Por conta do mau comportamento da torcida, a Federação Paulista de Futebol (FPF) precisou proibir a presença da torcida nas arquibancadas em um campeonato. Notícias como esta não são assim tão raras no futebol. O agravante é que, neste caso, os jogos eram entre crianças menores de 12 anos e o público que ultrapassou limites a ponto de precisar ser banido era composto principalmente pelos pais delas.

Os adultos criaram um ambiente tão hostil, que fizeram crianças deixarem o campo chorando, uma cena que pode parecer chocante para alguns, mas que é dolorosamente familiar para quem trabalha ou participa de competições infantis. E que, inevitavelmente, nos faz questionar: onde estão os limites dos pais nas competições infantis?

E nem estamos falando apenas de futebol, um esporte que costuma exaltar paixões. Além de ocorrer em outras modalidades esportivas, acontece ainda em diversas atividades que envolvem competição, como apresentações de dança, de música, provas acadêmicas, olimpíadas escolares… Mas, afinal, por que tantos adultos acham que podem agir de forma agressiva diante das crianças? Por que eventos como jogos esportivos parecem legitimar comportamentos que jamais seriam tolerados na porta da escola, no condomínio ou em uma festa infantil?

 limites dos pais nas competições infantis
Foto: Canva

Para o psicólogo e profissional de educação física Anderson Ricardo Malmonge Barbosa Luciano, doutor em Psicologia do Desenvolvimento e Aprendizagem pela Universidade Estadual de São Paulo (Unesp), o ambiente esportivo reúne variáveis que criam uma combinação de fatores emocionais, sociais e culturais que favorece esse tipo de comportamento. É como se o clima competitivo, a adrenalina e a sensação de urgência abrissem uma brecha para que os adultos se sintam quase automaticamente autorizados a expressar sentimentos que, em outros contextos, manteriam sob controle.

O especialista destaca que o “modo torcedor” não surge do nada. “Muitas pessoas crescem assistindo a jogos onde xingamentos e agressividade são vistos como ‘parte da torcida’, e acabam reproduzindo essa lógica sem refletir”, afirma. Aí, é só a bola rolar para que muitos pais esqueçam completamente que estão diante de crianças — não de atletas profissionais, que estão habituados a lidar com pressão, gritos e ofensas públicas.

O campo de jogo não suspende a ética”, diz Anderson. Ainda assim, muitos adultos agem de forma totalmente descontrolada e quem acaba pagando o preço disso são as crianças, na maioria das vezes, os próprios filhos. 

O ambiente agressivo e hostil é capaz de causar efeitos a curto e longo prazo. “Os impactos podem ser profundos e aparecem de várias maneiras”, aponta o especialista. As crianças que são alvo direto dos ataques, por exemplo, são inundadas por sentimentos de “vergonha, medo, ansiedade, confusão e até perda de prazer pela atividade esportiva”.

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Os pequenos que corriam pelo simples prazer de jogar e brincar passam a associar o esporte a tensão, humilhação e medo de errar. Algumas crianças começam a desejar que o treino acabe logo; outras inventam dores para faltar. Algumas que eram apaixonadas e se sentiam felizes praticando a modalidade acabam abandonando a atividade, não por perder o interesse, mas por não sentirem segurança dentro daquele ambiente. A alegria e o gosto são substituídos pelo receio e pela ansiedade

As crianças que estão apenas assistindo a uma competição também podem sofrer consequências. Isso porque, ainda que não sejam alvo dos gritos, elas acabam absorvendo a ideia de que o esporte é hostil e perigoso. “Isso reduz o senso de segurança, gera tensão física, aumenta a ansiedade pré-jogo e pode até levá-las a desenvolver comportamentos agressivos semelhantes, como forma de ‘se adequar’ ao clima emocional do ambiente”, afirma o psicólogo. “Elas podem chorar, somatizar, se isolar, ou, no extremo oposto, reagir com explosões de raiva”, explica. 

Há quem considere esse tipo de reação um exagero. Longe disso. O especialista explica que são respostas fisiológicas à sensação de ameaça — algo que jamais deveria existir, sobretudo em um espaço destinado ao desenvolvimento infantil. “Tudo isso pode comprometer a saúde psicológica e social e o desenvolvimento saudável, tanto no esporte, como fora dele”, observa.

Como ensinar crianças sobre a aceitação do perder_meio. Menino triste com bola de futebol
Foto: Canva

um exemplo a não ser seguido

Você já ouviu uma criança xingando o árbitro, provocando adversários ou agindo com agressividade na torcida ou dentro das competições? Para quem acredita que “é assim mesmo” ou que “isso é normal, faz parte jogo”, Anderson é categórico ao dizer que não, não é. “As crianças aprendem observando os adultos”, afirma. “Quando um adulto grita, ofende, acusa ou desrespeita alguém, a criança entende que aquele comportamento é aceitável naquele contexto. Ela entende que pode reproduzi-lo”, acrescenta. 

Como profissional de Educação Física, que trabalha há anos com famílias, atletas e instituições esportivas, Anderson reforça que as crianças não inventam a violência — elas a copiam. “Nas competições, isso é ainda mais sensível, porque a criança está em um estado de ativação emocional elevado. Se ela vê o adulto perder o controle, é muito provável que internalize esse padrão como resposta natural ao estresse, ao erro ou à frustração”, diz ele. 

o que leva um adulto a perder o controle nesse tipo de situação?

A paixão pelo esporte e até o envolvimento emocional ao torcer pela vitória do filho podem fazer com que os pais se excedam nas reações. Mas estas não são as únicas explicações para a perda de controle. Segundo o psicólogo, alguns fatores emocionais ajudam a explicar por que mesmo pessoas que são mais calmas no dia a dia podem ultrapassar todos os limites na arquibancada. “A intensidade não vem apenas a competição esportiva, mas também vem da história emocional que cada adulto traz consigo”, diz ele. 

Quando os adultos perdem o jogo: onde estão os limites dos pais nas competições infantis?
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Em muitos casos, há componentes emocionais mais profundos, como:

  • Projeção: pais que depositam nos filhos sonhos que não realizaram;
  • Frustração acumulada: o esporte virar uma forma inconsciente de “compensar” falhas, dificuldades pessoais ou insatisfações de vida;
  • Desejo de reconhecimento: ver o filho vencer ativa sentimentos de orgulho e pertencimento;
  • Competitividade deslocada: alguns adultos tratam o jogo infantil como se fosse uma extensão de suas próprias disputas internas;
  • Fronteiras familiares difusas: quando se dá dentro de um ambiente é saudável. Por isso, ele defende que treinadores e instituições também participem da orientação não apenas às crianças, mas às famílias. O objetivo não é controlar pais e sim proteger crianças.

Para isso, Anderson explica medidas simples e eficazes de colocar em prática:

  • Regras claras para a arquibancada: o que é permitido e o que não é;
  • Reuniões iniciais de alinhamento: explicando valores, limites e expectativas;
  • Códigos de conduta: assinados por pais e responsáveis;
  • Intervenções pontuais: conversas privadas quando alguém ultrapassa o limite;
  • Educação contínua: palestras, comunicados, e rodas de conversa.]
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Os limites dos pais nas competições infantis: UMA LINHA TÊNUE

Apoiar e torcer pelo filho, seja em um esporte ou em qualquer outra atividade da preferência dele, é diferente de sufocar, projetar os próprios desejos e pressionar a criança. Mas, às vezes, nos momentos de entusiasmo, diferenciar pode ser difícil. Um dos pontos principais nesse sentido é focar no processo e não no resultado. Pergunte: “Você se divertiu” ou “O que aprendeu hoje?”. “Isso ensina que o valor não está em ganhar, mas em viver a experiência”, diz o especialista. 

Além disso, ele reforça a importância de validar os sentimentos, para ajudar as crianças a entenderem que elas podem errar, se frustrar e tentar de novo. Os pais precisam ter cuidado com as críticas. “Conversas sobre ajustes ou erros podem ocorrer, mas com calma e em um ambiente seguro”, explica. Reforçar o esforço, a coragem, a evolução e a dedicação — e não apenas as vitórias ou conquistas — também ajuda. 

Um dos pontos que talvez seja o mais desafiador para alguns pais é a importância de ser um modelo positivo. “A forma como o adulto reage a erros e derrotas ensina mais do que qualquer discurso”, afirma. “Quando os pais entendem que o objetivo principal é formar uma criança saudável, segura, ética e feliz, e não um pequeno campeão, a relação com o esporte se transforma”, resume Anderson. 

ESTANTE QUINDIM

Conheça três obras, já entregues à Família Quindim, que dialogam com sentimentos que podem surgir durante as competições infantis, como a raiva e a frustração:

A Raiva (escritora Blandina Franco, ilustrador José Carlos Lollo, editora Pequena Zahar)
A raiva, de Blandina Franco e José Carlos Lollo
OPenalti CapaTransparente e1702415126690
O pênalti, de Geni Guimarães e Robson Araújo
EuFicoIrritada CapaTransparente e1718903064482
Eu fico irada!, de Sandra V. Feder e Rahele Jomepour Bell