode se resolver”.

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Foto: Canva

Um dos aspectos do pessimismo em relação ao futuro da Terra tem sido, inclusive, tema de estudos pelo mundo: de que maneira a ansiedade relacionada à crise climática afeta os jovens. Um levantamento de 2021, publicado na revista científica The Lancet Planetary Health, ouviu 10 mil pessoas entre 16 e 25 anos, de 10 países, revelando que quase dois terços delas se dizem muito ou extremamente preocupadas com as mudanças climáticas. Na pesquisa, sentimentos como tristeza, medo e ansiedade, relacionados aos problemas do clima, foram descritos por, ao menos, metade do público entrevistado.

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É possível perceber que uma criança está sendo impactada pela ideia de que o futuro está comprometido a partir de alguns sinais. Exemplos são os tipos de perguntas que elas fazem e até crises de choro para as quais a criança não quer ou não consegue dar explicação. “Pode acontecer de ela sentir algo que não consegue entender direito. E isso também pode aparecer em mudanças de comportamento, além de influenciar em doenças psicossomáticas”, pontua Marta.

A psicanalista Ana Brizon, que também é licenciada em Letras e Filosofia, além de especialista em Neuropsicopedagogia e em Neurociência e Comportamento, ainda recomenda: observar alterações no sono, em idas ao banheiro e possíveis situações que chamem a atenção durante as brincadeiras. “Também é importante manter a escola sempre como uma aliada para identificar possíveis alterações de comportamento”, diz ela. 

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atenção ao discurso e esperança no futuro

Tomar consciência de que, como adultos, podemos estar assustando as crianças ao falar sobre um futuro sombrio é um passo essencial para cuidar dos pequenos no agora, trazendo esperança para os anos que virão. “É fundamental que os pais e as famílias se conscientizem de sua responsabilidade perante o discurso que as crianças estão absorvendo. Passar o nosso pessimismo de adultos para as crianças é comprometer a capacidade delas de imaginar dias melhores”, explica Marta de Oliveira Gonçalves.

Direto do Instagram: Por que é importante não ‘desesperançar’ as crianças sobre o futuro do planeta?

Olhar para as crianças como as crianças que são faz parte desse processo. Marta alerta que as falas dos pais e das famílias sobre as problemáticas do futuro podem e devem ser ajustadas. Por exemplo: no lugar de “não sei o que vai ser de você no futuro” é possível dizer “eu tenho certeza de que você será uma pessoa muito boa para este mundo”. 

A ideia não é negar para os pequenos que os problemas relacionados ao futuro do planeta existem. “O filtro é necessário, mas não um filtro que impeça esse sujeito de entender que existe uma realidade além do ar-condicionado. É preciso fazer isso sem gerar uma alienação em relação ao que está além do ambiente controlado da casa e da escola”, esclarece Ana Brizon.

Marta complementa: “O caminho está no conversar, ouvir o que a criança pensa, entender o que ela sabe sobre o assunto. E percorrer as possíveis soluções de médio e longo prazo para as situações que vivemos. Por exemplo, pesquisar sobre os avanços da ciência para reduzir os poluentes do ar”. Ou seja, se há um problema, faça o exercício de buscar, junto com a criança, o que tem sido feito para solucioná-lo ao invés de mergulhar fundo nas sombras de determinada questão, carregando o pequeno com você.

Incentivar o imaginar durante a infância também é parte de, aos poucos, mostrar às crianças o que elas podem fazer pelo próprio futuro, assim como colaborar para que as próximas décadas do planeta sejam melhores. Para Marta de Oliveira Gonçalves, esse processo inclui que o adulto demonstre o que ele está fazendo para transformar situações ruins: “A criança tem que entender que a nossa parte está sendo feita também, porque temos esperança em dias melhores”, afirma.

A especialista alerta, além disso, para que pais e familiares cuidem de si próprios em meio ao pessimismo relacionado à realidade e ao futuro do planeta: “Se está sendo difícil de lidar, é preciso encontrar maneiras para administrar essa questão sem obrigar a criança a consumir tanto fatalismo, tanta situação complicada, tanto futuro incerto. Afinal, o futuro sempre será incerto, ninguém sabe o dia de amanhã. Mas nós, como adultos, temos que alimentar a esperança de dias melhores”.

Uma dica nesse processo é se abastecer de informações reais, checadas e que tragam esperança, como notícias, livros, vídeos e outros conteúdos. Além, é claro, de realizar ações no presente que demonstrem as possibilidades de construir dias melhores com o tempo. Um exemplo é plantar e cuidar de uma horta, alimentando a esperança por meio dos temperos, vegetais e possíveis frutos que virão dali.

Reflorestamento do imaginário
Foto: Canva

“Plantar algo é uma ação cheia de esperança. Ninguém planta com a ideia de que o mundo vai acabar amanhã. Plantamos esperando ver o que foi cultivado crescer conosco, para que possamos consumir aquele alimento daqui um tempo. Se a família não tiver espaço para uma horta, faça um vaso. Outras ideias são reciclar, economizar água e energia. Essas e outras ações comunitárias trazem sentimento de pertencimento: você, sua criança e outras pessoas, por meio dessas ações, estão cuidando do planeta, desse futuro que hoje pode ser incerto, mas que estamos tentando fazer com que melhore”, reflete Marta. “A ideia de que somos melhores trabalhando em conjunto para transformar o futuro é muito importante para uma proteção psicológica das nossas crianças”, diz ela.

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uma visita ao passado

Outro ponto que pode ser trabalhado é apresentar às crianças as transformações que o tempo já trouxe para o planeta, na ideia de que o mundo se reorganiza conforme as necessidades surgem. Vale, por exemplo, “visitar um museu para mostrar como as coisas eram e o quanto já mudou no mundo. Esse tipo de passeio, além de transformar o olhar, traz repertório cultural para a criança, o que é muito importante. Afinal de contas, a arte pode muitas vezes salvar a nossa mente”, afirma Marta.

Refletir sobre as transições já vividas na história humana, e como tais desafios foram enfrentados, é ainda uma oportunidade para que os pais revisitem as mudanças que eles próprios viram acontecer durante suas infâncias e juventudes, dividindo essa experiência com seus filhos. “Em um passado recente, viveu-se a expectativa do bug do milênio, na transição entre os anos 1999 e 2000. Houve também a suposta previsão de que o mundo iria acabar em 2012. E nada aconteceu. É possível conversar com as crianças mostrando esse passado histórico recente e refletindo sobre o que aconteceu, o que não aconteceu e como estamos hoje”, aponta Ana Brizon.

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o reflorestamento do imaginário

Refletir sobre o que pode salvar o nosso estado mental leva à ideia de reflorestamento do imaginário. Muito usada em relação à crise climática, a expressão pode ser ampliada com o propósito de repovoar a mente das crianças com esperança nos mais diversos caminhos, renovando os conceitos sobre o futuro e mantendo a atenção no fato de que a vida acontece no agora — as atitudes que tomamos hoje é que constroem as possibilidades do amanhã. 

“Nessa reflexão acerca do reflorestamento, podemos caminhar pela ideia de que plantamos a semente hoje e ela leva um tempo para se desenvolver, assim como uma árvore demora para crescer. Precisamos ter esse mesmo pensamento com as crianças. Trazer a ideia para o agora, de criar algo bom hoje, com a sementinha da esperança de um futuro diferente”, recomenda Ana Brizon.

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Como alerta Januária Cristina Alves, jornalista e escritora de livros infantojuvenis, mestre em Comunicação Social pela ECA/USP, em sua coluna “O futuro não é mais como antigamente: futurofobia x imaginação”, publicada em julho de 2025 no Nexo: “O exercício de imaginar está bloqueado pelo medo e pela desesperança, então, cabe pensar em alternativas para devolver às novas gerações o direito de imaginar, sonhar e projetar desejos e sonhos”.

Atuar para reflorestar o imaginário das crianças é quebrar com padrões de ideias e comportamentos sobre o futuro do planeta. Munidas de intenções que não estejam baseadas no pessimismo e no terror sobre o amanhã, as crianças ganham a oportunidade, a partir do hoje, de sonhar e enxergar possibilidades melhores para este lugar que habitamos e chamamos de Terra.

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Imagem do livro “Talvez você consiga” de Imogen Foxell e Anna Cunha (Pequena Zahar) | Foto: Rodrigo Frazão

A sabedoria daqueles que originalmente povoavam este pedaço de solo nomeado Brasil também traz luz para essa caminhada: “Nós, adultos, conseguimos comparar como foi o século 20 e o que está acontecendo agora no século 21. [Para as crianças] esse mundo […] é um pacote cheio de surpresa. Não podemos deixar de pensar em como as crianças de zero a 10 anos estão experimentando essas mudanças, de calor excessivo, tempestades imprevistas e outras mudanças que estão acontecendo na vida e em suas famílias, e que [elas] não sabem interpretar. Nós, adultos, sabemos. Seria muito importante pensar em como apresentar para as crianças esse admirável mundo novo que nós vamos ter que aprender a lidar, com mudanças climáticas, guerras, conflitos se espalhando pelo planeta. […] Fugir daqui é impossível”, Ailton Krenak em entrevista ao canal Francamente, de Tainan Franco, no YouTube, publicada em 27 de março de 2025.

estante quindim

Conheça três livros, já entregues à Família Quindim, que dialogam sobre ter esperança no futuro:

talvez voce consiga Capa transparente e1764344697904
Talvez você consiga, de Imogen Foxell e Anna Cunha
Cem sementes que voaram
Cem sementes que voaram, de Isabel Minhós Martins e Yara Kono
Leitura infantil. Capa do livro Irreversível
Irreversível, de Daniel Ianae e Anna Maeda