Castigo já funcionou na sua casa? Se você tem filhos ou convive de maneira bem próxima e regular com crianças, deve ter se deparado (mais de uma vez, inclusive) com aquele momento em que colocar a criança de castigo parece ser a única solução possível.

É bem comum encontrar mães, pais e cuidadores em geral que acreditam que as regras da casa e os combinados entre os membros da família estão bem claros. Afinal, se eles já foram repetidos à exaustão, não é possível que alguém ainda tenha dúvidas, todo mundo já sabe! Qual a surpresa, então, quando a criança não os cumpre? O que não falta é irritação, mágoa, grito e choro – com frequência, de ambos os lados.

Quando o assunto são as crianças mais novinhas, o desafio é ainda maior. Elas muitas vezes não compreendem os sermões que a maior parte dos adultos adora dar, o que torna ainda mais tentadora a ideia de colocar de castigo: “vou te deixar aí pensando sobre a besteira que você fez para entender que não pode repetir isso”.

Que atire a primeira pedra quem nunca levou para o pessoal e acreditou que as atitudes do pequeno tinham como objetivo supremo desafiar sua autoridade e, claro, testar sua paciência. 

Se você já pensou algo como “essa criança só teima assim comigo porque sabe que me irrita”, fique com a gente até o final da leitura para saber mais sobre o castigo. Já podemos adiantar que, diferentemente do que muita gente ainda acredita, por si só ele é incapaz de fazer seu filho mudar de comportamento.

As consequências do castigo para a criança

Castigo funciona? As consequências do castigo para as crianças

Há quem coloque uma criança de castigo para não chegar ao ponto de agredi-la fisicamente. O adulto manda a criança para o cantinho do pensamento para esfriar a cabeça durante um momento tenso, de teimosia ou discussão, e sente que agiu bem, pois não chegou a aplicar nenhuma palmada.

E, veja bem, esse adulto não está totalmente errado. Nenhum tipo de agressão física contra crianças é justificável ou deve ser tolerada, e por isso é tão necessário buscar alternativas. No entanto, as agressões verbais podem provocar traumas que vão perdurar durante toda a vida, da mesma maneira ou até mesmo pior do que fariam as palmadas.

Um cuidador que não agride fisicamente, mas que coloca uma criança de castigo dizendo que ela é burra, que não aprende nunca e que não consegue fazer nada direito, por exemplo, está causando danos bem sérios a essa criança, ainda que não encoste um dedo nela.

O castigo, por si só, pode até funcionar momentaneamente. Afinal, se você disser para o seu filho que ele vai ficar sentado em um canto da sala, sem poder brincar ou ver televisão porque brigou com o irmão e não obedeceu, é bem provável que ele interrompa o comportamento imediatamente.

Isso não significa que ele entendeu a relação de causa e consequência das suas ações, mas sim que não deseja ser punido e perder o acesso às coisas que gosta de fazer. De um lado você acha que funcionou, já que conseguiu cessar o comportamento indesejado e, do outro lado, internamente, a criança pode estar fervilhando de sentimentos negativos.

Frequentemente o castigo leva a uma série de sentimentos como ressentimento e desconfiança dos pais, reações de vingança e vontade de fazer ainda pior da próxima vez, rebeldia e retaliação.

Daí também pode surgir uma enorme vontade de esconder as coisas para não ser pego e evitar o castigo. Agora imagine só, a médio e longo prazo, a quantidade, variedade e gravidade de problemas que vocês podem vir a ter por conta disso.

Veja também: Meu filho só diz “não”. Como lidar?

Por que o castigo não funciona a longo prazo

Castigo não funciona

De maneira geral, colocar uma criança de castigo por ações e comportamentos indesejados acaba fazendo que ela só se comporte bem quando está sendo observada. É o típico caso da criança que é “um anjinho” em casa, mas que arruma briga e confusão diariamente na escola.

Você já viu algum cuidador dizendo algo como “nossa, mas em casa ela não faz nada disso, então essa professora deve ter entendido tudo errado ou então está exagerando”? Pois é.

Nesse exemplo, caso os pais acreditem na professora, por assim dizer, é comum que os castigos aplicados se tornem cada vez mais rígidos, aumentando ainda mais a revolta da criança. 

Ela pode começar a “terceirizar” a culpa, dizendo que agiu assim ou assado por conta de um coleguinha ou de outro, ficando cada vez mais difícil de compreender e de assumir a responsabilidade por aquilo que fez.

Sobretudo, o castigo não funciona a longo prazo porque não cumpre o objetivo de educar e de ensinar a relação entre ação e reação, causa e consequência. Isso só se consegue com muito diálogo, proximidade, vínculo e, claro, bastante trabalho.

Veja também: Como a falta de diálogo familiar pode nos afetar?

Se o castigo não funciona, quais são as alternativas?

Alternativas ao castigo

Educar uma criança nunca foi nem nunca será uma tarefa fácil. Criar um ser humano que entende e dá valor ao respeito e amor por si mesmo e pelo próximo, que entende e pratica a empatia, que compreende o valor da paciência e da persistência exige de nós muita dedicação, e uma renovação diária do compromisso com os filhos que queremos ver no mundo.

Assim, se você diz para o seu filho que é muito importante ouvir e respeitar a vez dos outros de falar, mas não escuta, não presta atenção e o atropela quando ele quer te contar alguma coisa, não dá para esperar que o comportamento dele mude. É preciso começar por você.

Existem algumas técnicas que você pode colocar em prática para aposentar de vez a prática de colocar a criança de castigo. Vamos falar sobre elas.

1 – Diálogo (e não monólogo)

Conversar com seu pequeno é o primeiro passo para estabelecer um vínculo sólido e de confiança mútua com ele, mesmo com as crianças mais novinhas. Sempre que uma situação for previsível você deve explicar tudo o que for possível para o pequeno.

Vamos ver um exemplo prático. Se seu filho faz pirraça toda vez que vai sair do parquinho ou da casa da vovó, em vez de dizer que não vai mais levá-lo lá porque ele sempre age assim, comece a conversar antes mesmo de sair de casa.

Explique que vocês vão sair de casa, que vão pegar o carro da família ou vão passeando a pé até chegar ao parquinho, que lá ele pode encontrar outras crianças ou que talvez naquele dia sejam só vocês dois e que, quando for chegando a hora de voltar, você irá avisá-lo.

Quando faltar meia hora para sair do parquinho, avise ao seu filho. Quinze minutos depois, repita o alerta, e aos dez minutos, cinco minutos e dois minutos, também. Na hora de sair, diga: “filho, desça no escorrega mais duas vezes e depois temos que ir”.

Assim, você dá ao seu filho a chamada previsibilidade, que é fundamental para que a criança se coloque em um estado cooperativo com você.

Pode ser que ainda haja choro na hora de ir embora, mas não desista. Repita esse processo todas as vezes e com o tempo você vai perceber que seu filho passará até mesmo a dar tchau para os coleguinhas.

2 – Estimule a criança a refletir sobre as suas ações

Castigo para crianças e diálogo

Para refletir sobre as ações é preciso falar sobre os sentimentos – os da criança e os seus também. Ajude a criança a entender suas próprias emoções, para que seja gradativamente mais fácil lidar com elas.

Por exemplo: se sua filha ficou chateada porque não tinha com quem brincar e acabou rabiscando as paredes, e na sua casa esse não é um comportamento aceitável, converse com ela e pergunte: “O que estava acontecendo quando você rabiscou as paredes? Você sabe que não fazemos isso aqui em casa, então o que você gostaria de estar fazendo em vez disso?”.

Diante da resposta, explique: “Ah, então você queria brincar com a mamãe, mas como ela estava trabalhando você ficou triste e zangada… Tudo bem se sentir assim. A mamãe adora brincar com você, e algumas vezes vai ter que parar para trabalhar. Vamos combinar os momentos de brincadeira para que isso não aconteça de novo?”.

3 – Faça combinados e leve a sério

Uma parte importante da confiança das crianças nos adultos nasce com base nas palavras e nos acordos cumpridos. Por isso, se na sua casa existe um combinado de só ligar a televisão depois de terminado o dever de casa, por exemplo, seja firme e explique os motivos para fazer esse combinado.

Diga que é importante que estejam concentrados nas tarefas da escola e que há um período de tempo determinado para ver TV.

Veja bem: firmeza não tem relação com autoritarismo. O importante é que as crianças notem coerência entre suas palavras e ações, e que saibam que o que você diz tem valor. Assim, quando você disser que vai fazer alguma coisa, faça. E quando disser que não vai fazer alguma coisa, não faça.

Estabeleça, junto da criança e o mais cedo possível, quais são os acordos inegociáveis da família de vocês. Se na sua casa não é permitido bater, gritar ou empurrar, explique isso para a criança e diga os motivos: não pode bater porque machuca, não pode gritar porque não há necessidade disso para se fazer entender, e não pode empurrar porque é preciso esperar a sua vez de passar e também pedir licença.

4 – Peça desculpas se errar

Castigo e diálogo

As crianças podem se beneficiar muito ao perceber que somos humanos e, portanto, passíveis de erro também. Ao errar e pedir desculpas para o seu filho, você se mostra vulnerável, e indica para ele que pode confiar em você quando errar também.

Todos aprendemos e erramos muito durante a vida. Isso faz parte dos processos de aprendizagem naturais e inerentes ao amadurecimento do ser humano. Não se pode ter vergonha de errar, visto que tantas vezes aprendemos mais com os erros do que com os acertos. O que não se pode mesmo é encorajar que esses erros sejam escondidos, o que, como dissemos, acaba sendo uma das consequências mais negativas do castigo.

Veja também: Por que as crianças mentem e como lidar com isso

5 – Tente compreender os motivos da conduta

Quando a criança faz algo de errado, além de conversar sobre o que aconteceu e suas consequências, procure entender de onde veio o comportamento. Nem sempre é a criança quer apenas chamar a atenção, pode ser que haja alguma dificuldade real por trás disso.

Por exemplo: se você sabe que seu filho fica impaciente e mal-humorado quando está com fome, não espere que ele chegue no limite e comece a gritar ou se jogar no chão para dizer “olha só que coisa mais feia você está fazendo”.

Ofereça alimento antes que ele comece a ficar irritado e, caso isso aconteça, ajude-o a compreender o que está havendo: “você está ficando zangado porque está com fome, então que tal comer uma frutinha agora?”.

6 – Encontrem, juntos, uma solução para o problema

Em vez de colocar a criança de castigo, relacione o ocorrido com uma solução para o problema e atue junto com a criança. Por exemplo, se ela rabiscou as paredes, ajude-a a limpar e explique por que motivo não deve fazer isso novamente.

Se foi grosseira com o irmão mais novo, explique que palavras podem machucar. Conte histórias de quando era mais nova, mostre fotos, e dê exemplos práticos de coisas que ela fazia que não eram legais e que, agora, não faz mais. Mostre que é possível mudar e que o irmão pode aprender, assim como ela.

Se seu filho deixa os brinquedos jogados e eles acabam se perdendo, não adianta dizer “não vou comprar mais nada, porque você perde tudo”. Explique que é importante deixar as coisas no local correto para que elas estejam lá quando nós precisarmos.

Coloque-se disponível para a criança, e pense junto com ela sobre as possíveis soluções para o acontecido. Assim, seus laços vão se estreitar ainda mais, pois ela verá em você não apenas uma pessoa que institui disciplina, mas alguém com quem se pode contar quando as coisas não vão bem.

Nós sabemos que essas mudanças não são fáceis, mas elas são totalmente possíveis. Uma vez que você decida começar a trilhar esse caminho, seu filho vai acompanhar você.

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