Pense no seu círculo de amigos. Existem aqueles que chegaram na sua vida de repente ou por acaso. Outros parecem existir desde sempre e ocupar um lugar cativo no seu coração, ainda que a rotina não permita que vocês se encontrem tanto quanto gostariam. Se tiver sorte, talvez algum deles tenha dividido a caixa de areia no parquinho com você. Talvez vocês tenham aprendido a andar de bicicleta juntos. Talvez se lembrem de histórias que aconteceram no recreio, em aniversários e nas tardes de brincadeiras. Vocês cresceram, mas, com o tempo, acumularam uma coleção de lembranças compartilhadas, memórias que ajudam a contar quem são.
É em histórias assim que a gente pensa, quando lê “Hoje tem festa na casa de Guiomar Celeste” (Editora Joaquina), de Kelly Alonso Braga. Dá uma vontade de ser um dos convidados desse encontro… No livro, uma turma de amigos de longa data prepara uma festa surpresa para Guiomar Celeste, que está completando 85 anos. Tem bolo, brigadeiro, cajuzinho, música, poesia e sucos para todos os gostos. Tem até ausência, reclamação e choro. Mas o principal é que tem muito amor, muita cumplicidade e muita gente que conhece cada pedacinho do outro – e acolhe todos eles.

De uma forma muito divertida e carregada de memórias afetivas, a obra mostra uma reunião entre um grupo de amigos que atravessaram décadas lado a lado. São aquelas amizades que acompanham diferentes fases da vida, com todos os risos e também todas as lágrimas que acontecem no percurso. É difícil mensurar o valor desses laços que começam na infância ou na adolescência e seguem até a maturidade.
Se você tem amigos assim, certamente torce para que vocês também possam fazer uma festa como a de Guiomar Celeste um dia. E mais: espera que seus filhos possam também experimentar relacionamentos tão verdadeiros e duradouros, com quem tenha o privilégio de compartilhar as surpresas e os percalços da vida. Mas, afinal, o que será que torna uma amizade de longa data tão especial? E como os pais podem ajudar as crianças a construir vínculos profundos, sem criar a expectativa de que eles precisem durar para sempre?
amigos de longa data: o valor de crescer junto
As amizades da infância acompanham algumas das maiores descobertas da vida. São elas que dividem e testemunham as primeiras conquistas, os medos, as brincadeiras inventadas, as mudanças e as transformações que acontecem à medida que a criança cresce. Mas o papel desses vínculos vai muito além de colecionar memórias felizes. É na convivência com outras crianças que aprendemos algumas das habilidades mais importantes para a vida em sociedade.
“Os primeiros processos de socialização acontecem com os adultos e com os irmãos, mas, depois, especialmente na escola, eles passam a ser fundamentais para o desenvolvimento das habilidades sociais e, para além disso, para o desenvolvimento de uma identidade e de uma noção de alteridade“, explica Bruno Mäder, coordenador do curso de Psicologia da Faculdades Pequeno Príncipe (FPP-PR). “É ali que a criança aprende a lidar com o outro, com os desejos do outro, com as dificuldades do outro, com os desencontros e os encontros que o outro pode trazer”, acrescenta.
Ou seja, é entre os pares que a criança começa a descobrir que o mundo não gira ao seu redor. Ela aprende que precisa esperar sua vez, negociar as regras da brincadeira, lidar com frustrações, reparar um conflito e reconhecer que o outro também tem desejos e necessidades. “No núcleo familiar, existe um olhar especial de cuidado, de tolerância e de negociação. Já na relação com crianças da mesma idade, especialmente na primeira infância, elas têm dificuldade de regular o próprio ponto de vista e o do outro. Encontrar essas limitações é fundamental para o desenvolvimento da identidade e da percepção do outro”, afirma.

Quando essa convivência acontece ao longo do tempo, surge outro benefício importante: a sensação de continuidade. Como ainda estão desenvolvendo a capacidade de compreender conceitos abstratos, as crianças encontram segurança nas pessoas, nos lugares e nas rotinas que se tornam familiares. Voltar a encontrar os mesmos amigos, compartilhar brincadeiras e reconhecer aquele grupo como seu ajuda a compreender e a organizar o mundo ao redor.
“Como as crianças têm uma imaturidade cognitiva, a concretude do ambiente é fundamental para essa organização mental. Encontrar-se rotineiramente com os mesmos amigos auxilia no processo de reconhecimento de si, da rotina e do espaço onde ela se sente segura”, explica Mäder. “Uma pessoa que me conhece, percebe como eu respondo às suas demandas e pode me deixar confortável e seguro”, detalha.
Mas o especialista faz uma ressalva importante: o valor das amizades não está simplesmente no tempo que elas duram. “Antes de falar dos benefícios das amizades duradouras, é importante lembrar que elas precisam se transformar ao longo do tempo”, diz. “A criança que tinha um melhor amigo na educação infantil não necessariamente terá o mesmo melhor amigo no ensino fundamental. As relações passam por fases e amadurecimentos”, observa. A própria criança e o próprio amigo, ainda que sejam os mesmos, se transformam tanto, que é como se tornassem pessoas diferentes, conforme crescem e atravessam novos momentos da vida. O segredo das amizades duradouras é compreender e respeitar isso.
Nem sempre os mesmos amigos serão mantidos. Para o psicólogo, o que fortalece o desenvolvimento é a construção de relações em que exista confiança suficiente para experimentar quem se é. “Em uma relação mais íntima e espontânea, a criança sente mais liberdade para trocar ideias, falar sobre questões que talvez não contasse para outras pessoas, brincar de maneira mais solta e até exagerar um pouco, sabendo que o colega não vai ridicularizá-la. A amizade cria um espaço de experimentação”, explica. “Esse benefício não vem necessariamente do tempo, mas da proximidade e da espontaneidade da relação”, completa. Mas a convivência constante e duradoura naturalmente facilita isso, na maioria dos casos.
Nem toda amizade dura para sempre — e tudo bem!
Pessoas que conhecem nossas histórias, lembram de versões antigas de quem fomos e continuam ao nosso lado, mesmo depois de tantas mudanças, são uma preciosidade. Mas amizades como as que aparecem em “Hoje tem festa na casa de Guiomar Celeste” não se mantêm só porque atravessaram décadas (embora este seja um feito e tanto!). Elas continuam firmes porque encontraram espaço para crescer, mudar e acompanhar as transformações de cada um.
Na infância, esse processo acontece o tempo todo. As brincadeiras e os interesses mudam. Alguém que passava horas inventando histórias pode descobrir uma nova paixão pelo esporte, pela dança ou pelos livros. Novos colegas chegam, outros se afastam naturalmente. E isso não significa que as amizades anteriores tenham sido menos importantes. “Essa dimensão do fracasso me parece muito mais uma expectativa dos adultos do que das crianças”, observa Mäder. “Quando os pequenos percebem que uma amizade esfriou, normalmente não vivem isso como um fracasso”, avalia.
Segundo o psicólogo, os adultos costumam idealizar mais as amizades antigas do que os próprios filhos. As crianças, em geral, demonstram de forma muito espontânea quando uma relação continua fazendo sentido ou quando deixou de fazer. “Elas mostram interesse ou desinteresse. Se não querem mais brincar com determinada criança, costumam procurar outras atividades ou outros colegas. São muito transparentes nesse aspecto”, explica.
Isso não significa, porém, que qualquer afastamento deva ser tratado com naturalidade. Quando uma criança passa a evitar sistematicamente a escola, a casa de um amigo ou demonstra uma mudança brusca de comportamento, vale investigar o que está acontecendo. “Quando ela diz que não quer ir para a casa de alguém ou não quer ir para a escola, é preciso olhar com bastante atenção. Muitas vezes pode haver algum tipo de bullying ou outro constrangimento”, alerta o especialista.
Direto do Instagram: O que fazer quando seu filho machuca outra criança?
Nas situações em que o afastamento acontece simplesmente porque a vida mudou de direção, os pais podem ajudar os filhos mostrando que algumas pessoas permanecem para sempre e outras deixam presentes igualmente valiosos. Para isso, o psicólogo sugere recorrer às próprias histórias. “Como a criança ainda tem dificuldade com conceitos muito abstratos, ajuda muito contar experiências concretas. Dizer: ‘Quando eu era criança, também tive um amigo de quem gostava muito. Depois ele mudou de cidade, senti falta, fiz novos amigos, continuamos conversando…’. Essas experiências ajudam a criança a compreender que as relações podem mudar sem que isso diminua a importância do que foi vivido”, orienta.
O bom é que hoje temos mais possibilidades de continuar conectados, ainda que à distância. Nem sempre é a mesma coisa, mas dá para matar a saudade de vez em quando.
o papel dos pais nas amizades: incentivar sem controlar
Se as amizades, seja qual for o tempo que elas duram, ajudam a criança a construir sua identidade, qual é, então, o papel dos adultos nesse processo? Os pais não conseguem escolher os amigos dos filhos, nem deveriam tentar fazer isso, reforça Mäder. O que eles podem fazer é observar, acolher e ajudá-los a compreender o que estão vivendo.
Essa participação começa desde cedo, criando oportunidades para que as crianças convivam com pessoas de quem gostam. Marcar um encontro com um colega que mudou de escola, convidar um amigo para brincar em casa ou simplesmente reservar tempo para que essas relações aconteçam são formas de mostrar que a amizade também merece espaço na rotina.

Quando a criança muda de escola ou de cidade, esse cuidado se torna ainda mais importante. Além de enfrentar novos desafios acadêmicos e um ambiente desconhecido, ela precisa reconstruir seu círculo de convivência. “Nesses processos de mudança, os pais precisam estabelecer uma relação de abertura para que a criança possa trazer espontaneamente as dificuldades que está vivendo, sem medo de ser punida ou de chateá-los”, explica o especialista.
Compartilhar histórias da própria infância, como a insegurança ao chegar a uma escola nova ou a saudade de um amigo que ficou para trás, também pode ajudar os filhos a perceberem que esses sentimentos são naturais. Além disso, a relação e a convivência dos pais com os próprios amigos e o espaço e o valor que eles dão a esses laços também ensinam muito. As crianças estão sempre observando e aprendem a socializar no mundo, pelos modelos que são apresentados a elas.
Para Mäder, o maior desafio talvez seja encontrar um equilíbrio: estar por perto sem assumir o controle da vida social dos filhos. “Os pais têm uma função muito de retaguarda”, resume. “A criança tem desejos, vontades e capacidade de lidar com suas relações. Em vez de decidir por ela quem pode ou não ser amigo, cabe aos adultos oferecer apoio para que ela consiga interpretar o que está vivendo e tomar suas próprias decisões”, acrescenta.
Leia também: Existe amizade tóxica na infância?
espaço para novos encontros
O psicólogo faz um alerta: cultivar amizades antigas é importante, mas não significa fechar as portas para novas relações. Pelo contrário. Conhecer pessoas diferentes, com histórias, famílias, culturas e modos de viver distintos amplia o olhar da criança sobre o mundo e sobre ela mesma.
“É importante que a criança tenha amigos de diferentes espaços, da escola, da rua, do condomínio, do esporte, e conviva com pessoas diversas. Isso fortalece a tolerância e a capacidade de acolher o outro. Além de contribuir para a sociedade que queremos construir, também prepara essa criança para a vida adulta, quando precisará conviver e trabalhar com pessoas que pensam de maneiras diferentes”, lembra o psicólogo.
Outro ponto a que os pais precisam ficar atentos é aos excessos na agenda. Às vezes, as crianças fazem tantas atividades, que mal sobra tempo para as amizades acontecerem. “O ócio é fundamental para a infância“, defende o psicólogo. “As crianças precisam de momentos sem uma atividade dirigida para experimentar pensamentos, sentimentos, criar fantasias, brincar, desenhar, subir em uma árvore, ler ou simplesmente inventar o que fazer”, destaca. É justamente nesses espaços menos controlados que muitas amizades se fortalecem e que as crianças aprendem, por conta própria, a negociar brincadeiras, resolver pequenos conflitos e criar memórias em comum.
Algumas amizades atravessam uma vida inteira, enquanto outras terminam, outras vêm e vão. O importante é que quando as relações florescem com afeto, respeito e liberdade, todas deixam marcas que nos tornam quem somos.
estante quindim
Conheça três livros, já entregues à Família Quindim, para dialogar com as crianças sobre amizades:








Amigos de longa data: como ajudar as crianças a cultivarem amizades duradouras
10 motivos para você parar de se sentir insuficiente
12 livros que instigam brincadeiras criativas entre as crianças