Separação. Lágrimas. Um rompimento. Será que vai ficar tudo bem? “Ah, no final, tudo sempre se resolve”, você pode pensar. Bem, pode se resolver, sim, mas nem sempre da forma como idealizamos. Acontece nos livros e também na vida. Acontece com os maiores e com os pequenos. Acontece em Olho d’água, escrito e ilustrado por Marcelo Tolentino e publicado pela Boitatá. A intenção aqui, claro, não é dar muitos spoilers, mas dá para adiantar que é um daqueles livros que tratam das situações e das emoções com toda a sua complexidade, o que implica em não atender a possíveis expectativas até as últimas páginas.
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Para alguns, as histórias que não acabam com um final feliz podem causar estranheza, frustração e até raiva. Na visão da psicóloga e psicanalista Fê Lopes, coautora do podcast Psy(co), contudo, não ter o imperativo da felicidade no final dos livros é uma conquista. “Do ponto de vista do nosso ideal, sempre buscamos finais felizes”, explica. E isso, segundo ela, vale para todas as experiências. A literatura, no entanto, ajuda a “traduzir a vida” para a criança e para nós mesmos.
“Se a ideia é apresentar personagens humanos, esses personagens são complexos e a vida é complexa. Portanto, não temos só ‘e viveram felizes para sempre’”, observa. Diferentes tipos de desfechos, mais abertos ou inesperados, permitem que a criança se enxergue nas narrativas e perceba as nuances da vida.
Não há dúvidas de que os finais felizes também têm seu valor. São reconfortantes, seguros e nos dão esperança. Que sem graça seria não poder recorrer nem à arte para imaginar um mundo em que tudo dá certo! Mas é importante lembrar que esta não é a única forma de contar uma história. “A complexidade da vida é muito menos sobre finais felizes e muito mais sobre uma trajetória interessante”, aponta Fê, citando o escritor e psicanalista Contardo Calligaris.
A diversão pode estar na aventura, na descrição dos personagens, na ilustração, no formato do texto, no final inesperado e em tantos outros lugares, inclusive, no que o próprio leitor interpreta ou imagina, depois de ler a última página e fechar o livro. “A criança precisa lidar com o final que não é o que ela esperava porque, enfim, a vida não é o que a gente espera e parte do que vivemos com a literatura é justamente o encontro com o inusitado”, avalia.
HISTÓRIAS SEM FINAL FELIZ E O improvável no cotidiano
Não dá para negar que, como pais, às vezes, a vontade é mesmo de colocar a criança dentro de uma bolha e protegê-la de tudo, inclusive de possíveis experiências desagradáveis – desde as menores, como a frustração com uma história que não termina do jeito que ela queria, às maiores, como um trauma real. Mas esse desejo tende a passar, quando nos lembramos que a vida é feita também de adversidades e que a melhor forma de amar e educar seu filho é prepará-lo para lidar com elas.

“Se uma criança não está lidando com desfechos diferentes, tem algo muito equivocado acontecendo, porque lidamos com a imprevisibilidade todos os dias”, diz a psicóloga. Lembra daquele dia em que vocês planejaram um passeio incrível no parque e choveu? Ou então quando se programaram para assistir a um filme e acabou a luz? Quando o carro quebrou, bem no dia em que vocês se preparavam para pegar a estrada? É a partir de situações assim, em proporções maiores ou menores, que as crianças vão “ganhando musculatura”, como define a especialista, para lidar melhor com as situações que possam levar a frustrações ou exigir resiliência, mudança de planos, novas soluções.
“Esse tipo de situação, de conversa, de experiência, fornece para a criança um desenvolvimento de uma habilidade incrível, que é a flexibilidade”, explica ela. Essa habilidade vai ajudar seu filho em diferentes situações, ao longo de toda a vida. Para que isso aconteça, porém, é fundamental treinar para enxergar outras possibilidades e oportunidades e para entender o que fazer diante da situação que se apresenta naquele momento.
Mas atenção: ganhar resiliência e compreender que não é raro a vida fugir do roteiro que planejamos não significa também que para tudo existe sempre um lado positivo. De vez em quando, será apenas uma situação difícil ou ruim e pronto. “A gente não controla tudo”, lembra Fê. Nem sempre temos algo a aprender com os acontecimentos. Nem com os livros.
Neste ponto, é preciso reforçar que a leitura nem sempre tem a função de ensinar algo. Além disso, o impacto depende também da subjetividade e da interpretação do leitor, seja ele adulto, adolescente, criança ou idoso. “Acho muito curioso quando as pessoas me procuram, pedindo indicação de um livro que trabalhe algum tema específico”, observa a psicóloga. “É como se a literatura fosse uma encomenda para criar uma história, que desse conta de algo que eu quero transmitir para a criança”, acrescenta.
Aqui, sim, vai um spoiler: não funciona dessa forma. Um livro pode despertar interesse, dúvidas, inspirar, mostrar outros pontos de vista, trazer identificação e até ser uma ferramenta auxiliar ou ponto de partida. Mas não necessariamente precisa ter um propósito específico. Pelo menos não de forma isolada.
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Mas a vida já é tão difícil…
Com este argumento, alguns pais torcem o nariz para livros que não tenham desfechos felizes. “A vida real já é tão pesada… Será que uma criança pequena precisa ser frustrada até na hora da leitura?”. Precisar, não precisa. Mas pode acontecer – e pode ser uma experiência interessante para ela, estimular novos pontos de vida, identificação, empatia, entre outras sensações.
Provavelmente, como adulto, você já entendeu que a trajetória é composta por momentos bons e ruins, por experiências que fazem rir e outras, que inspiram lágrimas, por tentativas que dão certo e por outras, que acabam terminando de uma forma totalmente diferente do que imaginávamos.

Fora dos livros, as situações complicadas, como a mudança de um amigo, a perda de um animal de estimação, uma nota ruim na escola, uma virose daquelas, bem no fim de semana que você tinha um aniversário para ir… Tudo isso acontece. “O primeiro ponto é a gente aceitar que dói. A tristeza tem tempo e não há literatura nenhuma que dê conta desse tempo. Não tem manual que diga quanto vai durar”, ressalta a especialista. “Quando perdemos uma pessoa ou ficamos longe de um amigo, o que vai acontecer é que a vida vai crescer em volta. E isso leva tempo”, descreve.
É importante aceitar a realidade que se impõe, o sentimento que essa realidade traz e acolher a tristeza, sem minimizá-la. Os adultos podem ajudar a criança a lembrar, por exemplo, que, quando uma pessoa querida precisou ir embora da nossa vida, seja por qual motivo for, é importante saber que ela é o que guardamos dela dentro de nós: as conversas que tivemos, as experiências que vivemos, os momentos, as memórias.
“Tudo isso vai ajudando a gente a construir uma espécie de relicário das nossas pessoas favoritas”, afirma. Dói, mas, aos poucos, a vida brota ao redor – e a gente continua o caminho, rumo às próximas páginas, aos próximos passos, aos próximos livros e às próximas aventuras. Desta vez, sabendo que não dá para prever o final.
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Estante QUindim
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