A primeira imagem a que a palavra luto nos remete é à morte de alguém. Mas essa não é a única forma de experimentar perdas importantes. Para uma criança, o fim de uma amizade, a mudança de escola ou de cidade, a separação dos pais, a morte de um animal de estimação ou o encerramento de uma rotina também podem representar rupturas importantes.
“O luto não está necessariamente relacionado à morte. Podemos compreendê-lo como uma resposta emocional diante da perda de algo que tinha significado e que não estará mais disponível da mesma maneira”, explica o psicólogo Ivani Bastos Irineu, da Doctoralia, plataforma de saúde digital.
Às vezes, trata-se de uma mudança considerada necessária ou positiva pelos adultos, como a troca para uma escola melhor ou mais próxima de casa, um novo endereço, em uma casa com mais espaço ou com uma localização mais interessante. Ainda assim, a criança pode precisar elaborar emocionalmente o que, para ela, é sentido como uma perda.

O peso emocional de uma perda não é determinado pelo tamanho que parece ter aos olhos do adulto, mas pelo significado que aquela experiência tinha para a criança. “Uma escola pode representar amigos, segurança, rotina, reconhecimento e pertencimento. Uma turma pode ser o lugar onde a criança se sente aceita. Uma mudança de cidade pode significar perder o contato cotidiano com pessoas importantes”, exemplifica Ivani.
Há ainda uma questão ligada ao desenvolvimento: na infância ainda estão sendo construídas as referências sobre o mundo e sobre si mesmo. “Muitas vezes, aquilo que para o adulto é apenas uma mudança de cenário representa, para a criança, uma ruptura em seu mundo conhecido”, compara o psicólogo, reforçando a importância de tentar enxergar e compreender a perspectiva dos pequenos.
sentir é natural, mas explicar pode ser difícil
A criança nem sempre consegue explicar que está sofrendo por causa de uma perda. Em vez de falar sobre saudade, tristeza ou medo, ela pode demonstrar o que sente por meio do comportamento. Irritabilidade, choro, isolamento, alterações no sono ou no apetite, queda no rendimento escolar, maior necessidade de proximidade dos pais, regressões, medo, dificuldade de concentração e mudanças na forma de brincar estão entre os sinais que podem aparecer.
Por isso, o adulto deve prestar atenção não apenas a um comportamento isolado, mas a mudanças persistentes ou muito diferentes do padrão habitual daquela criança. “O comportamento pode ser uma espécie de linguagem quando ainda faltam palavras para nomear a experiência emocional”, explica o especialista.
amizades também chegam ao fim
Está aí um conceito que mesmo, nós, adultos temos certa dificuldade em aceitar e entender: o fim das amizades. Assim como qualquer outro tipo de relação, uma amizade também pode se enfraquecer ou mesmo chegar ao final, por diferentes motivos. No caso das crianças, quando isso acontece, costuma ser algo minimizado pelos adultos. Eles sempre acham que vai passar logo e que logo, logo virão novos amigos.
Provavelmente, outros amigos virão mesmo, com o tempo. Mas isso não é razão para invalidar ou diminuir a importância das emoções que acompanham esse tipo de término. “Para uma criança, uma amizade ocupa um lugar central na construção da identidade e do sentimento de pertencimento”, diz Ivani.
Por isso, se seu filho chega em casa dizendo “ele/ela não quer mais brincar comigo”, é preciso resistir à tentação de querer oferecer uma solução imediatamente. “Antes de pensar em ‘resolver’, precisamos reconhecer a experiência”, pontua o especialista. Primeiro é preciso escutar e legitimar o sofrimento que aquela situação causou. Uma possibilidade é perguntar: “Eu percebo que isso está doendo em você. Você gostava muito de brincar com ele. Quer me contar o que aconteceu?”
Isso não é a mesma coisa que assumir que a criança foi rejeitada ou concordar com toda a interpretação que ela fez de algo que, às vezes, foi uma percepção só dela. Mas é um convite, uma oferta de espaço, para que ela possa contar o que aconteceu e, a partir disso, tentar compreender a própria experiência. “A criança precisa primeiro sentir que aquilo que está vivendo pode ser comunicado e levado a sério”, afirma.
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o que dizer e, principalmente, o que não dizer
Por mais que a vontade seja interromper o sentimento de tristeza, isso não só é impossível, como também seria improdutivo. Ajuda muito mais reconhecer o que está acontecendo, dizendo algo como: “Eu entendo que você esteja triste. Quando alguém importante se afasta, realmente podemos sentir muita saudade”.
Também não faz sentido exigir que a criança supere rapidamente a situação. Pelo contrário. O adulto pode dar espaço e permitir que a criança sinta. Você pode dizer: “Você não precisa deixar de ficar triste imediatamente. Vamos entender juntos o que aconteceu”.

Frases como “isso é bobagem”, “não chore”, “você precisa ser forte”, “logo você esquece”, “tem coisas muito piores” ou “é só fazer outro amigo” podem transmitir que aquele sentimento é exagerado ou inadequado e, portanto, não são nada úteis. Às vezes, isso até piora a situação ou passa para a criança a mensagem de que aquilo que ela sente não é importante para você. Talvez, ela não queira contar ou pedir ajuda da próxima vez.
O objetivo não é manter a criança na tristeza. É permitir que ela atravesse a tristeza sem precisar fazer isso sozinha” — Ivani Bastos Irineu, psicólogo da Doctoralia, plataforma de saúde digital
despedidas podem ser tristes, mas têm seu papel no luto na infância
Quando algo termina, uma despedida torna mais concreta uma experiência que ainda parece difícil de compreender. “Rituais podem ajudar bastante, principalmente porque dão uma forma concreta a uma experiência que muitas vezes é abstrata para a criança”, ensina o especialista.
Escrever uma carta, guardar fotografias, fazer um desenho, visitar um lugar pela última vez, conversar sobre lembranças ou realizar uma pequena despedida são algumas possibilidades. Em alguns casos, isso ajuda a criança a reconhecer que aquilo foi importante para ela e, ao mesmo tempo, que agora está mudando.
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Mas não adianta forçar a barra. A despedida precisa fazer sentido para a própria criança. Não se trata de criar uma atividade obrigatória para toda e qualquer transformação da vida. “O que ajuda não é o ato, em si, mas o fato de possibilitar que a criança atribua sentido à experiência e possa expressar aquilo que está sentindo”, diz Ivani.
seguir em frente, sim; esquecer, nem sempre
Depois de uma perda, seja qual for, a rotina continua e isso também faz parte da elaboração. A criança pode sentir saudade e, ao mesmo tempo, voltar a brincar, estudar, conhecer pessoas e construir novas experiências. “Acolher não é interromper a vida até que a tristeza desapareça. Seguir em frente também não significa esquecer o que foi perdido”, observa o especialista.
Por isso, não é preciso correr para tentar substituir aquilo que acabou. Uma nova amizade não precisa apagar a antiga, assim como gostar da escola nova não exige deixar de sentir falta da anterior. “Aos poucos, novas referências podem ser construídas”, diz o psicólogo. “O objetivo não é substituir imediatamente aquilo que foi perdido, mas oferecer apoio para que a criança possa ampliar novamente o seu mundo”, acrescenta.
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Cada um com seu luto
A reação diante de perdas na vida, sejam elas quais foram, é diferente para cada indivíduo. A idade é um dos fatores que influenciam a maneira como a criança compreende e manifesta emoções em uma situação assim.
Os pequenos podem expressar o sofrimento principalmente pelo comportamento e pela brincadeira, ficar mais agarrados aos pais, apresentar regressões ou fazer repetidamente as mesmas perguntas sobre o que aconteceu. Na idade escolar, a capacidade de compreender a situação e falar sobre os sentimentos pode ser maior, embora eles também possam aparecer como irritabilidade, dificuldades escolares ou mudanças no comportamento.
Já o pré-adolescente tende a compreender melhor os aspectos sociais e relacionais da perda. Pode, porém, sentir vergonha de demonstrar sofrimento, buscar mais autonomia ou preferir conversar com os amigos. “Não existe uma única maneira ‘correta’ de uma criança viver o luto. É preciso observar o desenvolvimento e a singularidade de cada uma”, diz o psicólogo.
e Quando procurar ajuda?
Não existe um prazo determinado para que alguém deixe de sentir tristeza depois de uma perda. “No caso das crianças, o mais importante é observar intensidade, duração, prejuízo funcional e mudança em relação ao funcionamento habitual dela”, orienta Ivani.
Sofrimento muito intenso e persistente, isolamento significativo, recusa prolongada da escola, alterações importantes de sono ou alimentação, queda acentuada no rendimento, ansiedade intensa, regressões persistentes e perda de interesse por atividades que antes davam prazer são alguns sinais que merecem atenção.
Outro sinal de alerta importante é quando o adulto observa que a criança tem muita dificuldade de retomar sua rotina, ainda que gradualmente, ou quando o sofrimento passa a comprometer seus relacionamentos e o desenvolvimento.

Há, ainda, situações que exigem avaliação imediata. “Qualquer manifestação relacionada a desejo de morrer, desaparecer, machucar a si mesma ou falta de vontade de viver precisa ser levada muito a sério e avaliada por um profissional”, destaca o especialista.
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Para um adulto, é desafiador aceitar que nem toda dor pode ser resolvida ou “consertada”. Algumas perdas fazem parte da vida, e proteger a criança de todas elas não é possível, nem desejável. O que está ao alcance dos pais e dos cuidadores nesse cenário é ajudar a criança a entender o que está acontecendo, ajudá-la a encontrar palavras para falar sobre o que sente, apoiá-la na organização das próprias experiências e dar espaço para que ela encontre significado no que aconteceu.
Não precisamos – e nem conseguiríamos – ensinar nossos filhos a não sofrerem, mas podemos dar as mãos, oferecer um abraço e acompanhá-los na descoberta de que perdas são doloridas, mesmo, mas não definem toda a história de alguém. “A criança não precisa aprender a não sofrer com as perdas; precisa aprender, progressivamente, que pode sofrer, elaborar e continuar vivendo”, completa o psicólogo. Mesmo com um pedacinho a menos.
estante quindim
Conheça três livros que já chegaram à Família Quindim e abrem espaço para conversar com as crianças sobre as diferentes perdas que inevitavelmente vivemos:








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