“Você já é grande”, “seja forte”, “você é o homem da casa” ou “não sei o que seria da minha vida sem você”. São frases que, ditas para uma criança, colocam uma enorme carga nos ombros dela. Uma carga muito maior do que ela poderia — e deveria — suportar. As posições se invertem: em vez de o adulto oferecer cuidado e segurança, é a criança que assume funções físicas ou emocionais na tentativa de garantir que ele fique bem. 

“Parentificação é uma inversão de papéis dentro da família”, explica a psicanalista, palestrante e educadora parental Jacqueline Vilela. “O adulto, que deveria ser o regulador emocional da criança, não consegue exercer o cuidado e acaba transferindo para a própria criança o dever de sustentar esse ambiente. Em uma família saudável, pais cuidam e regulam e filhos recebem cuidado e desenvolvem”, acrescenta.

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a linha entre autonomia e sobrecarga

Nem toda ajuda é um problema, claro. Participar da rotina da casa e colaborar com pequenas tarefas é positivo e faz parte do desenvolvimento infantil. O ponto de atenção é quando a responsabilidade deixa de ser proporcional à idade. “A linha mais clara entre autonomia saudável e sobrecarga emocional é conhecer as fases de desenvolvimento de uma criança, o que ela é capaz de fazer com a idade e maturidade emocional que tem”, afirma Jacqueline.

“O maior trabalho da criança é brincar. A infância precisa ter leveza, a possibilidade de errar, de depender dos adultos sem medo, explorar para ir ganhando autonomia aos poucos” – Jacqueline Vilela

Ajudar a guardar brinquedos, arrumar o quarto e colaborar em pequenas tarefas, que, com o tempo, vão ficando maiores, é fundamental. É assim que os pequenos aprendem a cuidar de si mesmos e do entorno, além de entender seu papel dentro da estrutura familiar. O problema surge quando há uma quebra desse ciclo.

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“É preocupante todas as vezes em que a criança é obrigada a lidar com responsabilidades que exigem uma maturidade emocional que ela ainda não tem, como resolver coisas que pertencem ao mundo dos adultos, se preocupar com problemas financeiros da família, mediar conflitos entre os pais, assumir o cuidado de irmãos menores ou não ter o direito de errar”, diz Jacqueline. O alerta aparece quando a criança perde o lugar de brincar, descansar ou simplesmente ser cuidada.

O QUE É parentificação na prática

Parentificação infantil
Imagem do livro ‘Meu pai é um homem-pássaro’, de David Almond e Polly Dunbar | Foto: Rodrigo Frazão

A inversão de papéis pode acontecer de diferentes formas. “Quando a criança assume tarefas práticas de cuidado, como criar irmãos menores ou administrar responsabilidades domésticas de forma contínua, na mesma proporção que um adulto faria ou quando ela se torna o principal suporte afetivo de um dos pais, funcionando como confidente, mediadora de conflitos ou responsável por ‘manter o adulto bem’”, descreve a especialista.

Com o tempo, isso pode gerar impactos importantes. “A criança pode crescer sentindo uma responsabilidade excessiva, dificuldade em estabelecer limites ou em pedir ajuda, culpa quando prioriza a própria vida, tendência a cuidar demais de outras pessoas e esquecer de si. Isso vai refletir nas outras relações ao longo da vida”, afirma ela. 

por que A PARENTIFICAÇÃO acontece?

A parentificação costuma aparecer com mais frequência em momentos de fragilidade familiar. Segundo a educadora parental, em situações como depressão, separação ou dificuldades financeiras, o ambiente familiar pode ficar mais instável. “Muitos adultos podem não conseguir sustentar um ambiente emocional saudável, por causa da própria desregulação”, destaca.

Sensíveis ao clima da casa, as crianças tentam se adaptar. “Mesmo quando ninguém explica exatamente o que está acontecendo, elas percebem mudanças de humor, tensões e sinais de sofrimento”, aponta. A partir daí, começam a ajustar o próprio comportamento. “Ser mais silenciosa, não dar trabalho, cuidar dos irmãos ou tentar animar um dos pais… Aos poucos, ela sente que isso vira seu papel dentro da família”, completa. 

A especialista também chama atenção para contextos de vulnerabilidade. “Sabemos que muitas famílias em situação de vulnerabilidade acabam por exercer a parentificação como o único padrão possível, como a mãe que precisa trabalhar e não conseguiu creche. Muitas crianças continuam sendo responsáveis pelos irmãos menores”, exemplifica. 

Parentificação infantil
Foto: Canva

A ajuda entre irmãos não é necessariamente um problema. O que faz diferença é o equilíbrio. “A medida sempre é a frequência e a intensidade”, diferencia a especialista. “Se a criança ajuda com os mais novos, mas continua tendo tempo para ser criança, não há prejuízos. Agora, se para cuidar dos mais novos a criança perde o direito de ser criança, isso atrapalha o desenvolvimento”, diz ela. O sinal vermelho aparece quando o irmão mais velho passa a funcionar quase como um segundo pai ou mãe. 

Nesses casos, entra em cena a importância de rede de apoio e políticas públicas. “É a necessidade de apoio para que a criança consiga ser criança”, lembra. 

os sinais de alerta da criança madura demais

Nem sempre a sobrecarga é percebida com facilidade. Muitas vezes, ela aparece justamente como maturidade excessiva. “Um dos sinais é a criança que parece madura demais, muito responsável para a idade e que muitas vezes tem dificuldade de brincar de forma leve ou espontânea”, diz Jacqueline.

Outro indício da parentificação é a culpa excessiva. “Ela pode sentir que precisa evitar qualquer coisa que cause preocupação aos pais. Às vezes isso aparece em frases como ‘não quero dar trabalho’ ou ‘deixa que eu resolvo’.” Também é comum que essas crianças não tolerem erros. “Crianças que não admitem errar, que querem fazer tudo certo”, afirma. 

Há ainda uma atenção constante ao estado emocional dos adultos, como se estivessem sempre em alerta, lendo o ambiente, pisando em ovos. “Perguntam o tempo todo se a mãe ou o pai está bem, tentam acalmar discussões ou se mostram preocupadas com assuntos que normalmente não fazem parte do universo infantil, como dinheiro ou problemas conjugais”, descreve. 

a criança “madura demais”

Você sabe o que seu filho faz na internet_meio. Família acessando computador
Foto: Canva

Em muitas situações de parentificação, esse tipo de comportamento não é visto como um problema pelos adultos. Pelo contrário: ele costuma ser até valorizado. “Uma criança obediente, que não dá trabalho, ajuda em tudo e parece extremamente responsável é facilmente vista como um exemplo”, observa a educadora parental. O problema é que esse elogio pode aumentar ainda mais a sobrecarga. “Isso acaba sendo o reforço positivo da prova de amor: ‘meus pais só me amam se eu continuar sendo assim’”, explica.

Segundo Jacqueline, muitas dessas crianças “aprenderam muito cedo que ser forte era uma forma de manter a família funcionando”. Mais tarde, isso pode trazer dificuldades emocionais. “Elas crescem com dificuldade de estabelecer parâmetros para as próprias emoções, o que pode virar uma dificuldade de se expressar na vida adulta”, pontua.

Direto do Instagram: Sim, é porque que seu filho aprenda a falar “não” ainda na infância…

Ela acrescenta que, na clínica, é comum ouvir relatos que vêm da realidade em que há parentificação . “Adultos que foram descritos como crianças ‘perfeitas’ percebem que, na verdade, estavam tentando lidar com responsabilidades emocionais que não deveriam ter sido deles. O rótulo de maturidade pode acabar escondendo o esforço psicológico que essa criança está fazendo”, afirma. 

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COMO REORGANIZAR OS PAPÉIS

Diante desse cenário, o caminho passa por recolocar os adultos na posição de cuidado. “Isso pode envolver dividir melhor as tarefas entre os adultos, buscar apoio na rede familiar ou diminuir expectativas colocadas sobre a criança”, explica Jacqueline. 

Nem sempre é fácil. Dependendo do caso, pode ser um desafio emocional. “O adulto precisa estar disposto a pedir e a receber ajuda. Ele precisa se reorganizar para conseguir oferecer à criança um ambiente de desenvolvimento saudável”, orienta. 

Às vezes, antes das grandes mudanças, pequenos ajustes já ajudam. “É possível abrir espaço para que a criança volte a viver experiências típicas da infância. Brincar, conviver com amigos, expressar emoções e poder depender dos adultos”, afirma. 

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Em situações mais críticas, é importante buscar apoio profissional. “A ajuda se torna essencial quando a criança demonstra sinais persistentes de ansiedade, culpa excessiva, retraimento ou quando a família está atravessando um período de sofrimento emocional intenso. O acompanhamento psicológico pode ajudar a família inteira a reorganizar esses papéis de forma mais saudável”, completa a especialista. 

Responsabilidade faz parte do crescimento. Sobrecarga, não. Entre uma coisa e outra existe um limite importante: o direito de a criança viver a própria infância. É preciso lembrar que maturidade não é ser “boazinha” ou responsável demais, mas ter tempo e espaço para crescer no próprio ritmo. E isso só é possível quando os adultos voltam a ocupar o lugar de cuidado, devolvendo à criança o direito de brincar, de errar e de ser cuidada.

estante quindim

Conheça três obras, já entregues à Família Quindim, que dialogam sobre o direito da criança de viver a própria infância, principalmente a partir do livre brincar:

Não é uma caixa
Não é uma caixa, de Antoinette Portis
aGarrafa CapaTransparente e1744145058201
A garrafa, de Patricia Auerbach
Meu pai e uma arvore CapaTransparente 1 e1774628784481
Meu pai é uma árvore, de Jon Agee