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Livros com poucas palavras são só para crianças pequenas?

Livros com poucas palavras são só para crianças pequenas_capa. Imagem do livro Minha natureza

Imagine uma criança de cerca de oito anos folheando encantada um livro ilustrado: sem pressa, ela sorri com as imagens e relê uma frase curta várias vezes. Agora, pense na reação que vários adultos teriam diante dessa cena. Você concorda que muitos diriam algo como “esse livro é para bebês”?

Imagem do livro “Minha Natureza“, de Angela Salerno. Foto: Clube Quindim

Pois é, a ideia de que quanto maior a criança maior também deve ser a quantidade de palavras no livro é comum. Assim como o pensamento de que obras com pouco ou nenhum texto são apenas para bebês e crianças bem pequenas. Mas será que a quantidade de palavras é mesmo um bom critério para definir a faixa etária recomendada de um livro infantil?

Vamos refletir e entender melhor essa questão com o apoio de Tereza Grimaldi e Julia Souto, curadoras do Clube Quindim e fundadoras da Livraria Miúda, especializada em obras para a infância. Juntas, elas vão compartilhar conosco suas experiências e trazer exemplos que comprovam como livros com pouco texto podem, sim, ser complexos, poéticos e desafiadores, inclusive para leitores fluentes e mais velhos.

Poucas palavras, muitas camadas

De maneira geral, os livros com pouco texto ainda são vistos por muitos como fáceis e simples. Para Julia, essa visão está ligada à ideia de que o livro infantil é um instrumento direto de auxílio ao processo de alfabetização e, por isso, as obras com textos curtos não ofereceriam desafio para as crianças mais velhas. Mas ela faz um alerta:

“Na verdade, vários livros-álbum, que têm textos sintéticos e combinam diversas linguagens para contar uma história, mostram-se bastante complexos, tanto na leitura combinada de linguagens, quanto no tema apresentado ou, inclusive, na poética do texto. Outro ponto importante é que esses livros possibilitam a autonomia na leitura, o que é interessante para o processo de aquisição da linguagem escrita e de identidade leitora”, explica.

Imagem do livro “A mancha“, de Guilherme Gontijo Flores e Daniel Kondo. Foto: Clube Quindim

Tereza e Julia comentam, ainda, que a linguagem escrita não deve substituir a linguagem imagética, e que, por isso, é importante que as crianças mais velhas continuem acessando livros ilustrados e exercitando a leitura de imagens, principalmente por estarmos inseridos em uma cultura tão abundante nelas. “Também é nosso trabalho (e um desafio) indicar essas outras possibilidades que o livro de texto curto apresenta”, acrescentam.

Veja também: Como educar crianças na Era da Imagem? Graça Lima responde

Histórias para além das palavras: imagem, silêncio e projeto gráfico

Aqui no Clube Quindim já abordamos vários aspectos da literatura infantil, como o tempo, o silêncio e o uso das cores. Grimaldi e Souto explicam que em um livro existe sempre uma história sendo contada, independentemente se isso se dá através da palavra, da imagem, do silêncio, ou da relação entre várias linguagens e que, portanto, a complexidade pode existir apesar desses elementos.

Imagem do livro “Crianças escondidas“, de Franco Matticchio Foto: Clube Quindim

“Acreditamos que a temática da narrativa é o que determina a relação que irá se estabelecer com os diversos públicos e faixas etárias, a partir de seus interesses e possibilidades interpretativas. Por exemplo, o Sagatrissuinorana, um livro-álbum, com pouco texto, aborda de maneira rebuscada o desastre de Mariana. O autor do texto, João Luiz Guimarães, utiliza uma linguagem inspirada em Guimarães Rosa, que é bastante sofisticada. O tema também é denso, político, mesmo que se proponha a ser uma releitura da história dos Três porquinhos, um clássico infantil”, afirma Tereza e completa: “Outro exemplo é o livro Capital, de Afonso Cruz, um livro-imagem que fala sobre dinheiro e ganância. Esses não são temas presentes no cotidiano de crianças pequenas”.

Esses são apenas alguns exemplos que mostram como a possibilidade de interpretar, compreender e dar sentido à uma narrativa está muito mais relacionada com as possibilidades de o leitor acessar as múltiplas linguagens do livro infantil – texto, imagem, silêncios, tempos, cores – do que apenas ao número de palavras contidas em uma obra.

As especialistas destacam, ainda, que os livros para as infâncias, principalmente os livros-álbum, possuem muitas camadas de leitura. “Uma criança menor, que ainda não acessa determinadas camadas, pode ter sua interpretação ancorada nas imagens apenas, enquanto que os leitores mais experientes conseguem acessar outras camadas ao fazer a relação entre o texto, as imagens e outros elementos do livro”, pontua Tereza.

O livro que cresce junto com a criança

Na Livraria Miúda, é comum ver crianças mais velhas fascinadas por livros com pouco texto, especialmente os chamados “livros para bebês”. Julia conta que muitas crianças mais velhas se demoram na leitura de livros ditos para crianças menores e que, muitas vezes, elas compreendem mais o humor das imagens, do texto e se divertem com isso. “Tem também a conquista de lerem sozinhas vários livros de uma vez. Infelizmente, não raro os adultos que as acompanham não permitem que elas levem esses livros. Mas, pelo menos, elas puderam aproveitá-los enquanto estavam na livraria”, complementa Tereza

Imagem do livro “Concerto de piscina“, de Renato Moriconi. Foto: Clube Quindim

Para os adultos que trazem questionamentos como “esse livro tem pouco texto, a criança vai achar bobo”, ou o contrário, “esse livro tem texto demais, a criança não vai querer ler”, as especialistas apresentam as obras, mostrando todas as possibilidades mais complexas que o texto combinado com as imagens produz, e fazem uma síntese da história, das diversas camadas de leitura que o livro apresenta e, principalmente, das possibilidades de conversa a partir da obra.

“Outra abordagem é a partir de como é bonita a ideia de um livro que cresce junto à criança, que ao longo do tempo vai se relacionando com ela de maneiras diferentes, descobrindo novas possibilidades de leitura e histórias. Trazendo esta perspectiva, é possível indicar um livro com mais texto para um bebê, por exemplo” explica Tereza.

Veja também: 4 dicas de como ler um livro-imagem

Mais do que contar palavras: o que verdadeiramente importa na hora da escolha

Na hora de escolher um livro infantil, é comum que os adultos perguntem quantas páginas tem, se tem muito texto, se é bem colorido e por aí vai. Para Julia e Tereza, essas não são as perguntas mais importantes: na Livraria Miúda, o foco é outro.

“O critério da idade é importante, mas não é o único e, muito menos, o principal. Quando entram na Miúda, as nossas primeiras perguntas são: quais são os interesses da criança, o que ela gosta de ler, qual é a conversa que a família quer promover com ela, entre outros. A partir dessas referências é que pensamos nos livros para indicarmos, daí podemos apresentar livros com mais ou menos texto”, explica Julia.

Imagem do livro “O passeio“, de Pablo Lugones e Alexandre Rampazo. Foto: Clube Quindim

A idade da criança é considerada, mas não como um limitador rígido. Algumas obras podem ter estruturas ou temas mais complexos, mesmo com pouco texto, e isso também é levado em conta na hora da indicação. “Alguns livros, independente da quantidade de texto, apresentam ideias ou estruturas mais complexas, que talvez ainda não possam ser acessadas para determinada faixa etária. Levamos isso em consideração também ao pensar nas nossas indicações”, complementa Tereza.

Livros para todas as idades e todas as leituras

A ideia de que livros com poucas palavras são apenas para crianças pequenas ainda é forte, mas está começando a mudar. Julia observa que especialmente nas pessoas que frequentam livrarias, que assinam clubes de livros, têm acesso a uma boa curadoria de livros infantis e entram em contato com toda bibliodiversidade de publicações para as infâncias é possível perceber uma aproximação do livro infantil e um deslocamento dessa ideia utilitária do livro e da leitura, ou seja, da ideia de que a literatura obrigatoriamente precisa ter uma função, como a de ensinar alguma coisa.

“A existência de cursos de pós-graduação e tantos cursos livres sobre livros-álbum tem ajudado também a formação desse público com um novo olhar. Mas ainda é bem incipiente. Para a maior parte do público essa ideia ainda é muito forte”, afirma Tereza.

Imagem do livro “O melhor dia da minha vida“, de Letícia Graciano. Foto: Clube Quindim

No fim das contas, não é a quantidade de palavras que determina a profundidade de uma leitura ou a adequação de uma obra a uma determinada faixa etária, mas sim a maneira como o livro se comunica com quem o lê, seja por texto, imagem ou silêncio.

Os bons livros infantis são feitos para acompanhar a criança por muito tempo, promovendo reencontros em diferentes fases da vida que, certamente, vão gerar novas interpretações e reflexões conforme o leitor for ganhando repertório.

Nesse sentido, Julia acredita que “apostar em livrarias especializadas, bibliotecas, clubes de assinatura e formação de professores pode ser um caminho importante de valorização do livro pelo livro. Do livro para todas as idades!”, finaliza.

Estante Quindim

Conheça outros três livros com poucas palavras que o Clube Quindim já enviou às crianças de diferentes faixas etárias.

A mãe da mata, de Maickson Serrão e Chico Santos
Ximlóp, de Gustavo Piqueira
Museu, de Manuel Marsol e Javier Sáez-Castán
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