De um lado bonecas, mamadeiras e bercinhos e panelinhas rosas. De outro, carrinhos, espadas de plástico e bolas de futebol. A separação entre brinquedos considerados de meninas e de meninos é visível nas prateleiras da maioria das lojas tradicionais do país. Mas quem dita o que é de menina ou de menino na hora de brincar? As crianças ou nós, os adultos, que impomos estereótipos de gênero desde cedo?

Especialistas ressaltam a importância de desmistificar a ideia de que existem brinquedos para meninas e meninos e avisam: brincar de boneca é bom para todo mundo. A brincadeira ajuda a criança a ativar regiões cerebrais associadas ao processamento de habilidades sociais e a desenvolver o cuidado com o outro e consigo. 

Dois meninos sentados brincando de casinha.

Uma pesquisa feita pela Universidade de Cardiff, no Reino Unido, em 2020, demonstrou como brincar de boneca ajuda as crianças a desenvolverem habilidades emocionais, como a empatia, por exemplo. O estudo revelou que, enquanto interagiam com as bonecas, as crianças analisadas tendiam a falar com mais frequência sobre seus próprios pensamentos e sobre “as emoções do brinquedo”, se colocando no lugar do outro, como num exercício de empatia.

Os pesquisadores perceberam que as bonecas conseguiam fazer algo que outras brincadeiras, como jogos eletrônicos, não fazem: ajudam a ativar regiões cerebrais associadas ao processamento de habilidades sociais, explica a professora Sarah Gerson, que comandou o estudo. Segundo ela, trata-se de uma área que é “ligada” quando pensamos em outras pessoas, especialmente sobre sentimentos

“As bonecas estimulam as crianças a criarem seus próprios mundos imaginários, ao contrário dos jogos de construção ou de resolução de problemas. Elas são incentivadas a pensar sobre outras pessoas e como elas podem interagir umas com as outras”, afirmou a pesquisadora, na época que o estudo foi publicado.

Por isso, o brincar de boneca não deve ser restrito às meninas: meninos também devem se conectar com suas emoções, saber expressar o que sentem e aprender se relacionar com o ato de cuidar: de si mesmo e do outro

Além disso, ao brincar de boneca, a criança usa a imaginação para interpretar um papel diferente: ela passa a ser a pessoa adulta, que cuida, e a boneca passa a ser a criança, que será cuidada. Cuidar da boneca, colocá-la para dormir, vesti-la, dar comidinha ou levar para passear: tudo o que as crianças fazem com uma boneca é, de certa forma, uma repetição do que os adultos fazem quando cuidam dos pequenos

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“É uma brincadeira que só tem pontos positivos. O menino que brinca de boneca vai aprender a cuidar bem de outras pessoas, porque para eles a boneca é a representação de outro ser humano”, explica a pedagoga Carolina Senra. “Por isso, um menino que cuida de uma boneca vai se tornar um homem mais cuidadoso, um melhor pai ou cuidador, e um adulto responsável pelas tarefas domésticas. Brincar de boneca ajuda a criar homens mais funcionais”. 

Além disso, a especialista lembra que é sempre importante que os adultos vejam a brincadeira, essa e qualquer outra, como uma maneira pela qual a criança se comunica com o mundo que a cerca. Assim, o brincar pode ser um meio de comunicação, inclusive para que o adulto possa entender o que ela está vivendo na vida real, por meio da brincadeira

“Uma criança que brinca dando tapas em bonecos, por exemplo, provavelmente vive em um ambiente de violência doméstica. Crianças que vivem em um ambiente de cuidado reproduzem esse cuidado na hora de brincar”, afirma Senra. “Elas reproduzem o que estão vivendo. As brincadeiras refletem isso. Elas fantasiam o que elas vivem no dia a dia delas”. 

Construção social

Meninas jogando futebol society.

Apesar de todos os benefícios, vivemos em uma sociedade que estigmatiza meninas que jogam futebol ou andam de skate, assim como meninos que gostam de brincar de boneca ou de comidinha, por exemplo. Afinal, crescemos em uma estrutura que valoriza mulheres que realizam funções domésticas e cuidam do lar e dos filhos, enquanto homens devem desbravar o mundo. Por isso, meninos são incentivados a desenvolver mais atividades motoras ou de lógica, e meninas a brincarem de casinha. 

“Vejo isso em casa. Minha filha, que é mais nova e cresceu num ambiente com o irmão, sempre pediu brinquedos considerados masculinos, porque vive mais exposta a este tipo de brinquedos. Quer usar a calcinha de Homem Aranha, diz que é o Sonic quando sai correndo pela casa. Os adultos, principalmente os mais velhos, estranham”, afirma a pedagoga. “Por outro lado, lembro que uma vez meu filho pediu panelinhas para brincar e não achei nada em cores que não fossem rosa ou lilás. Ele não se importou”.

Por isso, além de todos os benefícios, brincar de boneca ajuda a desfazer a estrutura machista em que crescemos. “Os meninos que vivem em um ambiente vendo o pai cozinhando ou levando seus filhos na escola não fazem distinção desses papéis [de homem ou mulher] na hora de brincar. Meu filho nunca ouviu, por exemplo, que as panelinhas que ele tanto queria ganhar eram um ‘brinquedo de menina’. Mas nós, pais, sentimos muita dificuldade em comprar brinquedos fora desse estigma. Por que todas as panelinhas são rosas se as panelas de adulto são de outras cores?”, questiona Senra. 

Veja também: Existem livros para meninas e para meninos? Entenda a importância da literatura sem a distinção de gênero.

Representatividade

Duas meninas brincando com boneca.

E justamente por que as crianças veem as bonecas como uma representação da realidade é fundamental que as empresas que fabricam os brinquedos fomentem a diversidade e a inclusão — elas podem se tornar aliadas na construção de um pensamento livre de preconceitos desde a infância. 

A pedagoga lembra que, apesar de não nascerem preconceituosas, as crianças são bombardeadas por padrões estereotipados, que não fortalecem a sua própria autoestima, nem incentivam o respeito às diferenças. Um exemplo claro são as bonecas: no Brasil, mais da metade da população é negra, mas é preciso um esforço para encontrar nas prateleiras bonecas que saiam do padrão “Barbie”: louras, magras e altas.

“Faço parte de uma geração que cresceu brincando com bonecas louras, magras, altas, que representam pouquíssima parte da população brasileira. Crescemos com esse estereótipo. Por isso, a representatividade é importante para que crianças se reconheçam nas bonecas. Negras, cacheadas, gordas, com cadeira de rodas, essa variedade faz toda a diferença, inclusive na autoestima”. 

Segundo pesquisa da campanha “Cadê Nossa Boneca?”, divulgada em 2020 pela organização social Avante, apenas 6% de todas as bonecas fabricadas no país são negras.  

Mas, enquanto as grandes empresas ainda caminham a passos lentos nessa mudança — a Mattel, por exemplo, criou uma linha com bonecas negras, albinas, ou com deficiências, mas não são vendidas em todas as lojas de departamento —, pequenas iniciativas, como a Era uma vez o Mundo, crescem no Brasil. 

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A empresa, idealizada em 2013 por Jaciana Melquiades e Leandro Melquiades, desenvolve brinquedos educativos negros e atividades lúdicas para crianças. Em 2022, foram distribuídas quase 1500 bonecas pretas nas escolas públicas do Rio de Janeiro, gerando representatividade e impactando mais de 8 mil pessoas. Dandara, Zambi ou Akin são algumas das bonecas e bonecos negros criados pela marca.

Outro exemplo é a Anaty, marca paraense de produção artesanal de bonecas indígenas. “As grandes empresas de comercialização de brinquedos geralmente perpetuam narrativas dominantes sobre gênero, etnia e classe social”, afirma Fontel Souza, uma das fundadoras da Anaty. “Prova disso é o quanto bonecas brancas, vestidas de princesas, imperaram entre nossas experiências como meninas e seguem fazendo parte de nosso imaginário quando adultas”.