Desde 1977, todo 18 de maio é celebrado como o Dia Internacional dos Museus. A data foi criada naquele ano pelo Conselho Internacional de Museus (ICOM) para promover esses espaços como meio para o desenvolvimento de compreensão mútua, cooperação e paz entre os povos. Não há dúvidas sobre a relevância e função dos museus para as sociedades, algo reconhecido no mundo todo sob os mais diversos aspectos. Mas você já parou para refletir sobre a importância de as crianças visitarem este espaço indo além do contexto das visitas escolares?
No artigo “O público infantil nos museus”, as autoras Cristina Carvalho e Thamiris Lopes, do Grupo de Pesquisa em Educação, Museu, Cultura e Infância (GEPEMCI) da PUC-Rio, dão os primeiros caminhos para tal reflexão: “[…] o maior valor que os museus podem ter para o público infantil, independentemente de sua tipologia, é a possibilidade de neles expandirem sua imaginação e, assim, investigar cada vez mais os sentidos dos objetos expostos”. Elas continuam: “ […] nessa perspectiva, o museu estimula o sentimento de admiração pelas coisas do mundo”.
Dessa forma, inserir este passeio aos hábitos familiares, relacionando esses locais ao prazer do lazer para além da aprendizagem ligada às escolas, é propiciar às crianças uma maneira de experimentar as diversidades do passado, do hoje e até do futuro. “Visitar um museu é favorecer para a criança mais um repertório, mais uma experiência de estar no mundo que a cerca. Eles têm um potencial a ser explorado: o de promover o encontro da criança com o diferente, com aquilo que não é o cotidiano dela”, explica Denise Peixoto, educadora e supervisora da Seção Técnico-Científica de Educação, Museografia e Ação Cultural do Museu do Ipiranga, na cidade de São Paulo.
A educadora faz uma relação entre a socialização da criança com o mundo para além da família e a inclusão de visitas a museus durante esse processo, acompanhando a faixa de idade ao longo da infância: “Ao estar no museu, o movimento corporal é diferente, assim como a forma de estar no espaço e o tempo da criança. Sempre digo aos pais para deixar o papel de trabalhar os conteúdos do museu para a escola. Já uma visita do adulto com a criança, no contexto familiar, é exploratória, de descoberta do mundo ao qual ela faz parte e não conheceu por não ter vivido aquela realidade em determinado tempo histórico — no caso dos museus de história”, pontua Denise.

Em um mundo invadido por telas, estímulos em excesso e respostas prontas, frequentar museus colabora para que outros tipos de experiências sejam criadas em família. É o que aponta Vanessa Macorin, diretora-executiva do Museu da Imaginação, em São Paulo (SP).
“Quando os pais, avós, tios e responsáveis participam ativamente da experiência, o impacto emocional se transforma completamente. Hoje vivemos uma geração muito conectada às telas e, ao mesmo tempo, carente de experiências reais e afetivas. O museu oferece justamente isso: tempo de qualidade, troca, conexão e construção de memórias inesquecíveis. No Museu da Imaginação, vemos diariamente famílias redescobrindo o prazer de brincar juntas. O celular fica de lado e dá espaço para a curiosidade, para a criatividade e para momentos genuínos entre adultos e crianças. E isso é muito poderoso”.
Durante a construção cidadã da criança, o estímulo a fazer desse um local de interação em família também enfatiza a relevância social e cultural desses locais.
“As crianças estão na fase de reproduzir muito do que os adultos, principalmente familiares próximos, fazem. Visitar museus em momentos de lazer tem um impacto extremamente positivo por dois motivos: primeiro, pelo estímulo vindo dos familiares na valorização de espaços culturais; segundo, pela relação que será feita na cabeça da criança entre o lazer com a família e o aprendizado adquirido nos estudos do meio proporcionados pela escola”, afirma Marcelo de Souza Costa, historiador com especialização em história da África, professor de História e Geografia com experiência no Ensino Fundamental e Ensino Médio em escolas públicas e privadas e idealizador do canal Profhistorizando, no YouTube e redes sociais.
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Tempo de perguntar
Sair de casa em família para visitar um museu na cidade onde se vive ou durante uma viagem constrói um momento de descobertas em conjunto entre os adultos e as crianças. De acordo com Denise Peixoto, o ambiente dos museus impulsiona o desejo de fazer perguntas a partir do estranhamento que as obras e outros objetos expostos causam em pessoas de qualquer idade.
“Museus trazem tanto o que é diferente do cotidiano quanto o que é muito semelhante. Por exemplo, um objeto que está exposto e que a criança já viu igual na casa da avó. Ou uma obra de arte em que ela acha que está tudo torto. Isso gera uma aproximação entre o adulto e a criança, uma troca que se complementa com as perguntas que são feitas: o que é isso? Para que serve? Como se usava? Assim, ocorre um encontro entre as dúvidas e a busca por respostas”, diz Denise.
O historiador e professor Marcelo de Souza Costa salienta o quanto estar nesses ambientes (que causam estranhamento) tende a ser uma experiência que marca intensamente o desenvolvimento das crianças, e como esse momento pode ser direcionado: “O espaço do museu já gera um estímulo para o aprendizado. Porém, não podemos guiar uma criança em um museu da mesma forma que iríamos guiar jovens e adultos. Tornar lúdica a experiência de visitação ao museu, como uma viagem temática, sempre trará para a criança um aprendizado único, do qual ela se lembrará durante toda sua vida”.

Durante a visita, através das perguntas despertadas, ficará claro para a família o quanto cada criança já tem seu próprio repertório. Assim, o que chamará a atenção de uma criança dentro de um museu pode não despertar a curiosidade de outra. Ou seja, o percurso não deve ser padronizado para todas elas. Uma dica importante é planejar o passeio com isso em mente. “O adulto vai precisar se lembrar de que, naquele dia, a visita será realizada para a criança e não para ele — e que ele deve aproveitar a visita pelos olhos e pela percepção da criança que, por exemplo, talvez faça perguntas que ele mesmo não faria”, ressalta Denise, do Museu do Ipiranga.
Para Vanessa, do Museu da Imaginação, uma visita compartilhada em família pode ser usufruída como uma experiência que vai além do imediato: “Muitas vezes, a criança não vai lembrar exatamente de uma informação técnica, mas vai guardar na memória que montou algo com os pais, que descobriu como funciona uma experiência científica, que riu, explorou e se encantou em um ambiente seguro, acolhedor e pensado para toda a família. No Museu da Imaginação, acreditamos que o conhecimento precisa emocionar. Porque quando emoção e aprendizado caminham juntos, a experiência deixa de ser apenas um passeio e passa a fazer parte da história daquela família”.
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Benefícios variados
“Frequentar museus contribui diretamente para o desenvolvimento emocional, social, criativo e cognitivo das crianças. Esses espaços despertam curiosidade, estimulam a imaginação, fortalecem o pensamento crítico e incentivam a vontade de descobrir o mundo”, elenca Vanessa Macorin. Confira alguns outros benefícios:
- A visitação frequente a museus gera capital cultural.
- Conhecer a herança de diversas sociedades e a complexidade contida nisso auxilia a criança no desenvolvimento de sua identidade.
- Leva à criação de memórias familiares, tanto pelo ponto de vista da criança quanto do adulto.
Museus e famílias: qual é a relação?
Tudo o que um museu oferece à sociedade extrapola a presença física nesses locais. Os conceitos trabalhados por esses espaços também têm a função de introduzir as crianças ao entendimento e à relevância do que é chamado de patrimônio histórico. E o ponto de partida para isso pode ser justamente o patrimônio histórico familiar.
O professor e historiador Marcelo seguiu por esse caminho com seus alunos, aproximando as histórias familiares da trajetória humana. “Nos últimos anos, decidi trabalhar de forma diferente conceitos de introdução aos estudos históricos, que fazem parte da grade curricular dos alunos dos 6° anos. Minha escolha foi por atuar com o núcleo familiar, criando inicialmente o conceito de patrimônio histórico familiar, no qual as crianças compartilharam histórias, itens e registros dos seus antepassados”, conta ele.
“Com este primeiro conceito definido, eu os desafiei a visitar algum museu com seus familiares. Lá, a mágica acontecia, pois a visitação se tornava uma aula invertida sobre patrimônio histórico da humanidade. As crianças não explicavam a origem de um item, mas a importância da preservação dele para a construção da memória. O projeto trouxe resultados significativos no aumento das visitações em museus por parte dos alunos”, compartilha o professor.
O trabalho desenvolvido em sala de aula provou a Marcelo que a experiência de visitar um museu se torna muito mais proveitosa para as crianças e suas famílias quando parte de uma motivação que não seja unicamente escolar. “Recomendo que as famílias vejam a visitação como um momento de lazer. Por mais que o museu seja um espaço de aprendizado, quando se impõe isso a crianças, tudo se torna menos proveitoso. Existem os roteiros dos museus, mas crie o seu próprio de acordo com o interesse da criança. Garanto que a experiência será muito mais proveitosa para todos da família. A criança fascinada e os demais familiares felizes com raízes culturais sendo fortalecidas”, conclui ele.
Vanessa Macorin acredita justamente no encantamento da criança junto de sua família para que os museus se tornem um momento frequente e prazeroso na infância e na vida adulta: “Quando a criança vive experiências emocionantes dentro de um museu, ela cresce associando conhecimento à diversão, descoberta e bem-estar. E isso faz toda a diferença. Porque quando o primeiro contato com um espaço cultural acontece de forma leve, acolhedora e encantadora, o vínculo com os museus permanece ao longo da vida”.
Dicas para visitar um museu junto a uma criança

- Siga o ritmo da criança para explorar os pontos pelos quais ela mais se interessa, sem tentar dar conta de um museu inteiro de uma única vez (o que pode ser muito cansativo para todos).
- Converse com a criança durante a visita e dê atenção às curiosidades que ela tiver.
- Se puder, vá ao mesmo museu com a criança mais de uma vez para ver espaços e obras ainda não visitados.
- Explique que muitos objetos não podem ser tocados para que eles sejam preservados. Se milhares de pessoas o tocarem, esse objeto pode ser danificado, o que privaria diversas outras pessoas de vê-lo no museu.
- Embora alguns espaços tenham espaços de sobra, esclareça que é melhor não correr para evitar acidentes que podem machucar, como tropeçar sem querer em algum objeto exposto.
- Diversos museus costumam ter atividades direcionadas para crianças durante os períodos de férias escolares ou feriados. Informe-se com os locais perto de você para planejar uma experiência ainda mais divertida.
Estante Quindim
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