O que são os contos populares: Da voz ao mundo dos livros

Peter O’Sagae, mestre e doutor em Letras pela FFLCH/USP, conta, neste artigo do Clube de Leitura Quindim, o que são contos populares. Confira!

O que são contos populares

Na língua portuguesa, a expressão contos populares é sinônima de contos folclóricos e também contos tradicionais, vindo indicar um conjunto de histórias mais ou menos curtas com personagens humanos ou animais que falam ou ambos convivendo no mesmo enredo, com seu quinhão de fantasia, magia, humor, ensinamentos práticos, morais, a depender do jeito como são habitual ou habilmente narradas. Em geral costumamos aceitar que os contos populares foram transmitidos de geração em geração e prendem-se a uma ideia às vezes nebulosa de literatura oral, chegando até nós peneirados por milhares e milhares de anos. Porém, será que é simplesmente assim? Um só parágrafo basta para definir uma ou outra narrativa como um conto popular?

Câmara Cascudo, no importante Dicionário do folclore brasileiro, de 1954, dedica várias colunas ao tema. O estudioso potiguar destaca as marcas do conto popular ligado ao campo intelectual e afetivo da oralidade, ou seja, pela variedade de modos como as histórias são transmitidas via palavra falada, a entonação, a mímica corporal, os processos de adaptação a diferentes épocas, lugares, a participação nem sempre discreta dos ouvintes no momento da narração, dado que as reações das pessoas frente a um contador também modificam o texto então compartilhado. Bem sabemos quanto o contador pode trocar detalhes, nomes, coisas, plantas, animais, figuras e figurantes de um conto, por esquecimento ou a fim de agradar a audiência, suprimir e acrescentar fatos, emendar episódios, produzindo novos textos a cada vez que enuncia um conto.

Para muitos folcloristas, o conto popular é meio de resistência e espécie de documento que dá notícias dos usos e costumes, como as relações de parentesco, as fórmulas jurídicas, o nível de moralidade de um agrupamento humano. Nesse quesito, o conto é um instrumento interdisciplinar para a etnografia, a linguística e a sociologia. Por todo o século XIX, mais a miúde, os contos populares foram coletados com intenções de estudo. Na Alemanha, ao reunirem contos mágicos, astuciosos, anedóticos, assustadores, lendas e fábulas, os irmãos Grimm também andavam ocupados com o projeto de fazer um levantamento lexical para o ambicioso Dicionário Definitivo da Língua Alemã. Curiosamente, ao contrário do que muita gente acredita, os contos não vieram unicamente dos campos e dos arredores da Floresta Negra, pois foram ouvidos igualmente junto à classe média e aristocrática das cidades… Uma pergunta que poderíamos fazer é esta: os contos populares alemães eram tradicionalmente alemães?

Contos populares e suas várias versões

Contos populares e contos folclóricos. Chapeuzinho Vermelho

Todos nós conhecemos algumas versões de Chapeuzinho Vermelho, tendo, as duas principais, desfechos diferentes que revelam significados distintos. Jacob e Wilhelm Grimm ofereceram um final redentor ao conto da menina e da avó devoradas pelo lobo, colocando em ação um caçador típico das regiões montanhosas. Chapeuzinho, após o resgate, sai para buscar umas pedras para metê-las na barriga do animal — e há mais um episódio: o encontro com outro lobo que será enganado, dando ao conto ares de conto de esperteza.

Na mais famosa versão que é o reconto de 1697 por Charles Perrault, prevalece um final trágico para Chapeuzinho Vermelho e vem expressa uma moralidade, em versos, a respeito dos perigos que passam os jovens (em especial, as moças) ao darem trela a todo tipo de gente que o escritor aponta como lobos melosos. Com esta intrusão, o conto de velhas, como era conhecido esse tipo de narração entre os franceses, assumiu ares de conto admonitório. Porém o que importa destacar aqui é o seguinte: a história coletada oralmente na Alemanha em princípios do XIX, havia sido já divulgada em livro na França, em fins do XVII, e certamente viajou de um país a outro na memória das famílias huguenotes, entre 1562 e 1598, durante o violento período de perseguição religiosa aos protestantes reformados.

A origem dos contos populares

O que são contos populares e o que são contos folclóricos

Fatos históricos como este permitem entender como o conjunto de contos que imaginamos vir das tradições orais são, na verdade, um emaranhado de fios de língua falada e escrita. Com a difusão da prensa após 1450, também o conhecimento das histórias espalhou-se por estradas e feiras públicas, tão ou mais amplamente do que se estivessem armazenadas apenas na memória de um grupo de pessoas. Com certa velocidade, criou-se uma rede de contadores-leitores ou leitores-narradores em voz alta que, não estando sincronizados on-line por cabos de fibra ótica como hoje, estavam menos solitários e mais solidários uns aos outros pelas fibras do papel. Nesse sentido, os contos populares não são exclusivamente histórias que tiveram origem “na alma do povo”, como disseram e insistem ainda alguns estudiosos de espírito romântico, mas são as diversas histórias que se tornaram conhecidas popularmente, repetidas e prestigiadas entre os povos.

Ao tomarmos uma coletânea, a exemplo dos Contos populares brasileiros, de Sílvio Romero, que veio a público em 1885, verificamos que a matéria considerada folclore tem suas raízes em tradições portuguesas, indígenas e africanas, porém as águas que alimentam esses frutos narrativos já haviam fluído e navegado por rios, mares, nuvens e chuva de outras terras de todos os cinco continentes. Os contos folclóricos no fundo, no fundo, não possuem uma nacionalidade fixa: são viajantes que vestem roupagens diferentes a cada novo clima ou terreno. Mas é claro que a tradição impõe características fortes ao que pode ou não ser chamado conto popular: ter um nascimento remoto, anônimo, ser alimentado coletivamente, guardado como um bem particular e, por isso mesmo, universal.

Consequentemente, a oralidade pode oferecer frutos saborosos e talvez alguém aí possa pensar que seja furto a transcrição de um conto oral para o papel. Não, não é. Mas também é. Algo como aquela mordida em lados opostos da maçã, um pouco de bem, um pouco de mal, pois a ideia de transcrição está ligada ao intuito dos estudiosos, quando querem mapear uma determinada região e descrever os saberes das pessoas que lá vivem. O registro podia ser feito enquanto o contador desenrolava o conto na própria língua e alguém corria o lápis sobre o papel, ora perdendo trechos, ora exigindo paradas, pedindo sucessivas repetições. Outras vezes o registro escrito era feito de memória, concentrando-se numa redação fiel a tudo o que se ouviu algures, alhures. Com certeza, o aparecimento dos recursos de gravação de voz representou um avanço e tanto. Hoje, a pesquisa ainda ativa pode fazer uso da gravação em vídeo. Bastaria apertar um botão e parar a fita, o ícone sobre arquivo de áudio, congelar a imagem, não perder nenhuma informação. Será? No entanto, uma transcrição não é a mesma história que depois se divulga de forma literária!

Os colecionadores de borboletas vivas

O que são contos populares e o que são contos folclóricos

A escritora e ilustradora Angela Lago costumava chamar os muitos homens que se deram ao trabalho de reunir os contos populares de seus países como “colecionadores de borboletas vivas”. Essa imagem poética traduz ótimas ideias a respeito da matéria fina que dá corpo às histórias vivas e leves, vagando entre os lugares muito livremente, até que viesse alguém a capturá-las como um inseto morto para nossa admiração. Graças aos livros, a transmissão impressa dos contos populares vem se dando continuamente e podemos citar outros pousos a fim de despertar a curiosidade de futuros pesquisadores, na companhia de antropólogos, folcloristas do passado, mitógrafos, linguistas e escritores de escolas literárias diversas: os italianos Boccaccio (1358), Straparola (1550) e Basile (1635); os russos Pushkin (1831) e Afanassiev (1855), os noruegueses Asbjørnsen e Moe (1841), entre ingleses que organizaram histórias do Reino Unido e da Índia, espanhóis que viram união e diversidade entre suas comunidades autónomas, pesquisadores orientais e orientalistas, jesuítas que estiveram na Ásia e na Oceania, africanistas, amantes do mundo árabe, portugueses como Gonçalo Fernandes Trancoso (1575), Adolfo Coelho (1879), Leite de Vasconcelos (1881), Teófilo Braga (1883), Consiglieri Pedroso (1910) que juntamente aos nossos Sílvio Romero (1885) e Luís da Câmara Cascudo (1919), muitas vezes foram tomados como provedores de vasto material para a escrita de recontos pelos autores de literatura para crianças.

O conto popular entra em luta com a apropriação, a adaptação, enfim, com o reconto: uma narrativa escrita para ser lida com os olhos e para a leitura em voz alta, dando-nos a ilusão de que vem de um mundo distante ao nosso dia a dia, sem letras, sem livros, sem telas por onde rolam antigas-novas histórias.

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PETER O’SAGAE

PETER O SAGAE é mestre e doutor em Letras pela FFLHC/USP, pesquisando as relações da voz com o texto literário através do rádio, depois o intercâmbio da palavra com a imagem nos livros de literatura infantil, a partir de bases semióticas. Atuou no ensino superior e na área editorial, além de participar no júri do Prêmio Brasília, Barco a Vapor e Jabuti, em diversas ocasiões. Entre seus projetos, destacam-se o portal Dobras da Leitura (2000- 2012) e o curso Escrever para Crianças (2014-2019); dedica-se recentemente à produção de livros artesanais, no coletivo 2 no Telhado, com a parceria da designer e ilustradora Suryara Bernardi. Neste pandêmico 2020, também resenha livros para o Clube de Leitura Quindim e estuda o livro de artista através do curso Dobras de Si.