Em meio a jornadas de trabalho extensas, rotinas corridas que dificultam pausas no dia a dia e uma participação cada vez mais presente da tecnologia no desenvolvimento infantil, o hábito da leitura compartilhada parece estar se perdendo em lares de diferentes partes do mundo. Ainda que o período da infância não esteja sendo, necessariamente, marcado por casas silenciosas, uma vez que o consumo de mídias nas redes sociais segue aumentando cada vez mais entre os pequenos, é o fechamento de livros e a falta de histórias contadas em voz alta pelos pais que fazem um barulho preocupante.

Imagem do livro "Cadê o sono da Stella?", de Anete Melece. Foto: Clube Quindim.
Imagem do livro “Cadê o sono da Stella?“, de Anete Melece. Foto: Clube Quindim.

É o que mostra o estudo “Social Reading Spaces” (Espaços de Leitura Social, em tradução livre), publicado pela editora HarperCollins do Reino Unido em parceria com a School Library Association. De acordo com os dados levantados, divulgados no primeiro semestre de 2025, crianças estão lendo cada vez menos de maneira compartilhada, seja com os pais em casa ou até mesmo com amigos e professores nas escolas. 

Segundo o censo, apenas 41% das crianças de 0 a 4 anos têm a prática frequente em suas casas, um declínio bastante perceptível de mais de 20% em relação aos 64% identificados em 2012. Nesse cenário, alguns pais têm consciência dos impactos negativos relatados e buscam reverter esse quadro: 34% dos entrevistados alegaram ter o desejo de adquirir mais tempo para lerem com seus filhos.

Para Julia Souto, pedagoga, especialista em leitura para as infâncias e curadora no Clube Quindim, o ritmo acelerado imposto pelas dinâmicas de trabalho na sociedade contemporânea tem servido como o principal impeditivo para que pais consigam extrair momentos espontâneos e até mesmo rotineiros de leitura compartilhada com os filhos. Com auxílio dela, elencamos alguns fatores que tendem a afastar os pais da leitura compartilhada, mas que podem ser remediados com pequenas atitudes.

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Clube Quindim

1. Falta de tempo dos pais: Inserindo a leitura em momentos rotineiros

Também responsável pelo declínio em geral do interesse de adultos por hábitos de leitura, movimento que tem acometido todas as faixas etárias, a falta de tempo se apresenta como a principal barreira de uma manutenção da leitura compartilhada.

Imagem do livro "Quer ler um livro comigo?", de Lawrence Schimel e Thiago Lopes. Foto: Clube Quindim.
Imagem do livro “Quer ler um livro comigo?“, de Lawrence Schimel e Thiago Lopes. Foto: Clube Quindim.

Julia indica que uma forma de combater essa indisposição com o relógio está na inserção da leitura em atividades do cotidiano. Sim, no mundo ideal seria ideal reservar um tempo diário para ler com os filhos, mas isso não quer dizer que precise ter hora marcada ou aquela fantasia de que a leitura só pode acontecer deitado na cama antes de dormir.

É fundamental que pais consigam instigar essa prática em momentos inesperados do dia ou em meio a outros momentos em família. Esse movimento pode fazer com que as crianças recebam, de forma sutil, o hábito da leitura em suas vidas. Assim, um simples café da manhã pode se tornar uma divertida história que viaja entre mundos e épocas, ou um banho, uma memória entre navegações e tesouros. 

Dessa forma, o compartilhamento de histórias passa a se tornar também uma atividade mais espontânea e, consequentemente, que gera mais interesse e curiosidade. Nem sempre é preciso terminar a história em um dia ou realizar a leitura de forma pragmática. “Basta que os livros estejam sempre acessíveis e disponíveis às crianças”, diz a pedagoga.

2. Dificuldade em exercer atividades de contemplação: Ressignificando vínculos

Não é só no cumprimento da prática em si que a falta de tempo se mostra como um problema: muitas vezes, o ato de fazer da leitura compartilhada um hábito não é bem visto pelos pais, devido a dificuldades em enxergar a atividade como algo prazeroso até mesmo para si próprio. 

Segundo a pesquisa da HarperCollins, somente 40% dos pais entrevistados disseram que ler para seus filhos é algo “divertido”. A negativa é um sintoma social da desvalorização geral da leitura enquanto prática que exercita paciência, contemplação, análise e tempo de qualidade para absorver o conteúdo. 

Imagem do livro "Quero ler meu livro", de Koen Van Biesen. Foto: Clube Quindim.
Imagem do livro “Quero ler meu livro“, de Koen Van Biesen. Foto: Clube Quindim.

Na visão de Souto, o “gostar” da leitura compartilhada tem relação direta com a capacidade de transformar o momento em um espaço afetivo para os filhos, fazendo com que seja papel dos pais abrir caminhos para que conexões reais e profundas sejam criadas ali. 

Para ela, é necessário “olhar nos olhos, considerar e valorizar o que as crianças dizem sobre o que foi lido, e as percepções que compartilham”. Muito mais do que a leitura de um texto, o ato de contar uma história em voz alta carrega muito mais aspectos do que imaginamos. “De modo geral, nós, adultos, temos uma tendência a querer chegar rapidamente a um lugar de aprendizado, de conclusão, de entendimento da história. Mas talvez o mais importante seja justamente nos abrirmos a esse momento afetivo com os filhos, permitindo que a leitura seja um espaço de encontro. Escutar é um gesto de presença”, destaca Júlia sobre o peso do diálogo. 

Ancestralmente, compartilhamos por meio da palavra e da contação de histórias um meio da perpetuação de memórias, legado e afeto. Ao redescobrir esse momento em casa, a leitura compartilhada proporciona lembranças significativas na infância; além de, é claro, estimular o prazer pela leitura e a valorização de momentos construtivos em família.

Ao ouvir uma história contada pelos pais, a narrativa ganha ainda mais peso para os pequenos, que em suas perguntas, descobrem mais sobre si mesmos e o mundo. “Quando perdemos isso [momento de troca de saberes], perdemos também o sentido de estar juntos. E pode ser aí que a leitura, mais uma vez, também possa nos ajudar”, pontua Souto.

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3. Idealização de que incentivo à leitura é papel exclusivo da escola

Outro ponto crítico detectado no estudo britânico está ligado à ideia de que ler é algo totalmente atribuído à escola. Pais consultados pela editora reforçaram que o hábito da leitura tem estado cada vez mais ligado a trabalhos escolares, em vez de algo que remeta a lazer.

Imagem do livro "A professora da floresta e a grande serpente", de Irene Vasco e Juan Palomino. Foto: Clube Quindim.
Imagem do livro “A professora da floresta e a grande serpente“, de Irene Vasco e Juan Palomino. Foto: Clube Quindim.

Essa noção também se sustenta entre as crianças: 29% dos interlocutores entre 5 e 13 anos consideram que ler é mais um assunto para aprender, do que uma coisa divertida de se fazer. Esse número cresceu em comparação aos 25% observados em 2022. 

Sozinhos, o cenário também é o mesmo. Apenas 32% dos pequenos de 5 a 10 anos frequentemente optam por ler por entretenimento. Em 2012, o índice estava em 55%. Aqui, é possível ver que o problema também está conectado diretamente à diminuição da leitura compartilhada nos lares, uma vez que a prática é fundamental para o aumento do prazer do ouvinte infantil à leitura durante os anos de formação. 

Nesse contexto, é preciso reformular a ideia de que a leitura infantil está estritamente ligada ao ambiente escolar, como apenas um “dever educacional” ou de cunho didático, o que mais afasta do que aproxima as crianças da literatura. Para isso, segundo Julia, os pais devem “compreender e valorizar o livro infantil como objeto artístico, tirando dele uma exclusividade de ensino ou viés pedagógico”, já que é justamente esse ideal que coloca a escola num papel equivocado de principal responsável por incentivar a leitura. 

Ampliando a discussão, também é preciso enxergar livros infantis como um instrumento de entretenimento, cultura e arte; uma vez que crianças são cidadãos com direito a essas frentes.

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4. Perda geracional do costume de ler

Vale ressaltar também que o declínio da leitura compartilhada nas casas nada mais é do que um reflexo direto da diminuição de leitores frequentes nos últimos anos. A última edição da pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil” do Instituto Pró-Livro (IPL), de 2024, mostrou que 53% dos brasileiros não leram nem ao menos um trecho de alguma obra nos três meses anteriores ao levantamento. Foi a primeira vez na série histórica, realizada desde 2001, que o estudo apontou que a maioria dos brasileiros não leem livros.

Imagem do livro "O menino que vendia palavras", de Ignácio de Loyola Brandão e Mariana Newlands. Foto: Clube Quindim.
Imagem do livro “O menino que vendia palavras“, de Ignácio de Loyola Brandão e Mariana Newlands. Foto: Clube Quindim.

O resultado reforça a tese de que adultos leem menos e, consequentemente, também leem menos para seus filhos. Na avaliação de Souto, a queda na leitura compartilhada é um alerta para reversão desse cenário, que tem afetado também os pais.

Ainda que a falta de tempo devido aos afazeres da vida adulta e o desinteresse pela leitura se juntem para prejudicar o hábito de ler para os filhos, a educadora propõe que haja um olhar mais cuidadoso para a questão. “Precisamos ser críticos em relação às narrativas que nos foram impostas pelo mundo do trabalho, nessa sociedade cansada que nos tornamos”, explica.

A queda na leitura compartilhada reflete mudanças estruturais na forma como as famílias organizam o tempo. O aumento da carga de trabalho, a pressão por produtividade e a presença constante da tecnologia deixaram menos espaço para atividades que exigem pausa e atenção. Nesse cenário, ler com as crianças passa a depender menos de disponibilidade e mais de uma escolha consciente.

As redes sociais e o consumo digital fragmentaram a atenção também dos adultos, que muitas vezes recorrem às telas como forma de descanso. O resultado é uma geração de pais que, mesmo que reconheçam o valor da leitura, ainda enfrentam dificuldades para incorporá-la à rotina. Criar condições para que esse hábito volte a existir envolve, principalmente, rever prioridades e aceitar que pequenos intervalos, ainda que breves, podem ser suficientes para manter o contato dos filhos com os livros.

Mais do que uma tarefa educativa, a leitura compartilhada é uma oportunidade de convivência. Quando os pais se dispõem a ler com os filhos, estabelecem uma relação de troca que contribui tanto para o desenvolvimento infantil quanto para o fortalecimento dos vínculos familiares e afetivos.

Ao ouvirem histórias variadas, as crianças compreendem, junto com os pais, as diferentes possibilidades de vida e realidades existentes. Ali, entre uma palavra e outra lida, expandem o que interpretam socialmente e enxergam para além de sua própria vida. “A leitura amplia horizontes, desperta sensibilidades e tece laços. Ela nos lembra que imaginar juntos também é uma forma de transformar o mundo”, relembra Julia. 

Resgatar esse gesto simples pode ser um passo importante para reequilibrar o cotidiano entre a pressa do mundo digital e o tempo que as histórias pedem para serem contadas junto de quem amamos.

Veja também: Como o incentivo durante a infância pode ajudar a formar um país de leitores

Estante Quindim

Conheça três livros infantis já entregues à Família Quindim que são opções ideais para o momento de leitura compartilhada em família.

Capa OLoboQueCaiuDoArmario FrenteTransparente e1721067491344
O lobo que caiu do livro, de Thierry Robberecht e Grégoire Mabire
Balas mágicas (autora Heena Baek, editora Companhia das Letrinhas)
Balas mágicas, de Heena Baek