“As crianças são felizes porque ignoram os muros que os adultos constroem”, diz um trecho do livro “Coração de criança não morre”, do autor e poeta Sérgio Vaz, ilustrado por Mauricio Negro e publicado pela Editora Global. 

Na narrativa, os muros podem representar muitas coisas: medos, barreiras, imposições, preconceitos… Mas, em outro contexto, também podem significar muros literais e geográficos, que escancaram desigualdades sociais, pobreza, falta de acesso e culturas marginalizadas, muitas vezes vistas a partir de uma perspectiva delimitadora. São esses mesmos muros, denunciados e descritos pela literatura periférica, que mostram por que ela também deve — e precisa — ser lida por crianças e jovens.

Mas, antes de tudo, do que se trata esse estilo literário? A literatura periférica começou a se consolidar como movimento na década de 1990, principalmente nas grandes periferias de São Paulo, e ganhou ainda mais força nos anos 2000 com a expansão de saraus, coletivos e outras iniciativas que levaram a poesia e a literatura para as ruas.

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Formada por autores que vivenciavam esses territórios, ela aborda questões sociais, geográficas, de classe, raça e gênero por meio de textos que misturam a vivência do escritor com suas percepções. Embora seja anterior ao movimento, Carolina Maria de Jesus é considerada uma de suas principais precursoras. Ao lado dela, autores como Ferréz, Paulo Lins e Sérgio Vaz estão entre os principais expoentes da literatura periférica no Brasil.

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Literatura periférica x literatura marginal

Quando o movimento surgiu, a ideia era retratar o cenário e a vida cotidiana de minorias, mas por meio da voz de quem realmente pertencia a essas realidades, sem a preocupação em cumprir moldes literários e acadêmicos “mais valorizados” conceitualmente na época. 

A literatura periférica também era – e ainda é –  um lugar de denúncias e contracultura, mas vale uma diferenciação em relação à literatura marginal. Embora também aborde temas sociais e faça um contraponto às normas vigentes, a literatura marginal pode ser escrita por autores que não compartilham da vivência periférica, como é o caso de Paulo Leminski, Chacal e Ana Cristina Cesar, que participaram do movimento mimeógrafo na década de 1970, caracterizado pela produção de obras independentes e questionadoras, que seguiam uma direção editorial contrária ao mercado predominante naquele período.

“Os poetas marginais se autointitulam assim porque não compactuam com a desigualdade e com a ditadura. Porém, isso não faz deles periféricos. Enquanto a literatura periférica exige, necessariamente, a experiência da periferia. Esse lugar de fala é muito importante: você fala da sua realidade”, explica Márcio Vidal, poeta, autor, pesquisador da literatura periférica e integrante da Cooperifa, mestre em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e doutorando em Geografia Humana na instituição, em entrevista à Revista Quindim.

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A importância da literatura periférica para crianças

Em “Coração de criança não morre”, conhecemos o personagem Gabriel que, já aos 60 anos, em uma noite de insônia, decide buscar alguns livros na sala de casa – incluindo alguns que ele mesmo escreveu – e se depara com uma jornada metafórica que o leva ao encontro da criança que foi um dia. 

Inspirado nas memórias de infância de Sérgio Vaz na periferia da zona sul de São Paulo, o livro constrói, de maneira poética, uma narrativa autobiográfica da literatura periférica para as infâncias que, ao mesmo tempo em que descreve situações de desigualdade social, também apresenta o encontro entre as diferentes visões da criança e do adulto sobre uma mesma realidade, os sonhos e os dilemas do amadurecimento. 

“Eu queria o lúdico, mas também queria carregar essa história de coisas importantes que as crianças estão vivendo e que o adulto nem percebe. Criança vive o amor, a dor, o choro; vê o pai brigando, vê a mãe brigando. Às vezes, ela está brincando num canto e parece que não está lembrando daquilo, mas aquilo está dentro dela”, conta Sérgio Vaz, poeta brasileiro e autor de “Coração de criança não morre”, em entrevista à Revista Quindim.

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Imagem do livro ‘Coração de criança não morre’, de Sérgio Vaz e Mauricio Negro (Global) | Foto: Rodrigo Frazão

Através da construção do livro, que toca em questões sensíveis, sejam elas de aspectos pessoais ou sociais, o autor também propõe um resgate à criança interior de cada adulto, que ainda pode estar carregando dores e traumas. É como um exercício mental: o que você diria para a criança que foi, se pudesse encontrá-la?

Quis escrever um livro para que o adulto também lesse e falasse: ‘Realmente eu preciso salvar a criança que eu fui, porque ela está lá ainda naquele lugar sofrendo’. […] Essa criança que a gente tem, que sofreu bastante, ainda continua no adulto que é. E é preciso libertar essa criança”. — Sérgio Vaz, poeta brasileiro e autor de “Coração de criança não morre”, em entrevista à Revista Quindim.

A identificação de quem vive e a ampliação da visão de mundo para quem não conhece

Em paralelo, outro ponto que ressalta a importância de apresentar a literatura periférica para jovens e crianças é a ampliação da visão de mundo para aqueles que vivem em contextos distantes do cenário retratado nesse tipo de literatura, e a identificação para aqueles que já conhecem a realidade.

Quando uma criança se reconhece nas descrições dos ambientes, o interesse pela leitura também aumenta. A sensação de ver que seu mundo também faz parte dos livros, e que ela mesma também está nas histórias, cria uma rede de conexão, além de despertar o interesse em compreender melhor o próprio cenário e as razões por trás de diferentes questões sociais. 

Além disso, no caso das crianças que fazem parte do contexto periférico, esse tipo de literatura também pode fazer uma releitura do ambiente em que vivem, apresentando novos sonhos e possibilidades.

“A literatura periférica tem uma outra coisa, que é colocar o ambiente, no caso da periferia, que as crianças vivem nas histórias. Eu acho que isso é fundamental. E também fazer uma releitura desse território. Às vezes, o território pode ser violento, mas você constrói uma outra perspectiva para a leitura e para as crianças”, reflete Márcio Vidal.

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Imagem do livro ‘Coração de criança não morre’, de Sérgio Vaz e Mauricio Negro (Global) | Foto: Rodrigo Frazão

Já quando ocorre o oposto, o encontro com contextos antes desconhecidos, há a possibilidade de as crianças ampliarem sua visão de mundo, compreendendo que muitas pessoas vivem sob diferentes condições, incluindo aquelas que não deveriam sequer ocorrer. Esse é um dos poderes da bibliodiversidade: apresentar novas e outras formas de existência. É o que Sérgio pontua como um dos motivos para apresentar a literatura periférica para os pequenos.

“A criança não nasce com nenhum tipo de preconceito. Uma criança que começa a ler esse tipo de livro, que fala dessa diversidade, não vai crescer uma pessoa preconceituosa. Por isso, acho fundamental que ela tenha esse tipo de literatura na infância”, frisa Sérgio Vaz.

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A literatura periférica surgiu nas ruas, e continua presente nelas 

Muito antes de chegar às estantes das livrarias, a literatura periférica encontrou seus leitores nas ruas. Em bibliotecas comunitárias, praças e escolas públicas, poemas passaram a ser compartilhados em voz alta, circulando nas ruas as histórias que retratavam o que acontecia ali. Um dos grandes diferenciais dos textos era justamente a linguagem: próxima à realidade de quem a lia, tornou-se identificável e foi compartilhada por cada vez mais pessoas. 

Foi nesse contexto que em diferentes comunidades e centros periféricos iniciativas como saraus e o slam – as famosas “batalhas de rima” – também passaram a ganhar força através da disseminação da literatura periférica, atuando como um dos principais vetores para compartilhar o movimento. 

Ao ouvir autores que falam sobre temas e cenários parecidos com aqueles que fazem parte do seu cotidiano, muitos estudantes descobrem que também podem escrever sobre a própria vida. A leitura, então, surge como um caminho para compreender o mundo e a si mesmo, explorando e desenvolvendo a escrita, a oralidade, presença de palco e relação com outros colegas. 

“Uma professora me convidou para fazer uma oficina numa escola pública, no nono ano. Depois do sarau, ela me disse que os estudantes começaram a ir à biblioteca pegar livros de poesia. E aconteceu uma coisa muito interessante: através do que eles escreveram nos poemas, nós descobrimos quem sofria racismo, quem sofria bullying, quem sofria abuso em casa. Ou seja, a literatura como ferramenta de cidadania, dando voz às crianças que têm medo de ter voz“, conta Sérgio Vaz.

Esse também é o caso do Sarau do Binho, um dos coletivos mais tradicionais da literatura periférica brasileira. Criado em 2004, no Campo Limpo, na zona sul de São Paulo, o projeto nasceu em um bar de bairro e, ao longo dos anos, passou a circular por centros culturais e escolas públicas, levando poesia para diferentes públicos.

Para Suzi Soares, uma das criadoras do Sarau do Binho e produtora e curadora da Felizs – Feira Literária da Zona Sul, a identificação entre os estudantes e os textos apresentados é um dos principais motivos para esse interesse pela literatura.

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Arquivo Pessoal/Suzi e Binho

“Quando chegamos com o sarau na escola e com nossos livros e autores, aquele estudante vai se deparar com textos que refletem sua realidade, seu cotidiano. Os autores falam uma linguagem muito próxima da que usam entre si. Dessa forma, os estudantes começam a compreender que também têm capacidade para escrever seus próprios textos, sua própria letra de música, de rap”, diz Suzi, em entrevista à Revista Quindim.

O mesmo acontece nos slams, as batalhas de poesia falada. Ao escrever um poema para apresentar em uma disputa de rimas, muitos jovens acabam procurando livros, autores e outras referências para ampliar o repertório. Sérgio Vaz, inclusive, é um dos nomes mais referenciados. Aos poucos, a leitura passa a fazer parte desse processo criativo, e os jovens descobrem que suas próprias histórias também podem ser contadas e que aquilo que vivem pode se transformar em literatura.

Escrever a partir da própria vida também é um ato de resistência

Essa talvez seja uma das principais características da literatura periférica: escrever sobre aquilo que se vive. Não apenas abordar temas relacionados à periferia, mas narrar essas experiências a partir do olhar de quem realmente as conhece.

Foi justamente por isso que esse tipo de literatura consolidou a importância do lugar de fala. Enquanto a literatura marginal pode denunciar desigualdades mesmo sendo escrita por autores que não viveram esse contexto, a literatura periférica parte da experiência de quem cresceu nesses territórios e transforma essas vivências em narrativa. Essa diferenciação é de extrema importância para o movimento, e é o caso do autor Sérgio Vaz, que registrou em seus livros memórias, afetos e dificuldades relacionadas à sua trajetória. 

A relação entre escrita e experiência também dialoga diretamente com o conceito contemporâneo de “escrevivência”, criado pela escritora Conceição Evaristo. A autora uniu as palavras “escrever” e “vivência” para mostrar que escrever também pode ser uma forma de registrar a própria existência. Para muito além de apenas contar uma história, a escrevivência propõe uma literatura construída a partir das memórias e das marcas deixadas pela vida, especialmente entre grupos minoritários que historicamente tiveram suas vozes silenciadas. 

Literatura periférica
Imagem do livro ‘Coração de criança não morre’, de Sérgio Vaz e Mauricio Negro (Global) | Foto: Rodrigo Frazão

“Na verdade, a periferia sabe o que é a miséria, porque ela convive com a miséria. Então, ela reconhece a humanidade. ‘É o meu vizinho’. É a nossa identidade. A gente marca o nosso território, assim como os modernistas fizeram. Eles marcaram o território e disseram: ‘Nós somos modernistas’. E temos nós, a literatura periférica, que não é uma coisa à parte da literatura; ela é parte do sistema literário”, pontua Márcio Vidal.

Por isso, para os pequenos, o contato com esse tipo de literatura pode ser transformador. Afinal, crescer não significa experimentar apenas sentimentos felizes. No Brasil, milhares de crianças convivem diariamente com violência, racismo, desigualdade, fome, abandono ou luto, mesmo que sejam sempre afastadas das discussões que abordam essas questões. Segundo um estudo divulgado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) em 2025, 28,8 milhões de crianças e adolescentes brasileiros vivem em situação de pobreza multidimensional, convivendo com privações relacionadas à renda, educação, moradia, saneamento, acesso à informação e outros direitos básicos. 

No entanto, quando esses temas aparecem nos livros de maneira sensível, eles deixam de ser apenas experiências solitárias e passam a ser reconhecidos, acolhidos e compartilhados em coletivo. Foi justamente isso que aconteceu durante o processo de escrita de “Coração de criança não morre.

Sérgio Vaz conta que, quando começou a escrever o livro, imaginava construir uma narrativa infantil mais lúdica. Porém, conforme a história avançava, o poeta percebeu que a criança que reencontrava dentro de si também carregava sentimentos mais densos e pesados que precisavam ser trabalhados. 

A criança que eu fui tomou conta do livro e escreveu uma outra história. […] Eu queria libertar a criança que sofreu em mim […]. A gente subestima a capacidade da criança de assimilar as coisas que acontecem dentro de casa. Parece que ela foi brincar, mas aquilo continua dentro do coração dela. E foi isso que eu encontrei e contei” – Sérgio Vaz, poeta e autor de “Coração de criança não morre”, em entrevista à Revista Quindim.

Assim, de maneira cortante, a obra de Sérgio Vaz convida o leitor a revisitar a própria infância. Ao mostrar que uma criança pode carregar medos, traumas e perguntas que continuam ecoando na vida adulta, nem sempre com as melhores respostas, o livro também evidencia como a literatura periférica voltada para o público infantil pode ampliar a compreensão sobre a infância e romper com a ideia de que proteger uma criança significa esconder dela as dificuldades do mundo. 

Em vez disso, oferece palavras para que cada um consiga compreender aquilo que sente e, quem sabe, um dia, também encontrar coragem para contar a própria história. 

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Conheça três livros, já entregues à Família Quindim, que dialogam com a literatura periférica:

Coração de criança não morre
Coração de criança não morre, de Sérgio Vaz e Mauricio Negro
Rumi CapaTransparente e1783454352140
Rumi, de Caio Zero
Crias do Titanzim
Crias do Titanzim, de Cláudio Rodrigues