No livro “Opa! Um ovo perdido!”, de Lluís Farré, um pássaro encontra um ovo e passa a cuidar dele. Sem saber o que tem lá dentro, ele projeta sonhos e cria várias expectativas… Acontece que, quando o ovo começa a rachar e ele finalmente encontra o bichinho que estava lá dentro, a realidade se impõe e se mostra totalmente diferente do que ele imaginava. É mais ou menos o que acontece em algumas situações da vida, como a gravidez, quando há o nascimento de um bebê real e não necessariamente aquele que foi idealizado durante toda a gestação.

Antes mesmo de sentir o primeiro chute, muitas mães já começam a criar uma projeção daquele bebê: será que ele vai ser calmo ou agitado? Vai puxar alguém da família? Vai nascer saudável? Será que é menino ou menina?

Bebê real
Imagem do livro ‘Opa! Um ovo perdido!’, de Lluís Farré | Foto: Rodrigo Frazão

A psicóloga perinatal Rafaela Schiavo, do Instituto Mater Online (SP), explica que essa idealização começa a ser construída cedo, antes mesmo do teste positivo. Para ela, a raiz está lá na infância, quando a maternidade já aparece nas brincadeiras, nos desejos e nas expectativas sobre o futuro. “Desde crianças, muitas mulheres já começam a imaginar como será o filho no dia em que forem mães. Elas atribuem características psicológicas, físicas, comportamentais e até o sexo da criança”, explica.

Essa imagem vai sendo alimentada ao longo da adolescência, da juventude e da vida adulta. Por isso, quando a gestação finalmente acontece, muitas mães sentem que não estão grávidas apenas de um bebê, mas daquele bebê que foi sonhado por anos. Embora seja mais visível nas mulheres, porque a sociedade já estimula esse ímpeto para a maternidade desde cedo, com as brincadeiras de boneca, casinha e mamãe e filhinho, é preciso lembrar que isso não é algo exclusivo delas. Muitos homens também idealizam o filho que desejam ter, com preferências e expectativas.

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Essa construção não é, necessariamente, algo negativo. Pelo contrário: imaginar o bebê durante a gestação ajuda a criar vínculo. É uma forma de se conectar com alguém que ainda não está nos braços, mas já existe emocionalmente. O problema aparece quando nos damos conta de que o bebê real não corresponde ao bebê sonhado. Nem sempre é fácil aceitar isso. 

Acontece de diversas formas: quando o sexo do bebê não é o esperado, quando ele nasce com características físicas diferentes das imaginadas, quando chega com uma condição de saúde ou uma síndrome, ou mesmo quando é um bebê mais choroso, mais agitado, com necessidades muito diferentes do que os pais fantasiaram. “Os pais se vincularam por muitos anos àquele bebê da imaginação. Então, quando o bebê real não corresponde ao bebê fantasiado, há frustração e um processo de luto que pode interferir na vinculação”, afirma.

Quando o bebê nasce e a realidade se impõe, esse choque pode ser profundo. “O luto vem da frustração de desejar algo e não ser correspondido”, diz ela. Nem sempre esse processo vem acompanhado de culpa, mas ela pode aparecer em alguns casos, especialmente quando a mãe acredita que, de alguma forma, “causou” aquilo que tornou o bebê real diferente do bebê idealizado – ainda que essa ideia não tenha nenhum fundamento. 

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luto perinatal

Esse tipo de sofrimento é comum e tem até nome: luto perinatal. Muita gente associa o termo apenas à morte do bebê, mas, segundo a especialista, ele inclui várias perdas simbólicas que podem acontecer nesse período. Às vezes, a mulher queria um parto normal e acabou passando por uma cesariana; às vezes, queria amamentar e não consegue; em outros casos, o bebê precisa de internação ou cuidados especiais. O luto também aparece quando o bebê real não corresponde ao bebê imaginado, o que, de acordo com Rafaela, é um dos lutos mais frequentes na maternidade.

Esse processo pode se manifestar de maneiras diferentes. Algumas mulheres percebem um aumento da ansiedade, irritabilidade, culpa ou choro frequente. Outras sentem um peso emocional difícil de nomear. Dependendo do contexto e da saúde mental daquela pessoa, esse luto pode ser mais leve ou mais intenso. Ele também pode se agravar quando há outras intercorrências, como um parto traumático, uma amamentação difícil, a privação de sono, a falta de rede de apoio, um bebê prematuro, um histórico de ansiedade ou depressão. “Tudo isso pode levar não só a uma depressão pós-parto, como a uma alta ansiedade ou estresse”, alerta a psicóloga.

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Bebê real x bebê imaginado: QUANDO O AMOR NÃO É INSTANTÂNEO

O pós-parto, como um todo, costuma ser atravessado por expectativas romantizadas. Muitas mulheres acreditam que vão amar imediatamente, que o bebê vai dormir, que a amamentação vai fluir, que elas vão se sentir completas e realizadas o tempo todo. Mas a maternidade real é muito diferente da idealizada, apesar de poucas pessoas falarem sobre isso com honestidade para uma gestante. 

Por isso, é comum que exista estranhamento, frustração e estresse, sobretudo no começo. Isso não significa, necessariamente, adoecimento mental. O sinal de alerta aparece quando as emoções começam a incomodar profundamente, alterando o comportamento e trazendo sofrimento intenso. Isso acontece quando surgem pensamentos que envolvem fazer mal a si mesma ou ao bebê, sensação constante de incompetência, irritabilidade intensa, choro frequente, exaustão extrema e dificuldade persistente de se vincular, entre outros. 

Bebê real
Foto: Canva

Mas o vínculo não precisa ser instantâneo. Aliás, quase nunca é. Ao contrário do que a sociedade espera e prega, trata-se de uma construção e não de uma mágica. Para muitas mães, esse vínculo nasce aos poucos, no cotidiano, no banho, na troca de roupa, no colo, na rotina repetida. Aos poucos, o bebê idealizado abre espaço para aquela criança de verdade.

“A mãe vai conhecendo o bebê real por meio do contato diário com ele. Então, vai se adaptando”, explica a psicóloga, que reforça algo que pode ser libertador para muitas mulheres: “Existe uma frustração para quase 99% das mães. O bebê real não corresponde ao bebê fantasiado, e a maternidade real não corresponde à ideal”. Com o tempo, com suporte e com acolhimento, essa adaptação costuma acontecer, tornando a maternidade mais leve e possível.

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Emoções não precisam ser “corrigidas”

Nesse processo, a rede de apoio tem um papel essencial. A psicóloga afirma que familiares e parceiros ajudam quando permitem que a mãe fale a verdade. Quando escutam sem julgamento, sem frases prontas e sem tentativas de corrigir a emoção. O que mais machuca, segundo ela, é a romantização e o silenciamento. Falas como “mas Deus te mandou assim”, “você tem que ficar feliz”, “não fala isso”, “tem gente que nem consegue ter filho” não acolhem. Pelo contrário: bloqueiam. 

Quando a mulher aprende que não pode compartilhar o que sente, tende a adoecer. “Um dos maiores fatores de risco é justamente a romantização e a mulher não ter espaço para falar sobre as suas frustrações”, diz a psicóloga. Validar o sentimento, por outro lado, faz com que a mãe consiga colocar a emoção para fora, elaborar o luto e, aos poucos, abrir espaço para o vínculo com o bebê real.

Bebê real
Foto: Canva

A chegada de um bebê é um encontro com um outro indivíduo, alguém que não veio para cumprir expectativas, mas para ser conhecido. Para muitas famílias, esse encontro começa com uma quebra: o bebê imaginado precisa “morrer” para que o bebê real possa nascer, não apenas fisiologicamente, mas também na cabeça e no coração. De maneira alguma isso pode ser confundido com falta de amor. É um processo humano, comum e digno de reconhecimento e acolhimento. Ninguém sabe o que tem dentro do ovo, antes de ele se quebrar. 

estante quindim

Conheça três obras, já entregues pelo Clube Quindim, que dialogam sobre as expectativas em relação ao maternar e quando elas se quebram:

Opa! Um ovo perdido!
Opa! Um ovo perdido!, de Lluís Farré
mamãe zangada jutta bauer
Mamãe Zangada, de Jutta Bauer
Orbitar (autor Alexandre Rampazo, editora Maralto)
Orbitar, de Alexandre Rampazo