Em junho, os assinantes do Clube Quindim entram em contato com um tema complexo: a ditadura. Através dos livros Ordem, de Leusa Araujo e A Manhã Marrom, de Franck Pavloff e Mariana Zanetti, as crianças a partir de 9 anos podem refletir a respeito de regimes autoritários e seus impactos.

Abordar o assunto é uma tarefa difícil e, para muitas famílias, falar sobre política ainda pode ser um tabu ou um tema complexo, especialmente quando envolve um período marcado por traumas e sofrimentos. Então, será que é realmente necessário tratar disso com os pequenos?

Para Ana Maria Dietrich, sim. Doutora em história, professora da Universidade Federal do ABC, especializada em nazismo, com estudos conduzidos no Brasil e na Alemanha e dois livros publicados, Dietrich, mãe de uma menina de 11 anos, diz que a maternidade é um desafio ainda maior do que o trabalho acadêmico — e incentiva que os pais tenham conversas difíceis com seus filhos desde a infância.

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todos deveriam saber sobre ditaduras, especialmente a brasileira

“Lembrar é um ato político”, declara Ana no início da entrevista. “A memória é muito importante para entender as realidades históricas e compreender que há uma herança”, complementa. Compreender melhor o passado é imprescindível para que a gente possa analisar criticamente o presente e traçar caminhos para o futuro. “Hoje a gente vive um período democrático, mas nossa democracia ainda é um bebê, com vários períodos de exceção”, pontua.

Ana frisa que é muito importante que as pessoas entendam o que acontece quando as luzes da democracia se apagam. “Nossos direitos políticos e sociais são conquistas, adquiridos graças a muita luta”, frisa.

É imprescindível refletir sobre o quanto você tem se aprofundado sobre o tema. O quanto consome de informação através de livros, filmes, reportagens, exposições e até mesmo em conversas com pessoas mais velhas. Afinal, antes de conversar com as crianças sobre ditadura, é muito importante que os adultos estejam bem informados e preparados para as perguntas que irão surgir sobre o assunto.

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ok, me preparei… mas ditadura é mesmo assunto de criança?

Hoje, uma parte da sociedade se mostra saudosista em relação à ditadura civil-militar que governou o Brasil entre 1964 e 1985. Nesse cenário, as crianças e adolescentes estão estrategicamente na mira – e podem entrar em contato muito cedo com discursos extremistas, especialmente através da internet. “Se as crianças não aprenderem sobre o valor da democracia, sobre o quanto ela é preciosa para as nossas individualidades, para a gente crescer enquanto sujeito e cidadão, há um perigo constante”, aponta Ana.

conversar com as crianças sobre ditadura
Foto: Canva

Uma criança que não sabe o valor da democracia, não sabe o valor de cada direito que ela tem, pode se sentir fascinada por discursos fascistas e nazistas. Essas correntes têm uma força avassaladora, que conquista corações e mentes” — Ana Maria Dietrich, doutora em história, professora da Universidade Federal do ABC

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A historiadora frisa que, dentre outros aspectos, os fascismos encantam as pessoas pela facilidade do discurso. Se um líder não pode ser contrariado, tudo que ele diz se torna verdade. Assim, seus seguidores não precisam encarar o esforço de refletir e contestar, o que acaba gerando um sentimento de conforto. 

Mentes em estágio de formação são terreno fértil para tais ideologias. Na Segunda Guerra, crianças e adolescentes foram fortemente doutrinados pelo nazismo e ganharam destaque em divisões de batalha. A chamada Juventude Hitlerista era conhecida pela devoção fanática ao regime. Aquele era um cenário extremo, muito diferente do que temos hoje no Brasil. Mas essa realidade histórica mostra que discursos perversos podem ser assimilados por cérebros muito jovens, moldando a personalidade desde a infância. 

extremismo na internet e as crianças na mira

Os discursos extremistas podem chegar às crianças tanto por meio da socialização em redes digitais e jogos online quanto nos momentos em que a internet vira instrumento para sanar dúvidas e expandir o conhecimento sobre algum assunto. E isso requer muita atenção dos adultos responsáveis.

A internet sempre está pronta para “responder perguntas”, mas há uma infinidade de fontes de informação. Muitas delas divulgam opinião como se fosse fato e os propagadores de discursos extremistas estão cada vez mais letrados nesse jogo de distorção. 

Mãe de uma pré-adolescente, Ana não faz rodeios para dizer que é impossível vencer a batalha contra a rapidez e a vastidão das informações encontradas na internet. Mas isso não significa que os pais devem parar de tentar. “Hoje as crianças são muito tecnológicas, entendem sobre tecnologia e usam isso contra a autoridade dos pais. Para nós é um constante desafio. Mas eu acho muito importante tentar o diálogo, mesmo que exista todo um aparato tecnológico contra você”.

como conversar com as crianças sobre ditadura
Foto: Canva

Direto do Instagram: Como criar, na prática, meninos mais respeitosos e não violentos?  

Desde cedo, conversas francas sobre assuntos complexos ajudam a criar vínculo e confiança. Ao ver que a criança está consumindo conteúdo nocivo sobre questões políticas, pergunte sobre como ela se sente a respeito daquilo. Escute antes de contestar, mas assuma uma posição firme para esclarecer fatos, desmentir dados falsos e preencher lacunas.

Ana também menciona a importância das redes de apoio. Cita acompanhamento psicológico e a proximidade dos pais com as instituições de ensino. “A escola do seu filho está só valorizando a tecnologia ou tem um discurso humanista?”, indaga. 

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e como, na prática, falar sobre ditadura com crianças?

“Um caminho que eu gosto muito é o da arte”, diz a historiadora. Ela indica o filme brasileiro O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias. Dirigido por Cao Hamburger, que também é coacriador de Castelo Rá-Tim-Bum, o longa fala sobre a ditadura pela ótica de uma criança de 12 anos. Lançado em 2006, tem classificação indicativa de 10 anos e está disponível na Netflix.

Alguns filmes de aventura e fantasia também podem iniciar bons debates. Jogos Vorazes mostra um grupo de adolescentes que precisa enfrentar a crueldade de um regime ditatorial. Por conter cenas violentas, a franquia tem classificação indicativa de 14 anos no Brasil. É possível assistir aos longas através do Prime Video.

Um dos maiores clássicos de aventura espacial, Star Wars também mostra um grupo de heróis tentando combater o governo extremista que comanda a galáxia. A saga conta com onze filmes principais, dois derivados e uma animação, cujas classificações indicativas variam entre livre (na animação), 10 e 12 anos. O universo da franquia também se estende para séries (animadas e em live-action) que são recomendadas para expectadores entre 10 e 14 anos, a depender da obra. Esse conteúdo pode ser encontrado no Disney+.

Ana também fala sobre músicas referentes à ditadura. Ela conta que, recentemente, sua filha demonstrou interesse pela letra de Cálice, composta por Chico Buarque e Gilberto Gil em 1973. A versão que chegou à menina foi a que Pitty gravou em 2011. A música usa a sonoridade da palavra “cálice” para falar sobre o silêncio imposto pela ditadura (transformando em “cale-se”) e faz um convite à reflexão. “É um jeito sutil e delicado de tratar do assunto, mas que tem um discurso muito poderoso”, acredita. 

O mesmo vale para a literatura para as infâncias que também é uma maneira primordial de dialogar sobre assuntos difíceis com as crianças, inclusive a respeito de regimes ditatoriais. No mês de junho, essa percepção é fortalecida com a entrega do livro Ordem, que conta a história de Doca, um menino que cresceu durante os anos da ditadura militar no Brasil. Enquanto do lado de fora o cenário político é cruel e violento, vista por dentro sua infância é atravessada por silêncios, regras e “pequenos grandes” medos cotidianos.

Os assinantes de 9 a 12 anos, que recebem dois livros por mês, também recebem A amanhã marrom. Nesta obra, em meio às trivialidades do dia a dia, um novo regime começa a impor algumas regras absurdas a uma sociedade. Não são mais permitidos cães e gatos que não sejam da cor marrom, jornais que questionaram isso foram fechados, e livros foram banidos. O que virá depois?

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Imagem do livro ‘A manhã marrom’, de Franck Pavloff e Mariana Zanetti | Foto: Rodrigo Frazão

Para além de todas essas formas de arte e cultura, “às vezes, contra discursos extremistas e fascistas, é preciso jogar um papo reto”, defende a historiadora. A depender da idade da criança e do conteúdo com o qual ela está tendo contato, uma conversa sem rodeios — respeitando, claro, a maturidade e compreensão de cada criança — pode ser necessária. 

trazendo a política e história para perto da criança

Outra maneira interessante de abordar a ditadura é pedindo a ajuda de uma pessoa mais velha e ligada à criança, alguém que tenha memórias do período. Através de histórias pessoais, contadas por uma figura com vínculo afetivo, a criança pode assimilar melhor o tema.

E há fatos políticos que possibilitam ligações com a realidade da criança. O debate sobre a escala 6×1 é um bom exemplo disso, afinal, dois dias de folga possibilitam que pais e filhos tenham mais tempo juntos. “O tema da 6×1 abre espaço para uma conversa sobre desigualdades. É muito importante abordar isso com as crianças”, aponta Ana.

Outro assunto intimamente relacionado é o do meio ambiente – algo que a gente sempre aborda no Clube Quindim. Quem está batalhando pela preservação ambiental nos dias de hoje? Quais são as correntes políticas que tais pessoas seguem? Faz todo sentido chamar a atenção da criança para essa realidade, reforçando a importância da preservação da natureza e do apoio a ambientalistas.

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apontando caminhos de esperança

Ao trazer temas tão delicados para perto da criança, também é preciso ter em mente o peso do contato com essa pauta. A ideia não é gerar ansiedade e angústia, mas inserir a criança como sujeito do debate, adaptando a conversa à faixa etária e à realidade de cada um. Também é fundamental oferecer ferramentas que ajudem na elaboração — como um canal de diálogo embasado e acolhedor, além de acompanhamento psicológico. 

Ana frisa que é importante mostrar à criança que ela faz parte da construção de um mundo melhor. Para não jogar um peso de responsabilidade sobre os pequenos, devemos reforçar que somos todos agentes de mudança. O trabalho é coletivo e contínuo.

Nesse cenário, um dos principais pilares é a defesa inegociável dos valores democráticos. E assimilar isso desde cedo é o melhor jeito de encontrar caminhos esperançosos, em que cada cidadão pode fazer a diferença.  

estante quindim

Conheça três livros, já entregues à Família Quindim, que dialogam sobre regimes ditatoriais:

PapaiVotouHitler CapaTransparente e1730206214163
Papai, por que você votou no Hitler?, de Didier Daeninckx e Pef
A manhã marrom
A manhã marrom, de Franck Pavloff e Mariana Zanetti
Ordem CapaTransparente e1782233167249
Ordem, de Leusa Araújo