Fazer amigos é fundamental para o desenvolvimento social e emocional das crianças. É a partir das trocas estabelecidas com o outro que os pequenos aprendem uma série de habilidades que serão importantes ao longo de toda a vida, como a empatia, a capacidade de compartilhar, de expressar sentimentos… Mas os pais bem sabem que, embora sejam essenciais, as relações de amizade dos filhos não estão imunes aos conflitos — muito pelo contrário

É natural que brigas e disputas ocorram entre crianças, mas há um determinado momento em que os desentendimentos se tornam tão frequentes — ou ganham um espaço tão grande no relacionamento dos pequenos — que os pais acabam se preocupando. Afinal, o que está acontecendo? Por que o meu filho (ou o amigo dele) tem agido de maneira tão possessiva ou controladora? Será que a amizade deles é tóxica? Como torná-la mais saudável?

Para responder a esses e outros questionamentos que podem surgir entre as famílias, o Clube Quindim conversou com especialistas que explicam o que está por trás do comportamento das crianças, como se formam os laços de amizade na infância e como os pais podem atuar para que os pequenos convivam da melhor maneira possível. Confira!

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Existe amizade tóxica na infância?

Um relacionamento tóxico costuma ser marcado por controle, manipulação, ciúme exacerbado, críticas disfarçadas de elogios… Será que as crianças também vivenciam isso em suas amizades? De acordo com a psicóloga Daniella Freixo, formada pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e especializada em Psicologia Analítica e Transpessoal, não é prudente afirmar isso, especialmente em relação à primeira infância, período que vai do nascimento aos 6 anos de vida. “As crianças menores ainda são muito autocentradas e, obviamente, ainda estão muito no mundo do desejo. Então, elas querem [algo] e querem agora”, destaca.

A especialista esclarece que, por volta dos 3 ou 4 anos de idade, os pequenos ainda estão no meio do processo de definir quem são, aprendendo que existe o “eu” e o “outro”. Não é à toa que um dos cinco Campos de Experiências propostos pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC) para a Educação Infantil é “O eu, o outro e o nós”. “É na interação com os pares e com adultos que as crianças vão constituindo um modo próprio de agir, sentir e pensar e vão descobrindo que existem outros modos de vida, pessoas diferentes, com outros pontos de vista”, diz a BNCC, documento que estabelece as aprendizagens essenciais em cada etapa da educação. 

Essa interação entre as crianças e a descoberta do outro são gradativas, tanto que, inicialmente, não vemos os pequenos dessa faixa etária brincando realmente juntos, mas, sim, lado a lado. “É como se fossem pontos autocentrados e individuais, habitando o mesmo ambiente, mas ainda sem um espaço de troca e interesse pelo outro”, explica Daniella.

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Crédito: Canva

Segundo a psicóloga, o primeiro grande interesse das crianças é por um objeto — e é esse desejo em comum que cria uma oportunidade de conexão entre elas e de formação das primeiras amizades. O outro ganha um rosto, depois um nome e, aos poucos, os pequenos vão gostando de brincar juntos. “A partir dos 5 anos isso vai se fortalecendo e, entre os 6 e 7 anos, já está bem mais estruturado”, acrescenta.

É por isso que, de acordo com a especialista, não é possível pensar em uma amizade tóxica no contexto da primeira infância. “Na verdade, a gente tem indivíduos que nascem com um coração centralizado, que têm um funcionamento autocentrado, movidos absolutamente pelo próprio interesse e se relacionando com outro que é exatamente assim”, reforça Daniella. 

Os comportamentos mais controladores sobre o outro, que poderiam ser associados ao que chamamos de relação tóxica, aparecem apenas mais tarde. “Podemos dizer que a partir do final da infância isso fica mais visível”, avalia Mônica Pessanha, psicanalista, mestre em Psicologia Clínica também pela PUC-SP.

Possessividade e frustrações

Se você tem um filho que já passou da primeira infância, é provável que, em algum momento, tenha notado um comportamento possessivo na relação dele com algum amigo. É o caso daquelas situações em que uma criança não quer que a outra tenha mais amizades e brinque apenas com ela, ou quando uma delas costuma impor suas vontades na hora de brincar e que, às vezes, usa até mesmo a agressão para que as coisas aconteçam da forma que ela deseja.

E por que isso acontece? O que faz os pequenos agirem dessa maneira? Há algumas explicações para essas perguntas, como esclarecem as especialistas consultadas pelo Clube Quindim.

A primeira delas, de acordo com Mônica, pode ser a falta de confiança que a criança tem sobre si mesma, o que a torna mais vulnerável. “Assumir alguma responsabilidade ou controle de áreas em que ela se sente capaz pode ajudá-la a se sentir mais segura, notada e importante”, pontua. A psicóloga diz, ainda, que pode ser algo aprendido, ou seja, se o pequeno vê os outros recebendo o que querem ou precisam através de comportamentos específicos, ele pode imitar e fazer o mesmo.

Já Daniella Freixo pondera que a possessividade está relacionada ao sentimento de querer que o outro e todas as coisas funcionem do nosso jeito. Segundo ela, isso é algo da natureza humana e está presente em todas as idades. “Todos nós lidamos com isso dentro das nossas casas, no casamento, no trabalho…”, destaca. O adulto, no entanto, já tem mais maturidade para lidar melhor com as situações, o que não acontece na infância. 

Autocentrada, a criança ainda precisa aprender a ceder, a negociar e entender que as coisas nem sempre serão totalmente do jeito dela e, por outro lado, também não precisam ser absolutamente do jeito do outro. Na verdade, é necessário haver uma maleabilidade dos dois lados, de forma que as necessidades de cada um sejam consideradas.

Esse processo de flexibilização, claro, não é fácil e leva tempo. “Uma criança ou qualquer ser humano, quando frustrados com a realidade que não segue exatamente o que era esperado, tendem a partir para a briga”, aponta Daniella. “A gente faz isso ameaçando, a gente briga com as palavras, ofendendo. Às vezes brigamos fisicamente, outras com gritos ou, então, com silêncio, com desdém, com sair andando…”, acrescenta.

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Imagem do livro “Eu fico irada!“, de Sandra V. Feder e Rahele Jomepour Bell. Crédito: Clube Quindim

A resposta a esse sentimento de frustração, de acordo com Daniella, vai depender muito do que ela chama de “porta de temperamentos”, ou seja, do perfil e do funcionamento de cada pessoa. “Todos nós temos algum nível de dominância, de extroversão, de paciência e algum nível de análise”, afirma a especialista. Então, cada um usa as armas que tem para conseguir o que quer.

No caso das provas de amizade, por exemplo, em que uma criança exige que a outra faça determinada coisa, senão elas não serão mais amigas, essa é apenas uma forma que ela encontra para conquistar o que deseja. “Obviamente, é uma estratégia ruim, que acaba deixando o outro sem saída. Às vezes, esse outro tem um funcionamento de uma dominância menor e, então, fica submetido”, avalia. Para Mônica Pessanha, esse tipo de atitude também demonstra uma insegurança da criança: “Ser invisível é a pior sensação do mundo e é crucial ensinar aos nossos filhos como é importante ser bons seres humanos”.

É por essa razão que Daniella Freixo ressalta a importância de as crianças aprenderem a lidar com as frustrações na infância, porque isso é fundamental não apenas para as relações que ela constrói nessa etapa da vida, mas também para o que vai enfrentar na vida adulta. “A gente deve treinar isso em casa, tirar as crianças desse espaço atendido, satisfeito, de bem-estar imediato”, recomenda. 

Sem esse treinamento e o aprendizado que vem com ele, quando os filhos saem do ambiente familiar e vão para a escola, por exemplo, podemos ter duas crianças que querem as coisas do seu próprio jeito tentando se relacionar — daí começam a surgir os embates e o uso de estratégias equivocadas, como a das provas de amizade.

Leia também: Por que é importante a criança aprender a lidar com a frustração ainda na infância?

As diferenças se atraem

Para lidar com esses conflitos, as famílias devem estar atentas à dinâmica das amizades dos filhos. Você já deve ter reparado que o seu filho parece ter amigos com um perfil e um temperamento muito diferentes dos dele. E isso não é coincidência! De acordo com Daniella, é muito comum uma criança mais extrovertida ser muito amiga daquela mais introvertida. “A gente junta esse dinamismo dessa criança falante com aquela que prefere ouvir”, afirma.

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Imagem do livro “Tímidos“, de Simona Ciraolo. Crédito: Clube Quindim

São como pecinhas de um quebra-cabeça que se complementam. Apesar disso, em algum momento esse encaixe pode ficar desajustado e os problemas começam a aparecer. “A criança mais extrovertida vai ter mais amigos, porque a dificuldade dela é aprofundar a amizade. Já a criança mais introvertida é aquela que precisa ter um amigo, mas na hora em que ela se junta com alguém que tem dificuldade de aprofundar [esse vínculo] e, por conta do seu temperamento, busca outras amizades, a introvertida se magoa”, explica a psicóloga.

O mesmo acontece com os pequenos que possuem uma dominância maior sobre o outro. “Normalmente, são crianças com muita impaciência, que explodem, que têm crises… E essa criança tende a atrair aquela que tem uma baixa dominância, que fica confortável com alguém tomando a decisão por ela”, afirma.

Segundo a especialista, a criança com esse perfil mais quietinho, que cede sempre, não toma decisões e nunca quer conflitos com o amigo, muitas vezes pode se sentir desconfortável, desrespeitada ou desconsiderada, mas ainda não tem condição de comunicar o que ela precisa. Daí a importância de dar voz a ela e equilibrar essa relação.

Para a psicóloga, é essencial que os pais tenham em mente que tanto a criança mais extrovertida ou dominante, quanto a introvertida ou quietinha precisam de amparo para aprenderem a se relacionar com as outras de forma mais saudável. “Todo temperamento, todo funcionamento, quando inflexível, acaba gerando dano — no outro ou interno”, ressalta.

Veja também: Como lidar com a introversão e a timidez na infância

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Vítima x vilão

Quando os desentendimentos entre as crianças começam a dar as caras, diante desses temperamentos tão diferentes que elas podem ter, a leitura que muitas famílias fazem da situação é a de que existe uma vítima e um vilão e os pais precisam “salvar” os filhos dessa relação vista como “tóxica”. Mas não deveria ser assim! “Eu não entendo que a tríade vítima, vilão e salvador nos ajuda a fortalecer nossos filhos”, diz Daniella. Na verdade, essa é uma grande oportunidade de os pequenos flexibilizarem seus funcionamentos.

“Você não quer salvar seus filhos de uma situação desconfortável, de decepções ou de experimentar sentimentos negativos. Não é sobre salvar a criança. É sobre ajudá-la com isso, quando acontecer. Essa é uma distinção muito importante”, acrescenta Mônica Pessanha.

Daniella afirma que, ao colocar o filho como vítima e o amiguinho dele como vilão, a tendência dos pais é querer proibir essa amizade, querer o afastamento das crianças. Mas esse não é o caminho. “A gente precisa ir na direção de trazer para a palavra aquela que bate e aquela que não consegue se posicionar, de trazer para a flexibilidade aquela que é muito metódica e vive frustrada, porque o amigo não brincou com a regra exatamente do jeito que ela achou que deveria ser, para que a comunicação aconteça corretamente”, enfatiza.

E como fazer isso? De fato, essa não é uma tarefa simples para os pais. Mas alguns exemplos podem dar pistas de como acolher os filhos. No caso da criança que nunca quer tomar uma decisão, ela tem de ser estimulada a dizer o que quer. Vão brincar de um jogo de tabuleiro em casa e ela diz que tanto faz qual será o jogo? Insista e pergunte com qual ela prefere brincar. “É necessário um treino para que haja um posicionamento quando a tendência é seguir o posicionamento do outro”, afirma a especialista.

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Crédito: Canva

Daniella também recomenda que os pais ajudem o filho a encontrar outras estratégias quando ele se sentir triste ou chateado com algo que o amigo fez. Eles podem encorajá-lo a pensar numa atitude que ele pode tomar numa próxima vez, a escrever uma carta dizendo o que ele não gosta que o amigo faça, a estar atento a determinadas atitudes desse colega e se preparar melhor para elas, para que, assim, aconteça uma curva de aprendizado.

“Tem pais que falam: ‘Bateu? Bate de volta’. Essa criança que tem esse temperamento [mais reservado, de menor dominância], ela jamais vai bater de volta. E aí ela se sente errada de não conseguir fazer isso, mas ela não vai fazer!”, exemplifica a psicóloga. Já a criança de maior dominância precisa treinar a esperar, a perder no jogo… “Esse caminho de ajuda, na verdade, é um treino de um outro que existe”, acrescenta.

Para que todo esse treinamento ocorra, o diálogo precisa estar sempre aberto na família. Se, ao contrário, os pais simplesmente resolvem a situação sugerindo que o filho se afaste do amigo, uma distância pode se abrir entre pais e filhos. “Se eu adoro o João, eu começo a não falar mais nada do que me incomoda no João para os meus pais, porque eles me dão uma solução que eu não quero. Então, essas crianças acabam, no fim, lidando com o João sozinhas”, pontua.

De acordo com a especialista, ao manter um espaço de compreensão e acolhimento, dizendo que cada um de nós tem desafios, inclusive os adultos, e que a criança está aprendendo a se relacionar, os pais fazem com que a casa se torne um lugar seguro para que tudo possa ser compartilhado.

Veja também: Como acolher e ensinar a criança a lidar com a decepção?

Pode ser bullying?

Não é raro que os pais se preocupem sobre a prática de bullying quando as brigas entre o filho e um amigo se tornam mais constantes. Daniella Freixo diz, porém, que o bullying tem uma característica muito diferente de tudo o que estamos falando aqui.

Primeiro porque, normalmente, ele não acontece entre amigos, que possuem uma conexão afetiva; depois porque os conflitos existentes entre os pequenos que possuem uma amizade estabelecida, na verdade, indicam apenas que eles estão enfrentando uma dificuldade de construir um espaço de consideração entre eles.

“O bullying acontece com uma posição deliberada, frequente, gratuita e repetitiva de agressão, de desrespeito, seja relacionado a alguma coisa física, seja de alguma característica”, afirma a psicóloga. “No entanto, pode mudar para bullying quando alguém está chateado, ferido ou ofendido e a outra pessoa se recusa a parar”, complementa Mônica Pessanha.

O que também pode acontecer, segundo Daniella, é de crianças que já foram amigas se afastarem e, de repente, uma delas passar a fazer parte de uma turma nova e, por conta de uma grande insegurança, buscar existir através de um espaço de poder: “E para eu ter poder, eu preciso fazer alguém se sentir mal, desprezado etc.” Nesse caso, sim, estaria configurado o bullying. “E as escolas são muito importantes para lidar com isso, com consequências significativas, para que não haja um espaço de impunidade”, completa.

Laços positivos

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Imagem do livro “Quero brincar e está de noite“, de Janaina Tokitaka e Talita Nozomi. Crédito: Clube Quindim

A psicóloga Mônica Pessanha elencou mais dicas para os pais estimularem que as crianças tenham relações saudáveis de amizade. Confira:

  • Incentive as amizades que são importantes para o seu filho. Agendar um tempo para que a criança veja os amigos fora da escola, mesmo que seja apenas de vez em quando, os ajuda a se manterem conectados. 
  • Respeite a personalidade do seu filho. Algumas crianças podem ter muitos amigos, já outras podem não precisar de muitas amizades para se sentirem felizes. É importante celebrar e apoiar a personalidade e as necessidades do seu filho. 
  • Ajude seu filho a encontrar outras crianças com interesses semelhantes. Isso pode ser feito por meio da participação em esportes coletivos, conjuntos e bandas instrumentais, grupos de dança, de teatro, clubes de tecnologia… Como vimos, as crianças escolhem amigos com base em hobbies semelhantes e compartilhados. 

Por fim, esteja presente e disponível quando seu filho estiver brincando com outra criança. Isso permite que você veja como eles interagem entre si, proporcionando oportunidades de ter conversas contínuas sobre a relação de amizade existente e o que é importante para cada uma delas.

Veja também: O poder do “não”: como ensinar a criança a impor limites claros em suas relações

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Estante Quindim

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Formigável, de Janaína de Figueiredo e Rafa Antón