Vídeos no celular em um “scroll” infinito, games cada vez mais longos e com diferentes níveis, desenhos que chamam a atenção com cores estimulantes e sons acelerados. São muitas as opções de tela que atraem as crianças atualmente. De acordo com uma pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha entre 8 e 10 de abril de 2025, 4 em cada 10 pais e responsáveis acreditam que o tempo de uso de telas pelos filhos está acima do recomendado.
Vale ressaltar que, das 2.206 pessoas entrevistadas, 822 eram responsáveis por crianças de até 6 anos, o que indica que uma grande parcela de crianças pequenas está realizando um uso excessivo de estímulos digitais.
Dentre as atividades citadas, estão o uso de celulares, TV e computadores. Segundo os 822 responsáveis diretos de crianças até 6 anos:
- 40% dos pequenos passam mais tempo do que deveriam diante das telas;
- 38% possuem um uso considerado adequado;
- 22% utilizam até menos do que o indicado pelos parâmetros educacionais de introdução ao meio digital.
A pesquisa mostra apenas um recorte atual de um problema que vem se agravando nos últimos anos. Com o avanço cada vez maior e mais abrangente da tecnologia, as opções de atenção infantil se multiplicaram em uma escalada que esbarra em sérias preocupações.
Se antes era um desafio para os pais encontrar formas de direcionar a energia e a atenção durante os anos da primeira infância, agora uma solução aparentemente simples se apresenta: uma tela. No entanto, como em toda nova realidade, os problemas já começam a surgir. Com tantas opções e estímulos, o foco em atividades que exigem maior esforço cognitivo e concentração vem se tornando cada vez mais difícil para aqueles que ainda estão em uma fase importante de crescimento e compreensão do mundo.
O que acontece dentro do cérebro infantil com o excesso de telas
Nos dois primeiros anos de vida, o cérebro infantil é capaz de formar cerca de 1 milhão de conexões neuronais por segundo. Essas sinapses, responsáveis por transmitir cada nova informação, acontecem em uma velocidade rara comparada com outras fases da vida. É justamente nesse período de “formação cerebral” que o aprendizado acontece de maneira surpreendente.
Nessa etapa, habilidades emocionais, cognitivas e sociais começam a se estruturar por meio da assimilação. Por isso, o contato com telas tem grande impacto: cores vibrantes, sons e informações digitais são absorvidos de forma intensa e veloz, podendo gerar efeitos no desenvolvimento cognitivo e até no comportamento social de cada um. Quanto maior o estímulo, maior o processamento cerebral.
Esse ritmo acelerado não está apenas em dispositivos digitais: programas de TV, animações e até conteúdos infantis passaram a ser produzidos de forma mais dinâmica, alinhados ao cenário em que vivemos. O risco é que o cérebro se acostume a esse padrão de intensidade, reorganizando-se para reagir de modo rápido apenas a esse tipo específico de estímulo.
“Vídeos curtos, sons chamativos e notificações constantes ativam sistemas de recompensa no cérebro infantil em circuitos semelhantes aos envolvidos em vícios, como álcool e jogos. Isso faz com que a criança busque cada vez mais esses estímulos. Com o tempo, o cérebro se adapta e passa a exigir experiências mais intensas e frequentes para manter o interesse”, explica o Dr. Alulin Fonseca, neurologista infantil e membro do setor de neurologia infantil da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).
Dopamina o tempo todo
Essa grande “bomba” de informações e conteúdo gera um resultado contínuo no cérebro humano, que passa a liberar dopamina, o hormônio do prazer, durante o consumo de diferentes mídias. Como ressaltado anteriormente, tudo é absorvido sem que haja uma necessidade grande de esforço mental; por isso, para o cérebro infantil, a ideia fica muito clara – pouco esforço e, ao mesmo tempo, muita “recompensa”.
Logo, parece muito mais divertido, por exemplo, continuar atrás de uma tela ao invés de ir dormir, ou até mesmo conversar com a família e amigos. Outro ponto recorrente (e preocupante) é o uso de telas durante outras tarefas do cotidiano.
“Essa hiperconectividade pode causar irritabilidade, agressividade e ansiedade quando a tela é retirada. Além disso, prejudica a formação da atenção, que fica fragmentada. A criança passa a ter dificuldade em manter foco seletivo e sustentado, além de se irritar quando interrompida. O acúmulo de tarefas junto de mídias, como comer assistindo, estudar ouvindo música ou jogar enquanto faz outra coisa, intensifica ainda mais esses prejuízos”, explica a Dra. Flávia Lima, neurologista infantil e neuropediatra formada pela UNIFESP, especialista no desenvolvimento neurológico e comportamental de crianças.
Impactos no curto, médio e longo prazo
Os efeitos dessa exposição aparecem em diferentes prazos. No curto e médio, atividades sem forte apelo visual tornam-se mais difíceis, já que exigem concentração e foco. A longo prazo, competências cognitivas e executivas, como memória de trabalho, habilidades sociais e resolução de problemas, também são comprometidas.
Isso ocorre porque o uso exagerado de telas nos anos de formação cerebral faz com que o cérebro registre esse comportamento como padrão, moldando-se para buscar recompensas rápidas em diferentes situações e contextos. Em tarefas que demandam foco prolongado, como leitura ou escrita, a criança encontra mais dificuldade, pois não recebe o mesmo nível de estímulo imediato.
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O tempo de tela e a rotina infantil
Outro fator é a substituição de atividades fundamentais da infância: o tempo gasto em frente a telas ocupa o espaço de ler, escrever, criar, brincar ao ar livre e desenvolver o pensamento crítico. Para um cérebro acostumado ao “simples” ciclo de estímulo e recompensa visual, essas práticas podem parecer cansativas.
De acordo com o artigo científico “Exposição às telas e dificuldades de atenção em crianças em idade pré-escolar” (tradução livre), publicado na revista Pediatric Neurology em 2023, foi encontrada uma relação direta entre alto tempo de tela e dificuldades de atenção em crianças de até 6 anos. Mais da metade dos estudos de longo prazo também afirmaram que o uso excessivo prejudica o foco infantil continuamente. Além disso, cada vez mais isolada, a criança apresenta dificuldades de socialização e conexão com outras pessoas.
“As funções executivas, como controle inibitório, flexibilidade cognitiva e memória de trabalho, acabam comprometidas. Isso acontece porque o tempo diante das telas substitui atividades essenciais, como brincadeiras manuais e imaginativas, fundamentais para o desenvolvimento dessas habilidades durante esse período”, destaca a Dra. Flávia Lima.
Aprendizado tecnológico & desenvolvimento saudável
Como toda ferramenta, a tecnologia tem dois lados. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) já prevê a integração pedagógica dos dispositivos digitais, estimulando o uso responsável no ambiente escolar e em casa, acompanhado dos responsáveis.
Afinal, vivemos em um mundo tecnológico: por isso, as crianças podem e devem aprender a usar e se beneficiar de diferentes ferramentas, através de um letramento digital saudável e estruturado.
Mas como garantir um consumo saudável em meio a tantos excessos? Especialistas defendem que a mudança começa no ambiente familiar. O exemplo dos responsáveis é essencial: estipular limites de tempo, reduzir o número de telas disponíveis e escolher conteúdos apropriados são medidas básicas para o problema.
Ferramentas de controle parental, como o Google Family, que permite restringir tanto o tempo quanto o acesso a aplicativos e sites específicos, podem ser aliadas. É preciso também considerar a idade: A criança já está pronta para a introdução digital? E, entre os conteúdos, quais são os mais indicados? Jogos que estimulam raciocínio crítico e tomadas de decisão, bem como desenhos interativos e informativos em ritmo adequado, são alternativas mais benéficas.
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Atividades que auxiliam no foco e na concentração
Vale ressaltar também que em um mundo cada vez mais rápido e conectado, é importante, muitas vezes, desacelerar. Dentre tantas opções midiáticas, ocupar o tempo e a mente daqueles que desfrutam o processo tão estimulante e criativo da infância pode gerar formas de desenvolvimento mais saudáveis e construtivas. Algumas delas envolvem:
- Leitura compartilhada regular (com família ou colegas). Um horário do dia apenas para a leitura infantil;
- Jogos que desenvolvem raciocínio lógico (sudoku, caça-palavras, cruzadinhas, jogos de tabuleiro);
- Escrita de diários escolares ou pessoais;
- Brincadeiras ao ar livre e imersão na natureza;
- Conversas em família;
- Rotina organizada com tempo definido para telas. Aqui, cabe a cada pai ou responsável acompanhar e delimitar o uso pessoal da criança;
- 2 em 1: Ao invés de atividades isoladas, que tal combinar tecnologia com outra experiência? Por exemplo: assistir uma videoaula ou um desenho informativo e, ao mesmo tempo, anotar considerações em um caderno.
Para muitos pais, entregar uma tela é uma forma prática de entreter os filhos após dias cansativos. Isso não é condenável. O segredo está no equilíbrio: definir limites de tempo, escolher bem os conteúdos e priorizar atividades que estimulem o desenvolvimento cognitivo e emocional em uma fase tão decisiva da vida.
Estante Quindim
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