Se existe uma sensação pior do que a de se sentir rejeitado é a de ver seu filho passando por uma situação assim. Mais difícil ainda é saber que a rejeição é uma experiência que faz parte da vida e que, mais cedo ou mais tarde, vai acontecer. Embora seja o desejo de muitos pais, é impossível – e nem seria saudável – blindar as crianças disso. O jeito é se preparar para oferecer o melhor suporte possível e ajudar os pequenos a navegarem por estes momentos desafiadores.

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Foto: Canva

Conforme a criança cresce, ela passa a ter mais autonomia para conviver com pessoas de fora do núcleo familiar. Isso acontece na escola, no parquinho, na praça, no clube, no condomínio… São estas oportunidades que vão ajudar os pequenos a desenvolverem habilidades sociais importantes para a vida, além de ensiná-los a criar conexões e como lidar com elas. Por outro lado, eles ficam mais expostos a frustrações.

É o que acontece quando ela convida outra criança para brincar e ela não aceita; ou o contrário: ela quer brincar com outros amigos, que não a convidam, a ignoram ou a rejeitam. Ocorre também quando um grupo faz um passeio e ela não é incluída, quando há uma festa de aniversário e ela não é convidada ou mesmo quando ela é a última a ser escolhida para o time, antes de uma partida de queimada ou de futebol. Quem nunca?

Para a psicóloga e psicoterapeuta Larissa da Silva Gomes, especialista em crianças e adolescentes, quando uma criança passa por uma situação de rejeição, o primeiro passo do adulto responsável deve ser o acolhimento. “É importante validar a emoção e oferecer uma escuta, para saber como ela se sente”, diz ela. “Depois, cabe avaliar o contexto para entender como tudo aconteceu, para orientá-la de forma assertiva”, acrescenta.

Faz toda a diferença analisar o contexto e entender as razões por trás do comportamento, o que pode ter ocorrido antes, se há um histórico, se é uma situação frequente ou que já aconteceu antes… Tudo isso pode fazer a diferença na leitura da situação e na forma de orientar e apoiar a criança.

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Em paz com o “não”

“Não” é uma palavra difícil de ouvir, até mesmo os adultos, que têm mais experiência e um córtex pré-frontal [a parte do cérebro responsável pelo controle de impulsos, regulação das emoções e tomada de decisões, entre outras funções] desenvolvido. Imagine para uma criança.

Por isso, em uma situação de rejeição, é preciso explicar, em uma linguagem acessível, que isso pode mesmo acontecer. “Uma solução possível é o uso de metáforas ou de histórias para contar que todo mundo tem características diferentes e interesses diversos”, diz a psicóloga. Usar recursos como livros, por exemplo, com histórias que falem sobre amizades e relações humanas, adequados para cada faixa etária, pode ser uma opção para jogar luz sobre o tema ou aprofundar o diálogo.

Nem todo mundo vai ser seu amigo como ajudar a criança a lidar com a rejeição_meio. Imagem do livro Não, não e não
Imagem do livro “Não, não e não“, de Noemi Vola. Foto: Rodrigo Frazão.

Para Larissa, é válido reforçar para essa criança que, por algum momento, se sentiu excluída ou deixada de lado, que ela não tem culpa ou responsabilidade por isso. “Evite explicações que girem em torno de ‘você não foi chamado porque você é assim’ ou ‘porque fez isso ou aquilo outro’. É fundamental ter o cuidado de manter a autoestima e ressaltar suas qualidades, lembrando que as diferenças estão nos interesses ou mesmo no momento de cada um”, aponta.

Pode ser que o colega não tenha convidado para brincar porque ele estava bravo com alguma outra coisa naquele momento, ou porque não lembrou, ou porque algo chato aconteceu na casa dele. Ou simplesmente porque não queria mesmo. E tudo bem!

Aproveite para ensinar seu filho que ele também pode dizer “não”, quando não estiver confortável em alguma situação ou não quiser – desde que faça isso com respeito. “Os pais vão ser modelos, norteadores, para que a criança tenha comportamentos assertivos em situações desafiadoras”, diz a psicóloga.

Pergunte à criança quantas pessoas existem na escola e lembre que vocês, como pais, não conseguem ser amigos de todos os outros pais, por exemplo. “Há um círculo mais próximo, menor, e sempre existe a possibilidade de explorar novos relacionamentos, fazer convites para outras pessoas… Em uma próxima ocasião, ela pode convidar outros colegas para brincar ou fazer alguma atividade do interessa dela”, lembra a especialista. E, assim, ela pode descobrir outras afinidades e outras brincadeiras de que gosta – o que pode ser muito mais legal do que ela imagina!

Veja também: O poder do “não”: como ensinar a criança a impor limites claros em suas relações

O perfil de cada criança

Validar e acolher as emoções de uma criança que se sentiu rejeitada é o primeiro passo, como você já viu. Mas esses sentimentos podem variar, de acordo com cada uma e da fase em que está. Nesse ponto, ninguém melhor do que quem conhece e convive com ela para observar e entender do que ela precisa.

“Uma criança mais introspectiva pode ser impactada de uma maneira diferente de uma mais extrovertida. A maneira como cada uma lida com a frustração, além do repertório de experiências anteriores e a forma como cada uma tende a manejar conflitos… Tudo isso influencia no processo emocional”, alerta Larissa.

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Foto: Canva

Algumas crianças ficam mais tristes, outras são mais resilientes e não ligam tanto. Em alguns casos, vão logo procurar outros amigos ou outras atividades, sem dar tanta importância à questão. Mas há crianças que parecem estar bem e não falam nada, porém, camuflam os sentimentos, mesmo quando não estão bem de verdade. “O papel dos adultos é observar esses comportamentos, se há isolamento, se há repetição… “, diz a psicoterapeuta. A partir daí é possível entender o cenário e ajudar a trabalhar as dificuldades.

Também é preciso entender se a rejeição é algo pontual e comum ou se há algo mais sério por trás, como quando a situação se repete, quando todos os colegas excluem um, quando há algum conflito… Nesse caso, é importante investigar melhor com a criança, com a escola, com a outra família para compreender o cenário e buscar uma orientação sobre como resolver.

Veja também: Como lidar com a introversão e a timidez na infância

Estratégias possíveis

Em termos de uma rejeição pontual, algumas ideias podem ajudar a melhorar a convivência entre as crianças. “Em uma escola, por exemplo, o adulto mediador, como a professora, pode conduzir um revezamento, alternando grupos e atividades”, sugere a psicóloga. É possível montar um circuito de brincadeiras e mudar as turmas que brincam em cada uma, durante um período determinado. “Isso ajuda a trabalhar o senso de justiça, de espera, de integração e de flexibilidade cognitiva. Ou seja, ensina que, em uma sociedade, eu não posso fazer só aquilo que eu gosto, mas preciso ter espaço para o outro, preciso vivenciar aquilo que às vezes é do meu campo desconhecido”, explica.

Outro ponto importante, tanto na escola, como em outros espaços, é orientar a criança a buscar novos colegas, a fazer convites e a flexibilizar, de vez em quando as próprias brincadeiras.

No calor do momento de frustração pela rejeição, além do acolhimento (ou mesmo antes dele), a criança pode precisar de um tempo para respirar, beber uma água, fazer um exercício de respiração… “Todos esses fatores contribuem positivamente para uma melhor estabilidade emocional”, afirma a especialista.

Quando a rejeição acontece com muita frequência ou mais de uma vez, mas a criança sofre muito com elas, pode ser necessário buscar ajuda profissional. “Algumas delas são levadas por distorções cognitivas a interpretar aquela situação com uma intensidade muito maior do que a real”, diz Larissa. “Os pais devem fazer essas mediações, mas, se isso começar a causar um isolamento social e muito sofrimento emocional, é importante que procurem uma avaliação psicológica e um acompanhamento de psicoterapia individual infantil para que essa criança faça um treino de habilidades e seja exposta gradualmente às situações que tendem a ser desafiadoras para ela”, indica.

Outro lembrete: cabe aos pais terem cuidado para não tomarem para si a situação que acontece entre as crianças. “É muito natural que os pais queiram proteger os filhos”, diz a especialista. “Mas eles precisam ter cuidado para não depositar os sentimentos deles nas crianças, em vez de acolher, escutar e orientar”, pontua.

Por último, vale lembrar que, às vezes, uma criança simplesmente não se identifica com a outra – e que está tudo bem, desde que respeitem uns aos outros. “É fundamental ensinar aos pequenos que, mesmo que não tenham interesse em formar vínculos com algum colega, o respeito, a gentileza, o cuidado e a empatia precisam permanecer”, diz Larissa.

E quando é o seu filho que rejeita?

Ser pai ou mãe da criança rejeitada é difícil, mas também não é simples estar na pele dos pais da que pratica a rejeição. Embora seja importante ensinar aos pequenos que eles têm o direito de dizer não, isso precisa ser dosado com a empatia. Nem sempre é fácil traçar uma linha entre o que é OK e o que pode prejudicar outras crianças.

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Foto: Canva

Para a psicóloga, tudo é questão de observar os comportamentos, a frequência e a constância em que as situações acontecem. Ao observar uma tendência, é preciso conversar de forma clara, com uma linguagem compreensível para a idade. “Ao observar uma tendência, o adulto pode perguntar: ‘Olha, filho, percebi que você não tem convidado o seu amiguinho ou que toda vez que ele chega para brincar com você, você não aceita. Aconteceu algo? Ele já fez algo de que você não gostou?’ Perguntar à criança primeiro pode ajudá-la a sentir que há um espaço seguro para compartilhar os sentimentos, sem punição e com acolhimento”, sugere.

Aí, sim, dependendo da resposta, é possível explicar que, às vezes, é válido ceder, que não podemos fazer só o que gostamos e que pode ser legal brincar também do que o amigo quer, revezando… “Fazer uma troca de papéis também ajuda. Pergunte à criança como ela se sentiria se a situação fosse o contrário, se ela fosse o colega que quer brincar e ninguém deixa. Trazer essa conscientização ajuda”, acrescenta Larissa.

Estante Quindim

Conheça três livros infantis para conversar com as crianças sobre as amizades e como o respeito às diferenças e às vontades do outro deve estar sempre presente em nossas relações.

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Não, não e não, de Noemi Vola
OlhoDagua CapaTransparente e1755260489208
Olho d’Água, de Marcelo Tolentino
Capa Frente Gordon e tapir transparente e1754488908556
Gordon e Tapir, de Sebastian Meschenmoser