Parece impossível sequer imaginar, hoje, um grupo de crianças andando de bicicleta pelo bairro, sem que os pais acompanhem a localização em tempo real. O único combinado era voltar para casa antes de escurecer. Era uma rotina comum na infância, há um tempo não tão distante assim. A preocupação com a segurança e o bem-estar dos pequenos aumentou significativamente, o que é totalmente compreensível. Contudo, não dá para deixar de considerar os efeitos colaterais disso: até onde essa proteção é saudável? E, em que momento, vira um controle excessivo? Quais espaços estamos deixando para o brincar livre?

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Pais, tios, avós, monitores, recreadores, professores. Quase sempre, existem adultos interferindo, guiando ou mediando as brincadeiras infantis. Isso acontece na escola, no condomínio, em festas de aniversário, em recreações de hotéis. “Antes, bastava um quintal, um corredor ou uma calçada. As crianças inventavam juntas, se organizavam, criavam regras e resolviam conflitos. Hoje, os pais se sentem inseguros, os espaços diminuíram e o tempo livre se perdeu”, observa a fonoaudióloga Bruna Martins Araújo, da Clínica Multidisciplinar Terapeutas do Brincar (SP), especializada no desenvolvimento infantil. “Com isso, o brincar foi sendo terceirizado — e junto com ele, parte da autonomia e da capacidade criativa das crianças”, acrescenta.

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Uma necessidade das crianças ou dos pais?

Crianças sabem brincar e não precisam que adultos coordenem ou ensinem. Isso acontece como uma forma de amenizar as aflições dos pais, que sentem medo de que os filhos se machuquem, briguem, se sujem. Pronto. Lá vai mais uma culpa para a conta dos pais? Não é bem assim.

A preocupação e a insegurança são normais. Afinal, somos bombardeados, diariamente, com tantas notícias ruins… É impossível ignorar. Será que o mundo anda mais violento ou nós é que ficamos sabendo de tudo em tempo real? Seja o que for, a necessidade de tentar controlar as crianças para livrá-las de qualquer mal nasce do amor. Que pai ou mãe não deseja garantir que fique tudo bem, sobretudo quando se trata de um filho? “Mas é preciso lembrar que o desenvolvimento não cabe no controle. Ele floresce no tempo da criança”, diz Bruna.

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O adulto tem uma certa tendência de querer antecipar, corrigir e evitar situações que, na verdade, fazem parte da brincadeira e precisam acontecer. Os pequenos aprendem com as adversidades e com a frustração. “Brincar livremente é também um exercício de tolerância à incerteza — para os pais e para as crianças. Quanto mais ansioso o adulto, menor o espaço para a curiosidade e o improviso, que são o coração do brincar”, afirma a especialista.

É claro que os riscos existem. Por isso, o papel do adulto é avaliar o ambiente, zelar pela segurança física e confiar. “Não é ausência total, mas presença confiante”, diferencia a fonoaudióloga. “Crianças precisam cair, se levantar, resolver pequenas disputas – é assim que elas constroem coragem e senso de responsabilidade”, completa.

É preciso lembrar de uma diferença fundamental: cuidar da proteção da criança não é sinônimo de dirigir o brincar. “Quando há sempre um adulto conduzindo, o brincar perde a natureza espontânea e passa a ser mais uma tarefa”, diferencia Bruna. Para ela, as crianças não precisam que alguém ensine brincar e sim de espaço, tempo e liberdade.

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A importância do brincar livre

“O brincar livre é o espaço onde a criança se encontra com ela mesma. É ali que ela experimenta, cria hipóteses, faz escolhas e aprende a lidar com frustrações — tudo isso sem a mediação constante do adulto”, explica a especialista.

Sem interferência direta, a criança é capaz de se tornar autora da própria experiência, o que fortalece a autonomia, a criatividade e o senso de competência. “Como fonoaudióloga, vejo o quanto o brincar espontâneo favorece a linguagem — a criança organiza pensamentos, constrói narrativas e amplia o vocabulário a partir do que ela mesma vive. Como mãe, percebo que, quando confio e deixo minha filha brincar livremente, ela me surpreende com soluções e ideias que eu jamais teria proposto. É bonito ver que o desenvolvimento acontece justamente quando o adulto se afasta um pouquinho”, destaca.

São muitas as habilidades exercitadas na infância, durante o tempo de brincadeiras livres. No campo cognitivo, a criança planeja, combina, resolve problemas e sustenta a atenção. No emocional, experimenta frustrações, aprende a esperar, a se autorregular e a lidar com o tempo das coisas. No social, negocia regras, se coloca, escuta o outro e exerce a empatia. “Estes momentos são um verdadeiro treino de vida — são as primeiras experiências de convivência e resolução de conflitos, essenciais para o futuro”, resume Bruna.

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Caminho do meio

Está claro que as crianças precisam de mais tempo livre, de preferência, junto de outras crianças, para organizar e criar as próprias brincadeiras. Infelizmente, também está claro que, ao menos nos grandes centros urbanos, o dia livre com os amigos pedalando pelo bairro até a noite cair, não vai acontecer. Qual seria, então, uma saída conciliatória para estas duas realidades?

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Segundo Bruna, o adulto pode, sim, estar por perto, atento e disponível, porque a presença transmite segurança, mas sem invadir ou sufocar. “Perceba o quanto seu filho é capaz de se organizar, inventar e persistir. Troque o comando por curiosidade: ‘O que você pensou em fazer com isso?’. Aos poucos, vá se distanciando e confie — a autonomia se constrói com pequenas doses de liberdade. E se algo der errado, lembre-se: é assim que ele aprende”, sugere.

O segredo, para a profissional, está na comunicação. Antes, é importante estabelecer regras simples e fazer combinados. “Em locais mais seguros, é possível deixar que seu filho explore com autonomia e independência, mantendo supervisão tranquila e distante. Autonomia não é ausência de cuidado — é cuidado com confiança”, afirma.

Então, o adulto nunca pode brincar com a criança? Não só pode – como deve. A interação é positiva e traz diversão, aprendizado e conexão. Tem hora para tudo. Só é preciso ter cuidado quando esse adulto toma o controle, propõe o tempo todo, corrige ou direciona o que deveria ser livre. “Estar por perto é importante — conduzir o tempo todo, não”, diferencia a fonoaudióloga. “Às vezes, bastar estar ali, com um sorriso, é o suficiente”, sintetiza.

O brincar é a base da linguagem, da socialização e da imaginação. “É também o lugar onde a criança se revela — e onde nós, adultos, podemos aprender a confiar no ritmo da infância”, completa Bruna.

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O livro do botão, de Sally Nicholls e Bethan Woollvin
O parque dos Dinossauros, de Dipacho e Juan Camilo Mayorga
O parque dos dinossauros, de Dipacho e Juan Camilo Mayorga
Pronto, foguete, vamos!
Pronto, foguete, vamos!, de Estevão Azevedo e Ana Matsusaki