Durante os primeiros anos de vida, a gente começa a entender o que são nossos sentimentos. Aprendemos a identificar certas emoções, a elaborá-las e a comunicá-las. Todo mundo sabe que essa tarefa não é fácil e que esse entendimento e amadurecimento se dá de maneira gradual. Só que, mesmo assim, é comum que os adultos imprimam um viés pejorativo à maneira como os pequenos lidam com suas emoções – o que dificulta ainda mais o processo.
Sabe a famosa frase: “fulano chorou como um bebê”? Há um caráter pejorativo, quase ofensivo em ser comparado com uma criança. Por que será que não sabemos lidar com isso? “Quando alguém diz ‘chorei como uma criança’, vale perguntar: de que criança estamos falando? Daquela que tem liberdade para expressar o que sente, ou de uma figura vista como imatura e inadequada?”, questiona a psicanalista Jéssica Domingues.

Ela reforça que o desenvolvimento emocional é uma jornada gradual e constante. Com isso em mente, os adultos devem ter paciência frente ao aprendizado das crianças e também precisam entender que, mesmo na maioridade, estamos sempre evoluindo. “As emoções são como mapas: indicam onde estamos e para onde podemos ir, mas não determinam o destino. Quando conseguimos escutá-las em vez de reprimi-las, abrimos espaço para compreender nossos caminhos e escolher, de forma mais consciente, como seguir adiante”.
SUBSTITUA estigmatizar POR instruir
Frases como “pare de chorar como um bebê” ou “você já é grande pra ficar triste por isso” não apenas não ajudam em nada como também colocam a infância como algo ruim. É como se fosse negativo ser um bebê e que crescer demanda não estar triste nunca.
Jéssica ainda aponta que estigmatizar a maneira como a criança expressa emoções pode transmitir a ideia de que sentir é algo errado ou vergonhoso. “Isso pode levar a muitas consequências, como silenciamento, vergonha e dificuldade de pedir ajuda. Outro ponto bem importante é a desconfiança que a criança pode desenvolver quanto às próprias percepções e emoções”, destaca.
Com isso, é possível que o pequeno ou pequena entre numa dinâmica de dependência, em que espera que o cuidador valide seus sentimentos. Não raro, essa demanda por validação se estende a outras pessoas e acompanha o indivíduo durante a vida adulta.
“Um exemplo simples: quando uma criança chora e ouve ‘engole o choro, não foi nada’, ela aprende a desconfiar da própria experiência. Tanto a emoção é reprimida, como o evento é negado (‘não foi nada’). Já quando o adulto diz ‘eu sei que doeu, estou aqui com você’, legitima o sentimento sem perder o papel de guia”, ressalta a psicanalista. Ela frisa que é muito importante que o adulto assuma o papel de instrutor, amparando a criança na elaboração dos sentimentos.
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Nesse contexto, Jéssica cita os ensinamentos do pediatra e psicanalista britânico Donald Woods Winnicott, cuja teoria diz que a independência nasce da dependência. No início da vida, o bebê usa o choro para se comunicar e a mãe (ou o cuidador que exerça tal papel) precisa acolher as demandas, atuando como tradutora emocional. Com o tempo, outros adultos também entram nessa dinâmica, ampliando os modelos de relação e de comunicação.
A criança vai adquirindo certas autonomias, mas ainda precisa de auxílio para que suas emoções sejam traduzidas e compreendidas. “Winnicott entende o que devemos visar como resultado desse desenvolvimento: ‘tornar possível que cada indivíduo encontre e estabeleça sua identidade de maneira tão sólida que, com o tempo, e a seu próprio modo, ele ou ela adquira a capacidade de tornar-se membro da sociedade — um membro ativo e criativo, sem perder sua espontaneidade pessoal nem desfazer-se daquele sentido de liberdade que, na boa saúde, vem’”.
adultos também precisam (re)aprender sobre sentimentos
Por mais que as crianças precisem de apoio e auxílio, é bem importante que os cuidadores estejam abertos a refletir e aprimorar a maneira como eles próprios encaram suas emoções. Estamos em constante evolução. E mais: ao lidar com os sentimentos de uma criança, é possível que o adulto tenha que confrontar questões que marcaram sua própria infância.
“Cuidar de uma criança convoca o infantil que vive em cada adulto. Se esse encontro com a própria história emocional foi difícil, há risco de responder à criança com impaciência, censura, negligência ou até violência. Por outro lado, quem conseguiu se reconciliar, mesmo que parcialmente, com sua própria infância, tende a estar mais disponível para olhar com empatia”, diz Jéssica.
É muito comum que os adultos reproduzam atos de opressão semelhantes aos que eles vivenciaram na infância – e que juraram jamais passar adiante. Refletir sobre a história pessoal não é tarefa fácil, mas trata-se de um movimento essencial para que os cuidadores exerçam de maneira responsável a tarefa de guiar uma criança no aprendizado emocional.
Isso traz benefícios também para o cuidador. “Conviver com crianças nos coloca diante do nosso próprio infantil, aquele que foi reprimido, mas não extinto. Esse encontro pode ser desafiador, mas também libertador: ajuda o adulto a recuperar criatividade, flexibilidade e honestidade consigo mesmo”.
Nem sempre é fácil ter paciência, exercer o acolhimento e, muito menos, entrar em contato com questões sensíveis das nossas vivências. Os cuidadores vão falhar, mas o importante é mirar no acerto e praticar, inclusive, a gentileza consigo mesmo. “Cuidar de alguém é um trabalho delicado e sensível, exige adaptação e espaço para que novos recursos possam ser criados. O ponto de equilíbrio vai se confundir em muitos momentos, mas o respeito e a reflexão sobre as próprias emoções podem auxiliar nessa tarefa desafiadora”, finaliza Jéssica.
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Para ler e refletir sobre o tema: “Olho D’água”, de Marcelo Tolentino
“Era uma vez, quatro amigos inseparáveis. Até que, um dia, um deles se afastou e a saudade do menino começou a vazar pelos olhos, lavando e alagando todo lugar por onde passava…”

Essa é a premissa do livro Olho D’água, já enviado pelo Clube Quindim aos seus assinantes. De maneira sensível, poética e fantástica, Marcelo Tolentino aborda a tristeza de um menino – manifestada através de um choro persistente.
Sem saber o que fazer, os pais do garoto buscam especialistas, como uma médica, um encanador e até um mergulhador. Depois, as lágrimas passam a regar plantas e encher caixas d’água, fazendo com que se tornem menos assustadoras.
A obra nos faz lembrar que a tristeza também é parte da vida das crianças. É impossível blindar os pequenos desse sentimento, mas a gente pode encontrar maneiras de trabalhá-lo – com paciência e muito carinho.
Estante Quindim
Conheça outros livros infantis, que fazem parte da seleção do Clube Quindim, para conversar sobre emoções e que ajudam pais e cuidadores a acolherem as crianças.








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