No mês de novembro de 2025, a cidade de Belém, no Pará, vai receber a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima, a COP30, e a figura escolhida para ser o mascote oficial do encontro é o Curupira, guardião das florestas e dos animais de acordo com a tradição popular brasileira.
Com cabelos de fogo, pés virados para trás e habilidades únicas para confundir caçadores e punir aqueles que ameaçam nossa fauna e flora, o Curupira é um dos personagens mais conhecidos do folclore brasileiro, ao lado de figuras como o Saci, a Iara, o Boto Rosa.
Mas você sabia que, para muitas pessoas do nosso país, esses personagens não são apenas lendas ou fantasiosos? São seres reais e parte integrante de um sistema de crenças tão elaborado quanto o de qualquer outra fé.
Encantados: fonte de fé e de verdade
No dicionário, o folclore é definido como o conjunto de conhecimentos de um povo. São as tradições, as práticas culturais e artísticas, os costumes e provérbios que existem dentro de uma sociedade e que, tradicionalmente, são passados de geração em geração, tanto por meio da oralidade quanto pela imitação, ou seja, pelas histórias contadas e pelo que nós vemos nossos pais fazendo e passamos a fazer também.
O que acontece é que, por ser uma transferência de conhecimento feita essencialmente por meio oral, fica mais difícil de se comprovar ou explicar essa crença. Assim, com o passar do tempo, ela foi sendo equivocadamente associado com questões fantasiosas, inventadas e não verdadeiras.
Quando nos referimos aos seres encantados que estão associados popularmente ao termo folclore, como o próprio Curupira, a Mula sem Cabeça, o Saci, a Iara e tantos outros, precisamos ter em mente que, para os povos originários, esses seres não são inventados, mas absolutamente reais na cosmovisão indígena.
É o que nos explica Maickson Serrão, autor do livro ‘A mãe da mata‘, já entregue à Família Quindim’, e jornalista nascido em Boim, uma comunidade ribeirinha de Santarém, no Pará. Indígena do povo Tupinambá, contador de histórias e criador do podcast Pavulagem, que fala sobre os seres encantados da Floresta Amazônica, ele nos explica que esses seres fazem parte do cotidiano dos povos indígenas.
“Enquanto pessoas que valorizam os seres encantados, a gente acaba tirando desse conceito folclórico [de invenção] justamente porque, para nós, os seres encantados são reais, fazem parte do nosso cotidiano. A gente acredita, tem medo, respeita. Os seres encantados são movidos por forças desconhecidas e habitam os lugares sagrados, o céu, as terras, as águas. A gente sente a presença deles, sabe que estão ali”, explica Serrão.

Portanto, assim como há vários aspectos e histórias de outras religiões que não podem ser explicados pela ciência, o mesmo acontece com os encantados. “Eles fazem parte de uma crença que vem sendo passada há muitas gerações. Talvez a gente não consiga explicar cientificamente, mas acreditamos neles, sabemos da importância. Então, por exemplo, horários de meio-dia, seis horas e meia-noite são sagrados, e a gente evita determinados espaços que são a casa desses encantados. Tudo isso faz parte dessa cultura que vem sendo transmitida, principalmente, através da oralidade. Esse é um pouco do trabalho que eu faço para registrar, catalogar e perpetuar esse conhecimento que está na cabeça das pessoas, para que não se perca”, diz Maickson.
Para deixar ainda mais clara a relação, o jornalista dá o exemplo do Halloween, uma manifestação cultural em que as pessoas não acreditam verdadeiramente, mas da qual participam pela diversão. Outro exemplo que ele cita é o Festival Folclórico de Parintins que, embora tenha “alguns pés no real, é algo mais para o lado artístico”, diz ele. “Como os encantados são uma herança da oralidade, as pessoas não levam tão a sério, porque não está registrado ou, quando é registrado, é distorcido. Estamos atuando justamente para legitimar esse conhecimento, essa ancestralidade, essa cultura e tradição que a gente tem”, afirma Serrão.
Folclore não é (só) coisa de criança
Legitimar é justamente o ponto que Januária Cristina Alves aborda ao iniciarmos a entrevista. Também jornalista, ela é autora do livro Abecedário de personagens do folclore brasileiro, uma das obras utilizadas como referência para a série Cidade Invisível, da Netflix, da qual foi consultora.
“Eu recebo contato de muitos estudantes que estão desenvolvendo teses de mestrado e doutorado sobre o folclore e que ainda sofrem um preconceito muito grande. Trata-se de um saber popular, e [os materiais de] folclore muitas vezes não estão registrados por escrito, são histórias orais, que passam de boca em boca. Com isso, é como se [eles] estivessem pesquisando uma coisa menor”, explica Januária.

A promoção da obra escrita por Januária, feita pela perspectiva de que os seres do nosso folclore fazem parte do nosso inconsciente coletivo, embasou também a construção dos personagens da série, que foram colocados num contexto contemporâneo, na nossa realidade.
“O folclore não tem nada de muito científico, fica difícil de provar. Mas é uma área do conhecimento, das ciências humanas, extremamente importante. Tem a ver com a identidade de todo um povo, com a ideia de nação, das tradições que nos configuram como grupos sociais. Os povos originários têm muito a ver com o folclore, pois muitas dessas histórias os têm como raiz”, complementa a escritora.
Aqui, vale destacar, também, que é muito comum no Brasil que o folclore seja entendido como “coisa de criança”. Muito embora as atividades didáticas típicas do mês de agosto possam ser úteis para despertar a curiosidade e levar conhecimento sobre os encantados para dentro das escolas, não podemos perder de vista que o folclore é muito mais do que isso.
Januária Alves afirma que “reduzir o folclore ao dia 22 de agosto [quando se celebra o Dia do Folclore], além de triste, é muito pouco inteligente, porque um povo que não reconhece, que não conhece o seu folclore, não sabe de si, daquilo que é importante, daquilo que nos constitui”.
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Nosso folclore todo dia, em toda parte
Há diversas outras manifestações da nossa cultura e sabedoria populares presentes no dia a dia. Quer ver só? O folclore também é o hábito de pisar com o pé direito primeiro ao entrar em algum lugar; desviar de uma escada na rua para não passar por baixo dela; colocar um pé de pimenta, de arruda ou de Espada de São Jorge em casa para espantar energias negativas; não contar um sonho ruim com a “boca vazia”; dar três pulinhos para São Longuinho quando perdemos algo importante; fazer um pedido com a mão direita atrás da porta de uma igreja quando a visitamos pela primeira vez; não guardar objetos lascados ou quebrados e muito, muito mais.

O folclore está presente nos detalhes do que fazemos, como fazemos e por que fazemos. Nas tradições de família que aprendemos com nossos pais, avós e bisavós, e nas histórias contadas – e cantadas – para as crianças brincarem e dormirem. Ele existe nas rimas, nas parlendas e até nas comidas. Foi herdado dos povos originários, misturado com a sabedoria e a cultura dos povos africanos que foram aqui escravizados, sofreu influência dos colonizadores europeus, e se transformou em algo único, extraordinariamente rico e complexo, e absolutamente brasileiro.
“O folclore ainda precisa ocupar o seu lugar verdadeiro, o seu lugar de destaque na nossa cultura, na nossa literatura. Então, eu acho que realmente a gente precisa discutir essa questão e, principalmente, trabalhar para que os pesquisadores, as editoras, enfim, todo mundo que faz cultura, possa aprender e disseminar a importância de valorizar o nosso folclore como constitutivo da nossa identidade”, conclui Januária Alves.
ESTANTE QUINDIM









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