Nome forte e fascinante da literatura contemporânea brasileira, Lúcia Hiratsuka se destaca pelo olhar único sobre o ser humano, com forte influência da cultura e da ancestralidade japonesa. Autora e ilustradora, seus livros, que vão de recontos de lendas à histórias que investigam a infância, a memória e a natureza, têm conquistado uma legião de leitores, tanto no Brasil quanto no exterior.
Sua escrita é permeada por uma sensibilidade poética e uma curiosidade intensa, que a torna uma observadora atenta e sensível do mundo ao seu redor. Para conhecer mais sobre suas obras, seis das quais já foram enviadas para as famílias que fazem parte do Clube Quindim, conversamos com a própria autora para entendermos cinco aspectos fundamentais de seus livros, ou seja, características que marcam suas narrativas e revelam a profundidade de sua escrita.
Uma escrita pensada para crianças
Além de escritora, Lúcia Hiratsuka é artista plástica e ilustradora. Com mais de 20 títulos publicados, vários deles premiados com o Jabuti e também o prêmio da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), a autora é conhecida por abordar aspectos importantes sobre a ancestralidade e por um equilíbrio extraordinário entre texto e imagem. Ela mesma diz que escreve para a criança que já foi um dia, e talvez seja justamente por isso que suas obras sejam tão tocantes.
A partir das próprias palavras da autora, conheça os aspectos que tornam seu trabalho único:
1. “Curiosidade: um sentimento sempre presente nas minhas personagens”
A curiosidade é uma força motriz na obra de Lúcia Hiratsuka. Ela transmite essa característica essencial para suas personagens, que estão sempre em busca de novas descobertas, seja no mundo ao seu redor, na relação com os outros ou dentro de si mesmas. “A curiosidade está presente tanto nas histórias que crio, como nos recontos de lendas japonesas”, explica.

As histórias criadas por Hiratsuka são, frequentemente, um convite à exploração do desconhecido. Em Chão de peixes, por exemplo, as tardes ociosas da protagonista no sítio Asashi no interior de São Paulo levam a uma observação atenta e ativa da natureza, que acompanha uma trilha de formigas carregadas de folhas para o banquete da família.
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2. “Memória: entra na trama de várias formas”

“O caminho para a escola, as histórias que ouvi na família, uma imagem que capturei na rua…”. Nas mãos de Lúcia, a memória desempenha um papel central nas narrativas, sendo uma ferramenta de conexão entre o passado e o presente. Ela usa a memória para reviver momentos, lugares e pessoas, transformando-os em elementos que estruturam a trama. Assim, a história particular de sua família se torna compartilhada, transformada e cheia de pontos de contato com a história dos leitores.
Em Amanhã, a autora atravessa três gerações de mulheres que compartilham a ansiedade que gira em torno do primeiro dia de aula. Muito embora os cenários e as condições em que cada uma delas se encontra sejam diversos, o sentimento de apreensão e ânsia por aprender e encontrar novos conhecimentos é unânime.
3. “Observação do ser humano: as atitudes, a complexidade das relações, o afeto, o espanto diante do inusitado da vida”
Uma das marcas registradas de Lúcia Hiratsuka é sua habilidade de observar e retratar o ser humano em suas múltiplas facetas, sempre com uma sensibilidade que beira o filosófico. Na obra Os livros de Sayuri, a autora relata a história de uma menina que um dia vê todos os seus livros, sem exceção, serem guardados em um caixote e enterrados. Enquanto o mundo fechava suas fronteiras devido à Segunda Guerra Mundial, famílias de japoneses e seus descendentes sentiam os efeitos da vigilância constante de palavras e atitudes que pudessem gerar desconfiança e colocá-las em perigo.

Aqui, notamos também a recorrência de situações e personagens ao longo das obras da autora, pois uma das personagens de Amanhã experimenta justamente o cenário de fechamento das escolas retratado aqui. É o reflexo da surpresa que surge quando a realidade nos ultrapassa.
4. “O silêncio e a natureza: a poesia que nos rodeia”
Na obra Orie, que conta a história de uma menina que viaja pelo rio com seus pais barqueiros, acompanhando o movimento do remo de bambu em meio aos peixes e entrelaçado ao movimento das águas, Lúcia utiliza a técnica do sumiê, um tipo de pintura que utiliza tinta nanquim para criar traços e que não realiza correções. Quando o erro acontece, ou ele é integrado ao todo, ou o artista parte em busca de recomeços. Simples e profundo, como todos os trabalhos da artista.
“Um caracol, um capim, uma árvore em floração, uma folha seca que terminou seu ciclo… O silêncio se faz presente pela influência da estética japonesa, especialmente a arte do sumiê”, explica Lúcia. É dentro deste silêncio que a autora imerge em uma observação profunda do entorno para destacar sutilezas que grande parte de nós não percebe.
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5. “A brincadeira: as personagens descobrem o mundo através das brincadeiras, em contato com o outro e o desconhecido”

A brincadeira é um dos elementos essenciais na obra de Lúcia Hiratsuka. Suas personagens, muitas vezes crianças, descobrem o mundo através de jogos e da exploração recreativa. Esta se torna uma forma de aprendizado, em que as experiências e relações humanas ganham contornos por meio da experimentação e da fantasia.
Em Eu primeiro!, a autora nos mostra dois meninos brincando juntos, construindo castelinhos com pedras, barquinhos para pequenos insetos e subindo em árvores, enquanto uma menina, menor, segue atrás deles repetindo tudo o que fazem. Além da ternura de demonstrar interações entre crianças de idades diferentes, somos capturados pela representação de uma infância a céu aberto, longe de centros urbanos, onde a imaginação e a experimentação conduz as atividades do dia.
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Uma autora para conhecer e se encantar
A obra de Lúcia Hiratsuka transcende o simples ato de contar histórias. Seus livros são reflexões profundas sobre a vida, o ser humano e a natureza, construídos com uma sensibilidade extraordinária. E cada um deles nos aguarda para embarcar em uma jornada envolvente, que instiga nossa curiosidade, valoriza nossa memória, e desperta em nós um olhar poético valioso para o mundo. Se você ainda não leu nenhuma de suas obras, descubra hoje mesmo esse encontro fascinante entre a literatura, a beleza do cotidiano e a cultura japonesa.








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